Como a contaminação do ambiente político afeta o humor em nosso ciclo de amizades?

Muro erguido para separar apoiadores do governo e militantes do impeachment em 2016, quando o ambiente político se deteriorou de vez. Foto: Elza Fiuza/Agência Barsil


Célia* não assistiu “Coringa” nem “Bacurau” - o que é estranho, porque durante anos ela foi a amiga com quem mais conversei sobre cinema.

De um ano pra cá, os filmes mais comentados do ano não despertaram interesse nem a convenceram a sair de casa. Ela também não comemorou seu aniversário, em julho, e no Réveillon pretende tomar apenas uma cerveja com uma amiga, com quem divide o apartamento para onde se mudou a fim de reduzir os custos de aluguel. Dormir mais cedo é a estratégia para fazer o tempo passar mais depressa, ela conta.

Militante feminista, ela já perdeu as contas de quantas situações de estresse agravaram seu quadro depressivo desde outubro de 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito prometendo combater toda forma de ativismo.

Prometeu e cumpriu.

Na última quarta-feira, ela e a mãe ficaram longos minutos em silêncio depois de uma conversa despretensiosa sobre o preço da carne. Um assunto puxou o outro: as prisões de brigadistas voluntários em Alter do Chão, no Pará, a fala do ministro Paulo Guedes sobre o AI-5, o aumento da gasolina, a escolha de uma pessoa com discurso racista para a Fundação Palmares.

“Lembramos de uns dez absurdos em uma conversa de poucos minutos. Não sobra energia para tentar reconstruir qualquer coisa. Você sai para tomar cerveja e as pessoas estão falando de política, com raiva. Está tudo contaminado.”

Célia fez uma limpa nas redes sociais, e passou a seguir apenas páginas oficiais no Facebook. Na empresa onde trabalhava, ela adotou a estratégia de silêncio para evitar conflitos. “Tinha medo de me posicionar e sofrer ataques.”

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A militância levou ao fim de um relacionamento com um namorado. Ele queria uma vida “tranquila” e dizia ser inviável a convivência com alguém que manifestava desespero a cada notícia de jornal. 

As notícias, ela resume, parecem a história do “Pedrinho e o Lobo”. “Nunca sabemos o que é verdade e o que é ameaça. Estamos sempre nos antecipando ao pior. Tenho amigos que estão virando a noite para terminar o doutorado e sair logo do país antes que as bolsas acabem. Você se sente paranoico”

No caso dela, a paranoia bota os pés na realidade cada vez que sua rede de contatos é acionada para ajudar as vítimas preferenciais da perseguição que se intensifica a cada discurso oficial. 

Num dia, um sem-terra teve a casa queimada e os amigos fizeram vaquinha para ajudar. Em outro, o amigo gay de outros amigos era expulso de casa e precisava de acolhimento para não dormir na rua. 

Relatos de assédio, promovido por homens que passaram a se sentir à vontade para provocar mulheres nas ruas, se tornaram comuns.

Célia também perdeu as contas de quantas vezes se afastou de amigos ou amigos de amigos que engatavam a conversa perguntando se ela era a favor de kit gay para crianças e da distribuição de mamadeira de piroca nas escolas.

Amigos psicólogos passaram a oferecer atendimento voluntário. Ela mesmo procurou ajuda, com um terapeuta politizado que entendeu o seu conflito. E começou a quebrar a apatia ao se conectar com pessoas em situação parecida.

“Só em receber no WhatsApp mensagens de amigos perguntando se eu estava bem com essa ou aquela notícia já aliviava o peso. Uma rede começou a ser criada. Estamos vendo a atuação de diversos grupos, inclusive religiosos, em defesa da democracia. É uma esperança”, diz.

Ninguém solta a mão de ninguém. Pedir autocrítica ao partido custou caro ao meu amigo Diego. Filiado ao PT desde 2009, ele passou a ser acusado integrar a “esquerda que a direita gosta” após defender, entre amigos militantes, mudanças na estratégias políticas do chamado campo progressista. 

Para ele, era preciso “parar de falar tanto da direita e falar mais de nós mesmos”. “E parar de falar de política institucional o tempo todo e abordar a política da vida real, do cotidiano.”

Ele passou a atrair antipatia ao dizer que era necessário descer, literalmente, do palanque, composto de palco, claque e área vip para os discursos das lideranças, e promover encontros nas periferias, onde a igreja passou a ocupar os espaços vazios deixados pelo Estado. 

“Primeiro disseram que eu era radical demais. Depois me chamaram de pelego.”

Decepcionado com o resultado das urnas, ele abandonou a política para tentar sair de uma depressão profunda, com sintomas de pânico e ansiedade.

Um ano depois, a análise que ele faz do processo é amarga:

“Sinto que a galera está meio enlouquecida desde 2016. A comunicação da esquerda é muito violenta. Me arrependi da forma como fui militante por anos porque essa comunicação é também autoritária. Essa militância tenta envergonhar as pessoas, chamando de ‘pobre de direita’. Atira verbalmentente e emocionalmente em todo mundo. Ficam agressivos, inclusive, com as pautas identitárias que não querem absorver. Não querem reconhecer que erraram. As teses dos velhos dirigentes foram derrotadas no impeachment e nas eleições. O resultado foi esse. O PT resolveu muitos problemas no Brasil, mas outros surgiram e o partido não sabe como dialogar. Gosto do Lula, mas ele fala como se estivesse em 2003 ou 2010. A gente é cobrado para entrar nessa ilusão. A juventude odeia essa esquerda velha”.

Diego, que trabalhava em um jornal ligado ao partido, foi demitido há cerca de um ano. Desde então, abandonou a profissão para se dedicar ao paisagismo. Aprendeu a mexer na terra durante o tempo em que se aproximou do MST. Aos amigos ele diz que não precisa discutir política com as plantas.

De ateu militante, passou a buscar equilíbrio na religião - no caso, o budismo. “Está todo mundo doente na esquerda. Todos os meus amigos têm quadros graves de depressão. Vivendo com remédio controlado. Não só pelo avanço da direita. Mas para aguentar a toxidade dos espaços de esquerda também. O ‘ninguém solta a mão de ninguém’ foi uma mentira horrível.”

Doente de Brasil. Célia e Diego não estão sozinhos. Em uma coluna recente no El País, a jornalista Eliane Brum resumiu: “Submetidos a um cotidiano dominado pela autoverdade, fenômeno que converte a verdade numa escolha pessoal, e portanto destrói a possibilidade da verdade, os brasileiros têm adoecido. Adoecimento mental, que resulta também em queda de imunidade e sintomas físicos, já que o corpo é um só”..

No texto, ela compartilhou relatos colhidos junto a psicanalistas, psiquiatras e médicos da clínica geral que passaram a receber em seus consultórios uma leva de pessoas com taquicardia, tontura e falta de ar. 

“Um destes médicos, cardiologista, confessou-se exausto, porque mais da metade da sua clínica, atualmente, corresponde a queixas sem relação com problemas do coração, o órgão, e, sim, com ansiedade extrema e/ou depressão. Está trabalhando mais, em consultas mais longas, e inseguro sobre como lidar com algo para o qual não se sente preparado”, descreveu ela.

Na revista piauí de novembro, a repórter Julia Sena contou como foi acompanhar, no Rio, um encontro do projeto “Doente de Brasil”, uma rede de conversas criada pelas psicólogas Simone Villas Bôas e Marcela Lima após lerem em uma rede social um colega descrever o atendimento a um homem com sintomas de grande ansiedade provocada pelo acúmulo de trabalho em uma empresa que havia demitido diversos funcionários.

Nesta época do ano, marcada por confraternizações, nos grupos de amigos que ainda se falam pelo WhatsApp, é comum ouvir histórias de cansaço, ansiedade, apatia e falta de vontade para celebrar até mesmo as pequenas coisas, entre festas de amigo secreto e happy hours.

Jornalistas e professores puxam a fila. Sobre o primeiro grupo, posso falar por mim: a vontade de ver qualquer pessoa fora da “bolha” é zero - e, sim, isso é péssimo.

Conto a história de dois dos muitos amigos que tiveram a vida diretamente afetada pelo clima político como uma forma de reconexão: deles eu não tinha notícias há mais de um ano. Aos poucos, também me afastei.

Um ano depois de ter mudado de casa, percebi que nunca falei para sobre minha profissão aos novos vizinhos. As experiências anteriores, com antigos conhecidos que antes se mostravam interessadas em debater o noticiário e pediam minha opinião, foram marcadas por episódios constrangedores, em que minha isenção profissional ou esforços de apuração eram cimentados por correntes de WhatsApp e frases-feitas relacionadas a esquerdismo, comunismo, Lei Rouanet e vagabundagem. O que eu precisava, eles diziam, era trabalhar - o que faço, imaginava, desde os 19 anos.

Um deles, ao comentar uma postagem minha no Facebook (sobre futebol, diga-se), me escreveu que sonhava com o dia em que o país seria limpo de jornalistas, comentaristas e outros “istas”. Outro dizia sentir cheiro de “comunista” no grupo de WhastApp que eu participava enquanto mandava fotos de todo tipo de armas contra estas e outras pragas.

Virei o chato da vizinhança por me recusa a concordar que armamento é solução para a criminalidade, ou que o país viveu 15 anos de ditadura comunista que perverteu crianças, a moral e os bons costumes -- um discurso pavimentado pelo presidente que passou o primeiro ano de mandato atacando, mostrando desprezo e tentando lançar descrédito ao jornalismo profissional.

As ameaças de asfixia de veículos incômodos ao governo também é fonte de permanente tensão.

Dos meus amigos professores, ao menos os que fizeram do trabalho uma missão, não conheço um que não passou a ser monitorado e questionado por quem não têm ideia do que está falando. Defender a integridade do aluno homossexual que apanha no corredor virou “ideologia de gênero”. Contextualizar fatos históricos e desconstruir discursos virou “doutrinação”.

Ficou difícil incentivar os alunos a estudar para ser alguém na vida quando o topo da pirâmide política passa a ser ocupada por quem despreza o conhecimento, os institutos de pesquisa, a importância de se ater a fatos, e não a verdades absolutizadas.

As rodas de amizade, obviamente, não nos autorizam a falar por um país inteiro - é possível que, Brasil afora, alguém esteja saltitante porque não terá churrasco no fim de ano. Mas uma coisa parece certa: quem não está insatisfeito está vingado. Estamos mais rudes. Empobrecidos. E amargos.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos meus amigos