Conspiracionistas estão atribuindo o avanço do Covid-19 ao 5G

Rafael Arbulu

O Covid-19, popularmente conhecido como "novo coronavírus", já infectou cerca de 80 mil pessoas em diversos países e, recentemente, chegou ao Brasil em pleno feriado de Carnaval. Segundo fontes oficiais, o vírus teve seu início na província de Wuhan, na China. Inicialmente, a “culpa” de sua proliferação recaiu sobre cobras, mas, após avaliação, organizações globais de saúde disseram que isso seria improvável e sugeriram que o problema iniciou-se após a ingestão de carne de morcego. Ou será que não?

Segundo os famigerados “especialistas de Facebook”, o Covid-19 é fruto de um ataque coordenado, oriundo de um experimento secreto em que, veja você, cientistas a serviço de governos antiamericanos desenvolveram-no como uma arma biológica ativada pelo 5G. Mas não qualquer 5G: obrigatoriamente, eles referem-se à conexão atuante na faixa de frequência de 60 GHz.

"Essa imagem mostra a hiperconectividade do 5G, mas ressalta também os meios pelos quais a conexão pode atacar você", disse ninguém dotado de bom senso

Agora que você parou de rir, podemos continuar com a notícia: toda essa conversa conspiracionista vem de vídeos no YouTube e “textões” de Facebook. O criador de um grupo anti-5G no Facebook (sim, eles existem, mas também existiam quando o 4G era novidade) e o “pesquisador de UFOs” holandês John Kuhles disse: “Eu desafio qualquer pessoa a assistir esse vídeo pelo menos duas vezes e dizer que não tem nada a ver, ou que é tudo uma coincidência. Ah, claro. Com certeza não”.

Kuhles refere-se a um vídeo publicado pela youtuber Dana Ashlie, uma conspiracionista que conta com pouco mais de 190 mil inscritos em seu canal. No vídeo em questão, Ashlie entra em diatribes sem fundamento sobre como a disponibilização comercial do 5G em Wuhan foi responsável pelo início do Covid-19.

Não, Ashlie não é cientista. Na realidade, ela tem um histórico em marketing e todos os seus vídeos publicados trazem evidências que remontam ao argumento clássico dos conspiracionistas: “Deus falou comigo”. E isso não somos nós falando, mas ela própria. De acordo com a descrição dela mesma no Patreon: “O Espírito Santo acendeu um fogo sob mim para levar a Sua salvação por meio do conhecimento da verdade de Jesus e também por saber [a realidade] dos dias em que atualmente vivemos”.

Em outro parágrafo: “Ele generosamente compartilhou comigo os seus sonhos e visões (sobre eventos de fim dos tempos que estão imediatamente em curso) e o maravilhoso dom do discernimento, além de uma experiência em marketing, para criar vídeos que são relevantes e chamativos por meio do meu canal no YouTube e outras plataformas de vídeo".

Os conteúdos abordados em seu canal incluem um em que ela culpa a cantora Taylor Swift pela disseminação de propaganda anticristã; e outro afirmando veementemente (porque lembre-se, Deus contou para ela) que Nikolas Cruz, o atirador que matou 17 pessoas no tiroteio da escola colegial Marjory Stoneman Douglas em fevereiro de 2018, era na verdade a vítima de um “dispositivo militar secreto de controle remoto”.

Agências de checagem de fato já desmentiram suas teorias há tempos, aliás: a maior parte dos disseminadores dessa ideia de que o 5G é responsável pela proliferação do Covid-19 se amarram à ideia de que Wuhan foi o primeiro local onde a nova conexão se fez disponível. Embora seja verdade que “partes” da província contem com conexão 5G (parques e praças públicas, por exemplo), ela não foi a primeira localidade a contar com isso. Ademais, as afirmações de que o 5G de alguma forma afeta o sistema imunológico humano também não encontram nenhum fundamento científico (conspiracionistas dizem que “a radiação” do 5G — outro termo bem comum para eles — é que faz isso).

(Imagem: Reprodução/The Next Web)

Outras versões dessa teoria a incrementam com ainda mais detalhes insanos: um post no Facebook (acima) fala sobre a “maléfica” combinação de 5G, “poeira inteligente”, vacinas e “ativação remota” do Covid-19 nas pessoas, tentando estabelecer episódios que a justifiquem. O cruzeiro Diamond Princess, que ficou em quarentena no mar após passageiros infectados serem identificados a bordo? Claramente, uma ação de ativação remota do coronavírus, já que a embarcação era “especificamente equipada com uma antena 5G de 60 GHz”. Spoiler: não há qualquer informação sobre uma antena 5G nos navios da Princess Cruises, a dona do cruzeiro em questão.

Ah, o post acima finaliza dizendo que o presidente americano Donald Trump “criou uma força espacial” para “combater essa tecnologia armada”, antes de urgir seus leitores que recusem a tomada de vacinas mandatórias “porque nossas vidas dependem disso”.

Wuhan recebeu o 5G junto de 16 outras províncias da China — províncias estas, veja só, que não apresentaram casos do coronavírus até agora. Ademais, entrando na seara científica, um estudo publicado em 2005 por um comitê internacional de segurança eletromagnética estabeleceu que as ondas de rádio, empregadas na transmissão de conexões móveis à internet (3G, 4G, 5G) não causam qualquer malefício à saúde humana.

O Adriano nem tem mais cabelo, mas ainda tem muita fake news espalhada por aí...

O The Next Web procurou o Facebook e o YouTube, já que ambos se comprometeram, no passado, a estabelecer medidas que reduzam o impacto desse tipo de informação falsa. Até o momento, porém, as empresas não responderam, os posts continuam no ar e os vídeos seguem tendo milhares de visualizações.

Não que a ciência factual e comprovada consiga impedir a proliferação desse tipo de conteúdo: conspiracionistas acreditam no que querem acreditar — Alex Jones está aí justamente por isso —, mas vale o alerta: cuidado com o que você anda lendo na internet.


Fonte: Canaltech

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