Conservadorismo da Suprema Corte dos EUA é "tempestade sobre a democracia", diz imprensa francesa

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Neste 4 de julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, a imprensa francesa analisa a ascensão do conservadorismo no país. As recentes e controversas decisões da Suprema Corte do país são criticadas em editoriais.

"Estados Unidos: uma tempestade sobre a democracia" é a manchete de capa do jornal Libération desta segunda-feira (4). Numa data tradicionalmente festiva para os americanos, o diário questiona se há realmente algo a ser comemorado. "O país está mais do que nunca dividido em um momento em que direitos como a descriminalização do aborto são questionados", destaca.

Em editorial, Libé enumera outros acontecimentos recentes que deixam os Estados Unidos em "uma atmosfera reacionária". Além do decreto que permitia que as mulheres recorressem à interrupção da gravidez, a Suprema Corte americana, dominada por magistrados conservadores, anunciou recentemente outras decisões polêmicas a favor do porte de armas de fogo e limitando os meios do Estado de lutar contra as mudanças climáticas.

Para o jornal "essas más notícias" devem soar como uma advertência a todas as grandes democracias. "Sim, é possível regredir meio século em liberdades e direitos adquiridos se eles não forem suficientemente protegidos", diz o editorial do Libération.

O assunto também é tratado pelo jornal Le Figaro, que traz como manchete: "Suprema Corte: juízes conservadores afirmam seu predomínio". O diário destaca que seis juízes são alvo da revolta de parte dos cidadãos, denunciados como reacionários e antidemocráticos, "determinados a impor aos Estados Unidos leis de uma teocracia obscurantista".

Le Figaro afirma que para os republicanos, esses magistrados apenas colocam ordem em um sistema judiciário considerado absurdo por eles. No entanto, os dois campos admitem o impacto das medidas anunciadas nessas últimas semanas. A matéria salienta que "uma série de decisões questionou décadas de jurisprudência, invalidando diversas leis, tornando outras efetivas, e fazendo tremer as bases da complexa justiça americana".

Duro golpe para Biden

Já o jornal La Croix analisa a última reviravolta promovida pela Suprema Corte dos Estados Unidos, deixando as ambições climáticas do presidente Joe Biden em maus lençóis. No último 30 de junho, os juízes decidiram que a agência governamental de proteção ambiental do país não tem o direito de impor as regras gerais para regular as emissões das centrais de carvão, a maior fonte de poluição nas Américas.

Para o diário, esse foi mais um golpe duro para Biden, que determinou objetivos ambiciosos para ratificar a liderança americana no cenário internacional e responder às expectativas da ala progressista do Partido Democrata. O presidente prometeu que fará de tudo para proteger a saúde dos americanos e lutar contra as mudanças climáticas. "Mas, com uma fraca maioria no Congresso e uma Suprema Corte conservadora, ele tem poucas opções", ressalta o jornal La Croix.