Conspiração da 'eleição roubada' deve manter base de Trump mobilizada

PATRÍCIA CAMPOS MELLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem se apressar em escrever o obituário político de Donald Trump corre o risco de quebrar a cara. Não houve rechaço ao trumpismo, pelo contrário. Apesar de ter perdido a eleição, Trump teve ao menos 70 milhões de votos, a segunda maior votação da história Estados Unidos. Só perdeu para seu rival democrata, Joe Biden, e ficou à frente até de Barack Obama na eleição histórica de 2008. Republicanos devem ter um aumento no número de assentos na Câmara e detiveram um avanço maior dos democratas no Senado --o controle da casa só será determinado em janeiro, depois do segundo turno das eleições para duas vagas da Geórgia no Senado. O trumpismo veio para ficar. Com sua estratégia midiático-populista, Trump conseguiu conquistar uma faixa do eleitorado que se sentia esnobada pelos republicanos da velha guarda, defensores do livre comércio, globalização e exportação da democracia. O Partido Republicano ganhou a classe trabalhadora, os brancos sem ensino superior. Em 2020, ampliou seu apelo e cativou homens negros e hispânicos da mesma faixa, além de continuar avançando em cidades pequenas e médias. A depender da exatidão das pesquisas de boca de urna, Trump foi o republicano que obteve uma das maiores votações entre não brancos. A política do ressentimento --contra a China, contra os latinos, contra os progressistas-- continua a ter grande eco entre os chamados órfãos da globalização, que viram seus empregos e sua renda minguarem com o avanço do livre comércio e a migração de fábricas e empregos para China e México. "Não tem como os republicanos abrirem mão dessa espetacularização da política que veio com o Trump. Ele democratizou a política republicana para as pessoas de classe média baixa, alargando sua base", disse à Folha um ex-alto funcionário do governo Trump. A ala moderada do partido vai continuar escanteada, segundo ele. Já o papel de Trump após a eleição depende de vários fatores, a começar por sua saída de cena. Continuar esperneando que a eleição foi roubada ajuda ou atrapalha? mídia de direita americana, que atuou como torcida organizada para Trump nos últimos quatro anos, tem deixado claro que não vai acompanhar o republicano em uma longa e quixotesca contestação da eleição. Com a bênção do dono, Rupert Murdoch, Fox News, New York Post e Wall Street Journal desertaram. "O legado do presidente Trump vai se tornar ainda mais significativo se ele se concentrar em deixar o pais seguir em frente... Assim, o amor e respeito de seus apoiadores vai só aumentar, e seu legado será historicamente mais significativo", disse Laura Ingraham, âncora da Fox e membro da tropa de choque trumpista. O tabloide New York Post, que publicou as reportagens sobre mensagens obtidas do laptop de Hunter Biden, filho de Biden, e chegou a chamar Trump de "um herói invencível, que sobreviveu não apenas aos golpes sujos dos democratas contra ele, mas também ao vírus chinês", passou a falar sobre "acusações infundadas de que opositores estão tentando roubar na eleição". O Wall Street Journal, bíblia do establishment republicano, disse que "o legado de Trump vai encolher muito se o ato final dele for rejeitar de forma amarga uma derrota legítima". Alguns políticos republicanos também sinalizaram que não pretendem embarcar no chilique de Trump. O senador republicano Pat Toomey, da Pensilvânia, afirmou que o presidente havia feito "acusações muito sérias sem nenhuma prova". "Não soube de nenhuma fraude ou irregularidade significativa", disse. O senador Mitt Romney, que já havia votado a favor do impeachment de Trump, disse que "é errado dizer que uma eleição foi fraudada, corrupta ou roubada". Mas a maioria dos políticos republicanos fez apenas declarações anódinas sobre a importância de se contarem os votos e não haver fraudes. E muitos entenderam o recado de Donald Trump Jr, que tuitou que haverá consequências para os presidenciáveis de 2024 que não se manifestarem contra a "fraude". Aliados mais fieis como Josh Hawley, Tom Cotton, Nikki Haley, Lindsey Graham, Mike Pompeo e Kevin McCarthy acusaram a roubalheira na eleição e convocaram as pessoas a doarem recursos para pagar os advogados que lideram as contestações judiciais em vários estados. "A ala tradicionalista do partido vai continuar minoritária e marginalizada", diz o ex-integrante do governo Trump. Ou seja, o movimento QAnon trumpista continuará mais numeroso. O fato é que não houve desgaste da marca Trump entre seus apoiadores. O apoio dos eleitores republicanos a ele continua em cerca de 90%. Trump perdeu de Biden porque houve um aumento sem precedentes do comparecimento na eleição, que deve ficar em 66%, mais alto desde 1908. Trump teve ganho de votação, mas Biden simplesmente teve um acréscimo maior. O republicano compensou a perda das mães de subúrbios (que nos EUA são áreas nobres) e dos brancos com diploma com avanços sobre eleitorado hispânico, principalmente cubano-americanos e venezuelano-americanos na Flórida e mexicano-americanos no Texas, além de reforços em seu eleitorado branco da classe trabalhadora e das cidades pequenas e médias. "O trumpismo aumentou o comparecimento em cidades pequenas nos Estados Unidos. Os republicanos ganharam nesta eleição nas cidades pequenas e médias como nunca tinham ganhado, e obviamente perderam nas regiões metropolitanas", diz Mauricio Moura, pesquisador da Universidade George Washington e fundador da Ideia Big Data. "Para os democratas o problema é geográfico, eles vão ter que se reconciliar com a América Profunda das cidades pequenas e médias, e para os republicanos, a contribuição do trumpismo foi justamente aumentar a penetração republicana nessa América profunda." Já Biden conseguiu expandir mais o eleitorado democrata com voto maciço de jovens e pessoas com ensino superior, e garantiu estados com a Georgia com alto comparecimento de de eleitores negros. O último democrata a ganhar na Geórgia foi Bill Clinton, que era chamado de "presidente negro" . Isso aconteceu 28 anos atrás. Segundo Moura, o problema é demográfico, porque a nova geração, mais jovem e escolarizada, votou pesadamente nos democratas. A forma de republicanos e democratas equacionarem essas questões demográficas e geográficas vai orientar as próximas eleições. De qualquer maneira, os problemas que permitiram a ascensão do trumpismo --desigualdade de renda e de acesso a educação-- não vão desaparecer, e o apelo vai se manter. O trumpismo não nasceu com Trump. Teve suas raízes no Tea Party, movimento populista do Partido Republicano que surgiu na esteira da crise financeira de 2008 e empurrou o partido para mais longe de suas convicções reaganescas. Trump apenas dobrou a aposta e acrescentou o poder de sua marca, e da Presidência-espetáculo. "Se não há um caminho para Donald Trump obter um segundo mandato, não significa o fim do movimento 'América em primeiro Lugar' ou o papel de Trump liderando esse movimento. Pelo contrário, é só o começo. No momento, é hora de contabilizar nossos ganhos, aprender com nossas derrotas e expandir um dos maiores movimentos politicos dos últimos cem anos", disse Laura Ingraham. Não se sabe exatamente como Trump vai liderar o trumpismo de fora da Casa Branca. Certamente, não é de seu feitio ficar longe dos holofotes, e ele pode ter a ambição de atuar como um presidente-sombra. Dependerá, em primeiro lugar, do andamento de seus inúmeros enroscos judiciais. Ele enfrenta investigações por potenciais violações de leis de financiamento de campanha (Stormy Daniels), sonegação de impostos e conflito de interesses por uso do cargo para obter vantagens. Quando era presidente, com os republicanos no controle do Senado, era fácil conter o avanço de investigações. Em um governo Biden, com democratas espumando de ódio por terem a legitimidade de sua vitória contestada, haverá bem menos boa vontade. Se superar esses obstáculos jurídicos, Trump pode arquitetar uma volta por cima, a narrativa preferida dos americanos. Ele pode usar a versão da "roubalheira na eleição" para se manter nos holofotes e convencer apoiadores de que não havia nada errado com seu governo e candidatura. Pode se tornar um mártir da direita --uma vítima da mídia, do Estado profundo, dos progressistas, da esquerda e da China, que não perdeu a eleição, foi trapaceado. Rei da narrativa, pode até se recandidatar em 2024, ou ser padrinho de um candidato. Alguém duvida que seria o favorito nas primárias do partido? Faz todo o sentido, para um político que ganhou proeminência espalhando a teoria da conspiração birther, de que Obama era um presidente ilegítimo por não tinha nascido nos EUA, voltar ao poder disseminando outra teoria da conspiração, a de que Biden é um presidente ilegítimo.