Conselho de Química constata que Cedae ainda não sabe quanto de carvão será necessário para neutralizar geosmina

Vera Araújo
Mananciais que abastecem Estação de Tratamento de Água do Guandu, em Seropédica

RIO — Em vistoria à Estação de Tratamento de Água do Guandu, em Seropédica, nesta sexta-feira, químicos do Conselho Regional de Química (CRQ) constataram que a Cedae ainda não sabe qual a quantidade necessária de carvão ativado para neutralizar a presença da geosmina na água. Segundo o presidente do CRQ, Rafael Almada, os químicos da entidade flagraram os funcionários da Cedae ainda na fase de testes do produto. O resultado do primeiro teste com a água, após o uso do carvão ativado, sairá neste sábado.

— A Cedae ainda está tentando descobrir a dosagem correta do carvão ativado. A gente precisa que a Cedae garanta para gente quando essa água tratada na Estação de Tratamento de Água já está saindo sem a geosmina. Por isso pedimos o resultados dessas análises. Se a gente perceber que os índices de geosmina estão caindo ou se ela desapareceu de vez, já será uma melhoria da crise que estamos vivenciando — disse Almada.

Fabio Souza, chefe de fiscalização do conselho que esteve à frente da visita, relatou que os métodos empregados pelos funcionários da Cedae estão corretos e que os profissionais de química da companhia trabalhavam de acordo com as normas técnicas.

— Como o uso do carvão começou nesta sexta-feira ainda não pudemos confirmar a efetividade do tratamento em relação à redução do sabor e odor estranhos à água. Isto será possível a partir do resultado das análises, que começaram a ser feitas — afirmou Souza, que já solicitou à Cedae os resultados de todos os testes posteriores.

Segundo o Conselho Regional de Química, além de verificar os processos de análise, a fiscalização também serviu para vistoriar equipamentos e os métodos de controle inerentes à captação e tratamento da água para consumo humano, distribuída na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Souza explicou que o objetivo era observar se as operações destinadas ao tratamento da água estavam de acordo com as normas técnicas vigentes, previstas na Portaria nº2.914/2011 do Ministério da Saúde, para garantia do padrão de potabilidade da água distribuída, a partir do uso do carvão ativado.

O carvão ativado tem propriedades que o tornam capaz de reter tanto a geosmina quanto alguns outros compostos orgânicos que possam estar presentes na água do Guandu. Mas só os testes comprovarão a potabilidade desta água.

— Na análise sensorial feita pela Cedae na Estação de Tratamento do Guandu, ainda há um pouco de odor e sabor de terra, mas isso pode ser resultado ainda da otimização da dosagem de carvão, que vai ser ajustada a partir dos resultados das análises, feitas diariamente —, destacou Harley Moraes, diretor do Conselho, que atende à região do Guandu, e coordenador da Câmara Técnica de Meio Ambiente da autarquia.

O presidente do Conselho Regional de Química, que tem doutorado em engenharia química pela Coppe/UFRJ, destaca que as fiscalizações são a principal atribuição do Conselho e não acontecem somente em tempos de crise.

— Essa situação que a gente está passando com essa crise já poderia ter sido prevista, pois temos vivenciado a degradação dos nossos mananciais. A água que está chegando à estação do Guandu tem piorado cada vez mais. Isso a Cedae consegue perceber, pois cabe à ela monitor a água que entra e sai da estação. Se ela está entrando pior, a companhia teria que ter percebido de imediato. A concentração de geosmina não aumenta do dia para noite. Temperatura alta prolifera cianobactérias e isso já é um termômetro. A gente precisa discutir isso — analisou Almada. — O carvão ativado pode resolver no momento, mas o que nos garante que isso não ocorra de novo? — questionou.

Segundo ele, as vistorias do CRQ são constrantes no controle das estações, mas que a crise mostrou que o foco tem que ser nos mananciais:

— A discussão que queremos fazer é em cima da qualidade da água que bebemos. Vamos montar um grupo de estudos, foramdos por especialistas da área de meio ambiente, de olho nesses parâmetros (de qualidade). Hoje temos esgoto, hormônios, medicamentos, tudo de ruim nos nossos mananciais. Esses produtos acabam gerando um futuro de preocupação, pois a qualidade só piora — analisou Almada.

Nenhuma irregularidade foi detectada na vistoria com relação aos técnicos de química:

— Os profissionais da Química que trabalham na Cedae estão devidamente registrados no CRQ e são fiscalizados, assim como a empresa. E é importante frisar que nós não testamos água, por exemplo. Garantimos, sim, que profissionais capacitados executem atividades que, por lei, só podem ser feitas por um químico. Desta forma é que evitamos que a sociedade corra riscos por inabilidade técnica — explicou.

O CRQ tem divulgado cartilhas com informações práticas sobre as medidas paliativas que a população pode adotar até que a Cedae garanta a potabilidade da água. O Conselho pediu à companhia as análises químicas da água desde o início do ano, quando teve início a crise, para avaliar se elas foram feitas dentro dos padrões.

Ainda esta semana, o Laboratório de Controle da Qualidade da água da Cedae, na Tijuca, recebeu a vistoria do Conselho, que verificou os métodos, equipamentos e resultados de análises inerentes ao controle da potabilidade da água distribuída pela Cedae. Nada foi notado de irregular.