Consórcios chegam a recorde de 7,8 milhões de participantes. Veja para quem é uma opção

Patricia Valle
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O setor de consórcios fechou 2020 com 7,83 milhões de participantes ativos, um recorde, e o número de negócios alcançou R$ 163,63 bilhões, 21,5% que em 2019. Na avaliação do mercado, a pandemia levou as pessoas a se preocuparem mais com o seu futuro e a buscar meios de formar um patrimônio. E o sistema se mostrou atrativo financeiramente mesmo em um cenário de juros baixos.

— O consumidor ficou mais atento as suas finanças nessa pandemia. Quem não perdeu o emprego analisou o que estava fazendo pelo o seu futuro e o consórcio é um modelo econômico de acumulação de patrimônio — afirmou Paulo Roberto Rossi, presidente da Associação Brasileira de administradores de consórcios (ABAC).

Apesar da taxa de juros estar nas mínimas históricas, o crédito ficou restrito e ainda caro para a classe média, principalmente a mais baixa. E ao mesmo tempo, para quem estava querendo investir, diminuiu a rentabilidade da renda fixa. Com isso, investir em consórcio virou uma boa opção.

— O produto ainda é visto para acumulação de capital. Muitos brasileiros que tinham recursos para investir ficaram sem produtos rentáveis de fácil entendimento. Ao mesmo tempo, houve uma modernização na apresentação do produto, com mais empresas oferecendo, o que impulsionou o setor — afirma Heverton Peixoto, presidente da Wiz, uma gestora de canais de distribuição de produtos financeiros.

Por meio desse sistema, o participante paga uma parcela mensal para adquirir um bem ou um serviço de um valor preestipulado. No entanto, o resgate do valor acontece ao longo do prazo de acumulação por meio de sorteios. A maior parte dos consórcios do ano foi para a aquisição de veículos leves, com 3,84 milhões de participantes, seguido pela modalidade de motocicletas, com 2,24 milhões de pessoas, e o terceiro tipo mais procurado foi para a carta de imóvel, com 1,04 milhões. No entanto, os segmentos que mais cresceram foram de eletroeletrônicos e outros bens móveis duráveis, com 80,9%, e serviços, com 51,3%.

Segundo os especialistas em finanças, o consórcio é em geral mais barato do que o financiamento de um bem, mas é recomendado apenas para quem não tem pressa de obtê-lo. Já que pode-se ser sorteado no início ou fim do prazo.

— A vantagem é não ter taxa de juros. E como a taxa de juros no financiamento vem subindo, você acaba pagando mais do que no consórcio. Então tem um custo financeiro mais baixo. Em contrapartida, não se tem o bem de imediato — afirma Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac).

O consórcio é interessante principalmente para quem não tem disciplina para poupar dinheiro.

— A verdade é que as pessoas não conseguem guardar dinheiro, porque nunca “sobra”. Mas quando vira uma obrigação de pagar um boleto do consórcio, poupa — analisa Myrian Lund, planejadora financeira e professora da FGV.

A empresária Bibiana Pereira Curvelo, 45 anos, sabe que se investisse sempre o mesmo valor poderia ter um retorno maior, mas admite que não faria com tanta disciplina:

— Já estou no meu terceiro consórcio de veículo, e vejo como um investimento. Assim, eu faço uma poupança forçada. Todo mês pago o boleto por débito automático. Se eu for contemplada agora, posso trocar o carro. Se for daqui a uns três anos, posso comprar para o meu filho, que vai tirar a carteira de motorista.

Mesmo não tendo pressa para receber, ela optou por fazer lances regulares para aumentar as chances de ser sorteada, o que aumentaria o ganho financeiro.

— Se eu for contemplada logo, uma opção é vender a carta e realizar um lucro — diz.

O consórcio ainda é predominantemente usado pela classe C como meio mais barato de conquistar patrimônio. No entanto, o público tem mudado para classes mais alta, que vem a modalidade como um investimento. Em 2020, houve um crescimento de 15,6% no tíquete médio anual contratado, em relação a 2019, para R$ 54,18 mil, segundo a ABAC.

— Fiz o meu terceiro consórcio de veículo ano passado. O primeiro foi para comprar um carro para a minha filha, no segundo eu troquei o meu carro e, neste último, eu apliquei o dinheiro no mercado financeiro. Para mim é uma boa forma de guardar o dinheiro — afirma Amelia Neli Lemos Watanabe, 59 anos, comerciante.

Uma grande vantagem do consórcio em relação ao financiamento é não precisar dar um valor de entrada. Além disso, não incide juros, o que encarece muito o financiamento para quem o faz com a menor entrada e maior prazo possível. Por isso, é uma opção econômica no longo prazo.

No entanto, é preciso ficar atento aos custos. É cobrada uma taxa de administração, para gerir a carteira, que varia de acordo com o banco ou administrador, e, por vezes, um valor para o fundo de reserva e um seguro. Além disso, as parcelas são reajustadas para manter o valor de compra.

— Antes de entrar é preciso se planejar para pagar as parcelas. O não pagamento pode ter incidência de juros e até mesmo levar a saída do consórcio. E o valor da mensalidade varia de acordo com o reajuste no contrato e, também, se o bem se valorizar no mercado — afirma Myrian Lund.

Para quem deseja ser contemplado no sorteio mais no início, é imprescindível pagar ao longo do tempo lances para aumentar as chances. Quanto maior o valor do lance, maior é a chance de ser logo contemplado. Isso precisa estar no planejamento. Caso não sejam feitos lances, é possível que só seja contemplado no fim do consórcio.

Também é preciso pesquisar a sua procedência.

— É importante ver na ABAC e no Banco Central se o consórcio tem reclamações, como demora na entrega — afirma Miguel de Oliveira, diretor da Anefac.

Banco do Brasil

Automóvel: prazo de até 100 meses e taxa de administração média de 18,8%

Motocicleta: prazo de até 84 meses e taxa de administração média de 22%

Imóvel: prazo de até 180 meses e taxa de administração média de 20%

Trator/caminhão: até 120 meses e taxa de administração média de 15%

Serviços: prazo de até 48 meses e taxa de administração média de 24%

Bradesco

Imóveis: prazo de 200 meses para pessoa física e jurídica e taxa de administração varia de acordo com o valor do crédito

Veículos leves: prazo de 84 meses e a taxa de administração é varia de acordo com o valor do crédito

Veículos pesados: prazo de 100 meses e a taxa de administração é varia de acordo com o valor do crédito

Caixa Econômica

Imóveis: prazo de 200 meses e taxa de administração variam de acordo com o valor do crédito: 20% para créditos de R$ 70 mil a R$300 mil e 18% para créditos de a partir de R$400 mil.

Veículos: prazo de 80 meses e a taxa de administração é de 17% em todos os planos

Itaú

Imóveis: valor a partir de R$ 50 mil, prazo de até 185 meses, taxa de administração de 25% e 2% para o fundo de reserva

Veículos: valor a partir de R$ 15.905,70, prazo de até 94 meses, taxa de administração de 26% e 2% para o fundo de reserva

Santander

Imóveis: valores de R$ 60 mil até R$ 679 mil, prazo de até 180 meses e taxa de administração de 20%.

Automóveis: valores de R$ 18 mil até R$ 177 mil, prazo de até 72 meses e taxa de administração de 14%.

Veículos pesados: valores de R$ 150 mil até R$ 293 mil, prazo de até 100 meses e taxa de administração de 11%.

Serviços: valores de R$ 8 mil até R$ 16 mil, prazo de até 36 meses e taxa de administração de 18%.

*considera a taxa de administração total do consórcio