Conheça Yhuri Cruz, autor de quadro estampado na blusa de Linn da Quebrada no ‘BBB’

·3 min de leitura

A mãe do artista plástico Yhuri Cruz sempre foi devota de Anastácia, mulher negra escravizada retratada com uma mordaça pelo pintor francês Jacques Étienne Arago no século XIX. Eis que em 2019, o carioca de Olaria resolveu enxergar a imagem cultuada por toda uma vida com outros olhos: retirou a máscara e pintou uma boca. Dessa atitude, nasceu o quadro “Monumento à voz de Anastácia”, sucesso de crítica nos círculos de arte, mas que agora ganhou outra dimensão. Saiu das galerias e museus e entrou na casa de milhões de brasileiros ao ser estampado na camiseta usada pela cantora e atriz Linn da Quebrada, no dia em que ela entrou no “Big Brother Brasil 22”. Bastou cruzar a porta da casa para o termo “Anastácia” ficar entre os trending topics do Twitter. Yhuri, por consequência, viu suas redes sociais bombarem.

— Quando a Lina (Pereira dos Santos, o nome de Linn da Quebrada) me convidou para colocar esse quadro numa camiseta, ela estava interessada em transformar uma imagem submissa numa outra livre, que lida com a voz — diz o artista, de 30 anos.

Os dois se conheceram pelo Instagram, quando Linn comprou uma obra dele em 2020. A partir daí, ficaram amigos e apoiadores da arte um do outro.

Hoje, “Monumento à voz de Anastácia” está exposto no Instituto Moreira Salles, em São Paulo, na mostra “Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros”, e no Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), na Gamboa, no Rio. Ao lado das obras, há sempre santinhos para os espectadores levarem para casa com a “Oração a Anastácia Livre”, também de autoria de Yhuri, que é escritor e dramaturgo.

Formado em Ciências Políticas (“Fiquei em dúvida entre Belas Artes e a carreira na diplomacia”, diz), Yhuri enxerga seus trabalhos como “emancipação de imagens”. Os desenhos, quadros, esculturas, textos e performances que produz tratam, majoritariamente, da história do povo negro e das narrativas de subordinação a que foi submetido.

No Museu de Arte do Rio, Yhuri tem exposta a impactante instalação “Noite faminta”, uma porta construída inteiramente de granito, com dois metros de altura, inspirada num poema de autoria dele mesmo e que simboliza o túmulo do Rio. Ela foi exibida pela primeira vez na Praça Mauá, a alguns metros do Cais Valongo, o porto que mais recebeu escravizados no mundo.

— Tenho diversos trabalhos que lidam com submissão, não só escravocrata, mas também da paisagem, do corpo e da própria ficção, como a ficção ao redor do corpo negro é também submissa — diz ele.

Para o diretor-geral do MUHCAB, Leandro Santanna, as obras de Yhuri puxam fios da meada da História. A partir delas, descortinam-se o passado do Brasil e discute-se o presente.

—São trabalhos instigantes, que provocam uma série de discussões a partir do impacto visual. Ao mesmo tempo que têm beleza estética, causam desconforto, porque quebram paradigmas — diz Leandro.

Com tanta relevância, o artista tem sido disputado para mostras individuais.

— Tenho conversado com ele sobre a possibilidade de estar conosco na sala Mercedes batista, que vamos abrir no segundo semestre para exposições mais curtas — o diretor-geral do MUHCAB.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos