Conservadores focam migração na França

DIOGO BERCITO, ENVIADO ESPECIAL

CALAIS, FRANÇA (FOLHAPRESS) - A menos de uma semana do primeiro turno das eleições francesas, na urgente tarefa de angariar os votos dos indecisos, o conservador François Fillon dedicou a terça-feira (18) à crise migratória.

Ele visitou a cidade de Calais, no nordeste do país, onde havia até novembro do ano passado um populoso campo de refugiados.

Marine Le Pen, candidata da extrema direita, tinha abordado o mesmo assunto na noite anterior durante um comício em Paris.

Os gestos coincidem com as pesquisas de opinião: a migração é uma das prioridades dos eleitores, em especial daqueles que pensam em votar nas siglas de centro e extrema direita. O primeiro turno será em 23 de abril, e o segundo, em 7 de maio.

De acordo com uma sondagem publicada pela OpinionWay em 31 de março, essa é a principal preocupação de 37% dos eleitores.

A porcentagem sobe para 50% entre os eleitores do partido Republicanos, representado por Fillon, e para 75% entre quem vota na Frente Nacional, de Le Pen.

Ciente de que o assunto interessa a três quartos de seus eleitores, Le Pen anunciou no comício de segunda-feira (17) a sua intenção de suspender os vistos de longa duração. Ela reiterou esses planos durante uma entrevista no dia seguinte.

Seriam afetados principalmente aqueles que pedem a autorização para mudar-se à França e reunir-se ali com seus familiares, afirmou.

Fillon disse em seguida que a proposta de Le Pen "não faz sentido", mas insistiu na necessidade de que a França regule a migração, estabelecendo cotas ao fluxo. "Devemos aceitar os estudantes. Sem os médicos estrangeiros em nossos hospitais, eles não funcionariam."

SELVA

A visita de Fillon a Calais teve especial simbolismo. Esse campo de refugiados foi um dos principais temas políticos dos últimos anos, até ser encerrado pelas autoridades em novembro.

Calais é tão atraente a refugiados porque serve de passagem entre França e Reino Unido, um dos destinos sonhados por quem deixou países como a Síria e o Afeganistão, em conflito.

As condições de vida eram tão precárias ali que o conjunto das tendas, que abrigavam cerca de 9.000 pessoas, foi apelidado de "selva".

O conservador visitou as ruínas dos alojamentos acompanhado da prefeita de Calais, Natacha Bouchart. O jornal local "Libération" sugeriu, com ironia, que se tratava de uma expedição arqueológica, entre as dunas desertas do antigo campo.

Ele prometeu, ali, uma "luta implacável contra a imigração clandestina", tomando as medidas necessárias para impedir o retorno dos refugiados à cidade.

A política migratória de Fillon convence seguidores como Philippe Duoz, que esteve em um comício do conservador no fim do dia em Lille, nas proximidades.

"A migração precisa ser adequada. Precisamos de segurança", disse à Folha. "Ele é o único dos candidatos que pode lidar com a França."

Um grupo de algumas dezenas de manifestantes em Calais, porém, discordava.

Fillon foi recebido na cidade portuária por moradores vestindo máscaras de papel com o rosto dele. Eles bateram panelas durante a visita.

"A política migratória dele é uma catástrofe", afirmou Axel, 41, que se identificou como anarquista e preferiu não dizer seu sobrenome. "Eles querem colocar arames farpados e cercas."

"É uma pena que as pessoas que fogem de seus países porque são atacadas por bombas feitas na França sejam tratadas assim aqui."

CHANCES

O primeiro turno será disputado em 23 de abril entre 11 candidatos. Quatro deles, incluindo Fillon e Le Pen, estão tão próximos que institutos de pesquisa têm tido cautela em prever o resultado.

Uma sondagem publicada nesta terça-feira coloca o centrista independente Emmanuel Macron na liderança com 23,5% dos votos. Le Pen aparece com 22,5%, seguida por Fillon, com 19,5%. O quarto colocado é Jean-Luc Mélenchon, de extrema-esquerda, com 19%. A margem de erro é de 1,4 ponto.