Conheça a origem e os significados de termos racistas não abolidos pela Lei Áurea

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(Imagem: Isabela Alves/@egunzinha)
(Imagem: Isabela Alves/@egunzinha)
  • Termos como ‘denegrir’, ‘hoje é dia de branco’ e ‘cabelo de bombril’ fazem, historicamente, parte do vocabulário brasileiro; entenda porquê essas expressões compõem uma estrutura de linguagem racista

  • Confira a terceira matéria da série “O mito da abolição”, que toma como ponto de partida o 13 de maio para refletir sobre as práticas racistas que perduram na nossa sociedade e demonstram a importância de olhar para o hoje desmistificando mentiras contadas no passado

Texto: Caroline Nunes Edição: Nataly Simões

Expressões de linguagem e palavras racistas estão enraizadas no cotidiano brasileiro. Termos como “denegrir”, “mulato” e até mesmo “nasceu com o pé na cozinha” foram normalizados em nosso vocabulário, mas seus significados revelam mais uma das facetas do racismo, que oprime e desumaniza a população afro-brasileira.

“A língua é uma estrutura que inclui ou exclui e serve como ferramenta fundamental da organização social, da qual o racismo estrutural faz parte”, afirma a doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea, Bruna Rocha, fundadora da plataforma Semiótica Antirracista.

As palavras e expressões linguísticas populares são peças importantes de um fenômeno maior denominado de Língua Materna, que é um dos principais instrumentos de identidade cultural de um povo. Em seu caráter etimológico, essa língua manifesta evidências de sua estrutura a partir da demonstração de origens mais comuns, semelhanças entre línguas diferentes, compreensão de palavras novas, além de facilitar a investigação sobre as suas possíveis raízes históricas. É o que explica o professor Inácio Rodrigues, doutor em Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa.

O verbete “mulato”, de acordo com dicionário Houassis, significa pessoa misturada de branco e negro. Já na Espanha, por exemplo, o mesmo termo é proveniente do filhote macho do cruzamento de cavalo com jumenta ou de jumento com égua. Com esse exemplo, Inácio Rodrigues explica que usar termos inadequados na intenção de suavizar os traços étnicos-raciais de uma pessoa pode piorar a situação, tornando a expressão utilizada mais discriminatória ainda.

“Quantas vezes já ouvimos: ‘E aí morena?’, com a intenção de ser menos ofensivo. Pelo contrário, amplia-se ainda mais o tom racista. Há também expressões como ‘Negro de alma branca’, ou ‘negro de traços finos’, que seguem a mesma lógica do clareamento adequado à estética europeia”, descreve o professor.

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Já ouviu falar em ideologia linguística?

Segundo Bruna Rocha, é importante entender que a linguagem no Brasil é marcada pelos interesses de quem construiu e dominou o país no decorrer dos anos, que foram os brancos. De acordo com Inácio, a língua portuguesa é também lugar de manifestação de ideologias. Talvez em razão disso tenha constituído muitas práticas linguísticas típicas do discurso racista, além de outras formas de exclusão e de relações de poder dadas pela linguagem. O termo “nasceu com o pé na cozinha”, por exemplo, estabelece uma relação de poder a partir de “lugar permitido para negros apenas para trabalhar”.

Outras expressões racistas como “cabelo de bombril”, “cabelo ruim” e “cabelo duro”, não têm necessariamente projeção histórica, mas o uso delas se trata de discriminação em função da alusão de um produto em depreciação do cabelo crespo. “Uma forma de negação de partes do próprio corpo negro e a baixa autoestima secular no Brasil, sobretudo, com relação às mulheres negras”, complementa o professor Inácio.

Muitas palavras e expressões guardam valores ideológicos próprios de um imaginário constituído por crenças de um determinado grupo em detrimento de outro, tanto na valorização de aspectos dados como positivos quanto no uso pejorativo de desvalorização. Um exemplo é a expressão “amanhã é dia de branco”, ou seja, é dia de trabalhar, como se os negros não trabalhassem tanto quanto os brancos. Já na utilização depreciativa, o dito popular “serviço de preto” é taxado como algo mal feito.

Polarização do branco e do preto

A pesquisadora de Semiótica Antirracista avalia que a linguagem popular compreende e aceita vários tipos de violência e apagamentos sociais. “A língua corre para a norma, que sempre busca uma ordem de discurso que silencia. O dito sempre esconde o não dito. Por essa razão é tão difícil combater o racismo linguístico”, explica Bruna.

Uma demonstração prática disso é a expressão popular “inveja branca”. Esse termo determina a ideia do branco como algo positivo, conforme destaca Inácio. Seu contraponto comumente é utilizado pela cor preta. “A coisa tá preta”, “inveja preta”, “magia negra”, “denegrir”, “lista negra”, “mercado negro” e “ovelha negra”, por exemplo.

“Inúmeras expressões em que a palavra ‘negro’ representa algo pejorativo, prejudicial, ilegal e depreciativo se aludem ao processo de mais de três séculos de escravidão e não se apagam facilmente. A extensa lista de uso de conotação racista na linguagem é sinal inequívoco da permanência de uma forma de pensamento”, salienta o professor.

Expressões racistas contra outras etnias

O doutor em Estudos Pós-Graduados em Língua Portuguesa salienta que existem várias formas de racismo na linguagem também contra outras etnias, mas em menor proporção do que para os afrodescendentes. Inácio cita a palavra “polaco”, usada no Sul do Brasil para se referir de forma pejorativa aos descendentes de poloneses. Outro exemplo é o verbo “judiar”, que remete ao povo judeu de forma depreciativa.

“Na questão linguística há muitos aspectos que teremos que nos preocupar para uma mudança de postura de fato. Claro que há coisas magníficas no universo da linguagem verbal, como por exemplo, nomeações de origem tupi, africana, orientais, árabes, entre outras. Todas deram sua contribuição para construção de nossa identidade linguística”, analisa.

Como abolir expressões racistas do seu vocabulário

A doutoranda Bruna acredita que é necessário avaliar o contexto de utilização de cada expressão ou palavra de cunho racista. “O hábito social, que é a fala, tenciona permanentemente a estrutura linguística. No entanto, só quem vai de fato produzir modificações nas estruturas, nos dicionários e nos livros didáticos, é quem estiver em uma posição de poder”, considera.

Segundo o professor Inácio, provocar o questionamento nos primeiros ciclos de educação formal pode ser um caminho para despertar o senso crítico da sociedade desde a infância. Ele cita o exemplo dos lápis de cor, utilizados na pintura de desenhos comumente oferecidos na educação infantil.

“Aprendemos que ‘cor de pele’ é aquela cor meio para o bege. Cabe a pergunta: cor da pele de quem é esta? Algumas vezes o uso dos termos é tão constante e está tão entranhado que faz parecer natural. Como dizem, ‘passa batido’. É preciso começar a reavaliar o discurso”, conclui.

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