Conhecido pela luta contra o racismo, ex-BBB Rodrigo França adapta peça ‘O Pequeno Príncipe Preto’, de sua autoria, em livro

Amanda Pinheiro

Antes mesmo de entrar no “Big Brother Brasil 19”, Rodrigo França já tinha começado a escrever sua história na arte. Ator, diretor, roteirista, dramaturgo, filósofo e cientista político, o carioca acaba de transformar sua peça “O Pequeno Príncipe Preto”, que está há dois anos em cartaz (roteirizada e dirigida por ele), em livro.

— Acredito que a nossa ferramenta política é a arte. E percebi que muita gente que não tinha assistido à peça me pedia o texto para conhecer a obra. Então, vi que esse trabalho tem uma ideia muito potente para ficar somente naquele espaço. E o livro tem condições de circular por todos os lugares. No geral, essa escrita veio da necessidade de compartilhar a mensagem que o espetáculo levou ao longo de dois anos e emocionou tanta gente, sobretudo as crianças — afirma ele, que, em sua passagem pelo “BBB”, levantou sua bandeira da luta contra o racismo: — Minha ida para o reality foi uma estratégia para furar a bolha e chegar aonde o teatro e as salas de aula não chegam. Então, o que eu falava no programa não era nenhuma novidade para quem tem acesso a livros, à vida acadêmica. Mas eu queria falar para a pessoa que tem somente a TV como um meio de conhecimento. Uma vez, um amigo me disse que a mãe dele parava para me ouvir, e isso me deixou emocionado. Foi o resultado do que eu queria fazer naquele espaço.

Dos 42 anos de vida, 28 são dedicados a arte, cultura e educação. Em “Contos negreiros do Brasil”, por exemplo, em que assinou a pesquisa da obra, Rodrigo levou cerca de 60 mil pessoas aos teatros. No currículo, seu trabalho mais recente é “Oboró, masculinidades negras”, em que é diretor. Já “O Pequeno Príncipe Preto” conta a história de um príncipe que leva amor e conhecimento da cultura negra pelo mundo. No livro, apesar de algumas modificações, Rodrigo prioriza a mensagem principal da história: Ubuntu, a palavra de origem africana que significa “eu sou porque nós somos”.

— Minha família foi fundamental na minha construção até o que eu sou hoje. Essa obra fala sobre fortalecimento, autocuidado, amor, e para afirmar que não existe uma tecnologia mais potente do que estar junto. Não podemos falar somente das nossas dores, precisamos abrir nossa alegrias e nossos afetos. Os negros têm potência, história e cultura. Então, quando o livro fala sobre Ubuntu, significa acreditar que o coletivo ainda é a melhor alternativa para poder viver em segurança — comenta Rodrigo, que analisa: — Embora muita gente negra escreva, o acesso a uma editora ainda é restrito, e isso gera uma carência de publicações que coloquem o negro como protagonista. Está na hora de avançarmos. Não basta a gente ter um espaço com muitas pessoas e apenas uma negra. Precisamos estar também nas relações de poder.

Relação duradoura

No “Big Brother Brasil 19”, Rodrigo teve como melhor amigo o também carioca Danrley. Juntos, construíram uma forte amizade dentro da casa, que continua até hoje. A aproximação entre eles, segundo o autor, deu-se por identificação, admiração e também por necessidade.

— Eu olhava Danrley como um menino que eu gostaria de ter sido. E nossa aproximação foi verdadeira. Para mim, ele tinha que ter sido o campeão, e eu prometi que tudo o que eu pudesse fazer para ele ser recompensado fora do programa eu faria. E estou fazendo — conta Rodrigo, emocionado.

Antes do “BBB”, Danrley vendia sorvetes na praia, dava aulas de reforço e se dedicava à vida acadêmica. Hoje ele trabalha com redes sociais e integra o elenco de “Oboró, masculinidades negras”, dirigido por Rodrigo.

— Essa carreira de ator foi uma coisa nova que aconteceu, e eu nunca me imaginei trabalhando com isso antes. A oportunidade chegou, eu experimentei e gostei. Já fiz participações no cinema e no teatro. Mas, sem dúvida, Oboró foi e está sendo um marco na minha vida profissional e pessoal — afirma Danrley, que, assim como dizia na casa mais vigiada do Brasil, tem Rodrigo como um pai: — Nossa aproximação foi gostosa e natural. A gente se fortaleceu lá dentro, e isso dura aqui fora. Eu e minha família temos um carinho especial pelo Rodrigo e somos gratos por tudo o que ele fez e faz por nós. A amizade dele é um dos meus prêmios do programa.

Certo de que não voltaria para o “BBB”, Danrley afirma que, na atual edição, já tem sua torcida definida:

— Thelma e Babu. Eu não assisto muito, mas gosto dos dois e torço por eles.