Contágio nos arredores de Lisboa, onde o confinamento é um desafio

Por Thomas CABRAL
Vista geral do bairro da Quinta do Mocho, nos arredores de Lisboa, em 30 de junho de 2020

"Se não podemos sair do bairro, temos que nos ajudar", diz um jovem da periferia norte de Lisboa, ao comentar as novas medidas de confinamento que entrarão em vigor nesta quarta-feira para conter surtos de coronavírus que preocupam Portugal.

"Se você não pode trabalhar, não pode pagar as contas. Precisamos de ajuda alimentar e uma suspensão do pagamento das contas", explica à AFP Iuri Fidalgo, português de origem cabo-verdiana que vive em Quinta do Mocho, no município de Loures.

Para começar, "as pessoas do bairro não podem comprar máscaras e álcool em gel. É complicado", reclama o rapper de 23 anos, faltando poucas horas para a entrada em vigor das novas restrições.

Com uma média de 321 novas infecções por dia, o número de novos casos registrados em Portugal aumentou um terço em junho em relação a maio. Estes continuam concentrados na região de Lisboa.

Para conter o contágio, o governo decidiu impor aos aproximadamente 700.000 habitantes de quase 20 bairros um novo "confinamento doméstico" por pelo menos duas semanas.

As comunidades mais afetadas pelos recentes focos de infecção são as mais necessitadas diante da COVID-19.

"As residências estão localizadas onde as populações não conseguem parar de trabalhar ou deixar de usar o transporte público, que não permite respeitar a distância física considerada obrigatória", explica o vice-prefeito de Loures, Gonçalo Caroço.

Esse município comunista reclamava das autoridades nacionais um aumento na frota de transporte público há várias semanas.

Reduzida pela metade durante o confinamento imposto em meados de março, a oferta de transporte deve retornar a 90% a partir desta quarta-feira.

"Tenho medo, é claro. Se um ônibus estiver muito cheio, não entro", diz Wumi Afonso, uma cozinheira de 37 anos de São Tomé e Príncipe, esperando em Sacavém por um segundo ônibus que lhe permita chegar ao restaurante onde trabalha em Lisboa.

Em desemprego parcial, ela conseguiu ficar confinada por dois meses com seus quatro filhos, mas seu marido nunca parou de trabalhar porque "na construção civil, você só ganha dinheiro se trabalhar".

Nos 19 bairros sujeitos a um novo confinamento, que formam um grupo contíguo aos municípios de Lisboa, Sintra, Loures, Amadora e Odivelas, as concentrações estão limitadas a cinco pessoas, contra dez em toda a região metropolitana e vinte no resto de Portugal.

"Essas medidas são necessárias", confirma a enfermeira Silvia Gonçalves, que visita os bairros de Loures com equipes mobilizadas pela prefeitura desde o início de junho, para lembrar à população a importância das precauções sanitárias.

A especialista em "saúde comunitária" não duvida que o novo coronavírus infecta, sobretudo, os "mais vulneráveis", principalmente nas cidades que sofrem com a pobreza, o emprego precário e a ocupação excessiva de residências.

"Em um bairro como Quinta do Mocho a situação é preocupante, pois seus quase 3.000 habitantes terão grande dificuldade em se isolar", explica.

"Enquanto as pessoas estiverem com fome, nada as impedirá de trabalhar, mesmo que sejam positivas para a COVID-19", destaca a vice-prefeita. "A melhor maneira de contê-los é fornecendo o apoio social e econômico de que precisam".

Na semana passada, a região de Lisboa sofreu novas restrições para evitar multidões, como a proibição do consumo de álcool na rua ou o fechamento de lojas e cafés a partir das 20h.