Conheça Paloma Costa, a brasileira que discursou ao lado de Greta na ONU

"Foi o universo me dizendo que eu estou no caminho certo", afirmou Paloma sobre oportunidade de discursar na ONU. Foto: Arquivo Pessoal

Sentada ao lado da jovem ambientalista Greta Thunberg, de 16 anos, a brasileira Paloma Costa, de 27 anos, chamou atenção com seu discurso poderoso durante a Cúpula da ONU (Organização das Nações Unidas).

Ao falar sobre as recentes queimadas na Amazônia, a estudante de direito da Universidade de Brasília disse: “Não precisamos de oração, precisamos de ação”. O discurso forte e firme da brasileira levantou reflexões e fez com que alguns jovens, adultos e até políticos passassem a se movimentar em busca de uma sociedade mais sustentável.

Porém, quem é Paloma Costa e quais são suas iniciativas para um Brasil e um planeta mais sustentável? Coordenadora da ONG (Organização Não Governamental) Engajamundo e criadora do projeto Ciclimáticos, a brasileira afirmou ao blog que sempre teve uma ligação muito forte com a natureza e que isso foi guiando sua trajetória até hoje.

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Me conte um pouco sobre sua trajetória na militância pela preservação ambiental. Quando começou a se interessar pelo assunto?

Paloma Costa: Desde criança, eu sempre fui muito instigada a trabalhar com o meio ambiente. A minha mãe, que foi quem me criou, sempre me levou para parque nacional, me botou em escoteiro... então, desde criancinha, eu trabalhei com a questão socioambiental. Eu sempre me senti melhor dentro da floresta, na chapada, nas cachoeiras aqui perto [em Brasília], na fazenda… coisas assim. Aí quando eu ainda estava fazendo [faculdade de] ciências sociais, eu fiz uma pesquisa sobre a história dos parques nacionais comparando com os Estados Unidos e eu fiquei super encantada.

Foi assim que foi seu começo?

Paloma: Eu fui descobrindo várias coisas sobre preservacionismo, conservacionismo e tal. Aí, quando eu entrei em direito, em 2014, o meu segundo estágio já foi no Instituto Socioambiental. Aí eu me encontrei. Eu aprendi bastante e também evoluí bastante na questão ambiental. Aí eu passei um ano no Chile fazendo intercâmbio, lá na Universidade do Chile e trabalhando na Corte Suprema do Chile. Quando eu voltei do Chile, dois amigos meus me convidaram para participar do Engaja.

Como veio o convite para falar na ONU?

Paloma: Em julho, eu fui para Abu Dhabi para ser um dos 30 jovens do mundo que iam representar em uma reunião preparatória. Desde então, eu e esses outros jovens estamos trabalhando diretamente com a secretaria da juventude. Aí, o gabinete do secretário geral da ONU pediu indicações de nomes e o pessoal escolheu o meu por essa minha experiência diversa. Eu coordeno a maior organização de jovens na pauta climática no Brasil, eu sou advogada, trabalho com direito indígena, quilombola e ambiental e eu criei o meu projeto de bicicleta, que é o Ciclimáticos.

Te surpreendeu?

Paloma: Não me surpreendeu, porque foi por todo o meu trabalho. Eu acordo todo dia e tenho aula, trabalho, faço reunião de segunda e quarta a noite... eu dedico a minha vida para o que eu acredito. Eu entendo que foi o universo me dizendo que eu estou no caminho certo.

Qual foi sua sensação de estar lá?

Paloma: Foi incrível. Eu acho que eu demorei para me tocar que eu estava participando da abertura do maior evento climático do ano. Foi um evento único. O secretário convidou todo mundo pra ser ambicioso e isso foi espetacular, apesar de o resultado não ter sido tão fabuloso quanto a proposta. Depois eu fui descobrir que eu fui a primeira brasileira a abrir essa cúpula de clima. Eu estava bem nervosa, mas espero ter representado de alguma forma.

Como foi o processo para escrever o seu discurso?

Paloma: Ele foi coletivo. Quando o pessoal da ONU conversou comigo, eles me pediram para não compartilhar isso com muita gente, mas já no dia seguinte eles mesmos contaram para o grupo de trabalho dos jovens e eles me ajudaram a escrever. Como eles são de diversas partes [do mundo] foi muito legal escutar o que eles achavam que tinha que ter no discurso. Mas, como eu sou brasileira, o meu discurso tinha que ter muito do que a gente está vivendo agora, que é um grande retrocesso na pauta socioambiental. O pessoal da ONU também me ajudou a deixar o meu discurso mais diplomático. Mas, na hora que eu sentei pra escrever, eu também sabia muito bem o que eu queria dizer. Em três minutos, não dá para pedir o mundo, mas dá pra pedir para o mundo se juntar e resolver os problemas.

Acha que conseguiu impactar com seu discurso?

Paloma: Eu acho que consegui impactar algumas pessoas com meu discurso, mas um problema foi que eu não tive representantes do governo federal que me procuraram ou foram abertos a discutir comigo alguns passos, mas eu conheci várias mulheres que são as primeiras mulheres ministras em seus países, como Sudão, África do Sul, e entendi um pouco das dificuldades que elas têm e fiquei esperançosa em saber que elas refletiram sobre tudo o que eu tinha falado. Aqui no Brasil, os maiores resultados que eu tive foram com prefeitos e deputados federais que me procuraram e marcaram comigo para a gente conversar e pensar em estratégias, emplacar coisas positivas na agenda climática...

Você já conhecia a Greta?

Paloma: Eu já conhecia ela. A gente fez uma greve juntas. Até falei para ela que eu achava que ela não lembrava de mim, mas eu, obviamente, lembro dela. Ela é uma menina incrível, né? Mas é óbvio que ela representa a perspectiva dela, né? Ela é mais nova que eu, eu não mato mais aula pra ir fazer greve. Eu mato trabalho, eu mato a minha universidade, eu deixo de fazer o meu TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]... então, são pesos, medidas e discursos diferentes. Eu gostei muito de como ela se posicionou. Fiquei bem orgulhosa.

Você tem a intenção de se candidatar para algum cargo público?

Paloma: Não tenho a intenção de me candidatar, mas ficaria feliz de ser a pessoa que toma as decisões, mas sem um cargo.