Consuelo Blocker: Quarentena à italiana

Coloquei o pé no meu jardim, toquei o chão com uma mão e agradeci. Vivo em Florença há 30 anos, mas acho que nunca me senti tão aliviada por ter chegado em casa! Sou itinerante, viajo dois terços do ano desde que me tornei influenciadora digital. Além de amar o que faço, minha pequena casa (parte da antiga estufa de plantas na casa de veraneio do século XV de Américo Vespúcio, coisas da Itália) é minha alegria nesse mundo.

Uma semana antes, em um mundo pré-pandemia, parti para Dubai com 50 empreendedoras brasileiras para a Expo 2020. A viagem estava programada havia seis meses, mas... Dez dias antes de partirmos começaram os casos de Covid-19 no Norte da Itália. A vida como a conhecíamos começou a tomar uma forma um tanto quanto bizarra. Era incompreensível.

Ao anunciarem a segunda semana de smart working (acostumem-se com essa expressão, pois home office, de acordo com meu millennial de plantão, é démodé), meu filho, que trabalha em Milão, decidiu pegar um trem e ir a Florença ficar comigo. Assim poderíamos estar juntos antes e depois das minhas viagens (além de Dubai, eu iria para o Brasil e os EUA). O voo para os Emirados Árabes partiu e cheguei emocionada para conhecer aquela nova cultura. Já no aeroporto, fomos segregados (uso essa palavra propositalmente pois meu primeiro aprendizado com a crise foi o que é ser persona non grata) por agentes vestidos como astronautas para fazer o teste da doença.

Na manhã seguinte, sem ninguém batendo na minha porta com um resultado positivo, entendi que estava livre do corona. Simbora trabalhar! Mas as notícias do velho continente eram preocupantes. Apesar de estar em um território tão vasto e plano, passei a me sentir como se muros altíssimos crescessem ao meu redor, dificultando minha volta ao lar.

Segurei firme. Mas quando anunciaram que a Itália inteirinha entraria em lockdown por decreto ministerial, antecipei minha volta em um dia e num voo quase vazio cheguei em Bolonha. A viagem de uma hora revelou autoestradas só com caminhões (supermercados estão estocados, o correio e serviços de entrega funcionam) e, ao chegar à cidadezinha onde moro, no subúrbio de Florença, o silêncio era desolador. Meu filho estava bem (um mix de trabalho, Playstation e juventude), mas o Roberto (meu “namorido”), que trabalha com turismo, em estado de choque. Voltei por mim, mas também por eles. Juntos, a coragem para afrontar e decifrar essa nova realidade seria mais fácil.

Recebemos instruções para ficar em casa e ter o menor contato possível com pessoas de fora. Lavar as mãos, não tocar o rosto e praticar distanciamento social são prioridades (e se você não sabe disso ainda, em que planeta mora?!). Sair de casa só para ir ao supermercado, à farmácia, acudir um familiar ou passear com o cachorro. Assim mesmo, sozinho e com um certificado oficial impresso. Em minha primeira ida ao mercado, a fila era longa e as pessoas, resignadas, esperavam a um metro de distância uma da outra. Levei 40 minutos para entrar, mas não faltava nada, nem álcool gel (com limite de três frascos por pessoa) nem papel higiênico!

Estou no sexto dia desse confinamento. Sinto falta da minha filha que vive em Nova York, do meu pai e da minha irmã que moram no Texas e da minha mãe e da outra irmã que estão no Brasil. Sei o quanto sou privilegiada por ter amor em casa, um jardim, vista, sol e um condomínio onde levar o lixo já me dá um bom work-out... Mas, pela manhã, quando abro os olhos, sinto um peso no peito. Não saber quando a vida voltará ao normal me dá muita ansiedade. Mas um dia é diferente do outro.

Hoje, por exemplo, entendi que, para combater a crise, não é de sofrimento que precisamos, mas sim de força e positividade. Até a coluna da semana que vem, terei dicas pra isso!