Contar, compartilhar convivências, denunciar: ao sofrer o assédio, falar é preciso

·3 min de leitura

A violência contra a mulher pode ser uma experiência muito solitária. Diante da agressão sofrida, o silêncio é a escolha para muitas, junto com o sentimento de que o que aconteceu é único e diferente do vivido por outras, somando-se à sensação de culpa. Especialistas no tratamento da violência de gênero, no entanto, ressaltam a importância de verbalizar a agressão sofrida, tanto em canais de denúncia apropriados como para escutas qualificadas, como de terapeutas, psicólogos e redes femininas de apoio, que podem oferecer o acolhimento necessário.

- A dificuldade da mulher falar é um resquício do lugar que nossa cultura patriarcal e machista reservou a ela: o do silêncio, o que não tem voz, o que guarda e não se incomoda. O lugar público é o lugar dos homens, o privado é o lugar das mulheres. O homem fala, a mulher escuta. E é agredida em silêncio, não se espera dela uma reação. Com a mobilização crescente dos movimentos feministas, ocupando e abrindo espaços, isso vem mudando, felizmente. Mas imagina um corpo que, ao longo da vida, é treinado para "ter modos", para se reprimir, se sentir culpado, se anular? Ele também é um corpo em sofrimento. Um corpo e uma mente em sofrimento. E quando a mulher fala para uma escuta qualificada que pode legitimar a dor, nomeando o incômodo dessa mulher, abre-se a possibilidade para que ela possa entrar em contato com a dor e curar essas feridas. E ao falar com outras mulheres, ela amplia esse efeito - diz a psicóloga Érika Lopes, que acolhe em seu trabalho vítimas de violência de gênero de diferentes contextos.

A "ampliação do efeito" de que Érika fala vem do compartilhamento de vivências entre mulheres vítimas da violência, o que possibilita a percepção de que a origem do que acontece é algo social, estrutural e que não diz respeito a uma culpa ou responsabilidade da própria mulher.

Penhas, Marias, Lúcias

Uma rede de acolhimento e apoio, feminina e solidária, é a proposta do assistente virtual PenhaS, desenvolvido pelo Instituto AzMina. A ferramenta, criada em 2016 como aplicativo e atualizada este ano, funciona como uma rede social, que já conta com 7 mil usuárias cadastradas e um feed de interação onde mulheres - e somente elas são aceitas como membros - deixam relatos de suas experiências, dúvidas e solidariedade.

- Nossa percepção foi a de que estas vítimas tinham dificuldade de conversar com outras pessoas de confiança sobre seus problemas. Ali, a barreira da dificuldade de conversar é rompida. Quando uma primeria mulher fala, várias outras falam. Uma encoraja a outra, as vítimas de violência se reconhecem nas outras histórias e percebem que as violências não são individualizadas - diz a jornalista Marília Moreira, gerente de projetos do Instituto AzMina.

Marília explica que a ferramenta é baseada em três pilares, o de informação, o de acolhimento e o da possibilidade de pedir ajuda. O app oferece um mapa dos pontos públicos de atendimento disponíveis para as vítimas em um raio de 30 quilômetros, em uma parceria com o projeto Mapa do Acolhimento, da ong Nossas. Também conecta as vítimas a uma rede especializada das áreas de saúde e jurídica, e tem um "botão do pânico", pelo qual a vítima não aciona a polícia, mas uma pessoa "guardiã" que ela mesmo indicou como de confiança para contato.

Mapa do acolhimento

A ong Nossas também propõe uma rede de solidariedade com o seu Mapa do Acolhimento (mapadoacolhimento.org), com 12 mil profissionais voluntárias - entre psicólogas e advogadas - em todo o Brasil (3 mil ativas e outras 1.100 em processo de capacitação) dispostas a ajudar, gratuitamente, mulheres em situação de violência.

- O mapa é alimentado pela mobilização de mulheres e atua em três frentes: a de um serviço direto de apoio para quem precisa de ajuda, a da oferta de um mapa de serviços públicos de atendimento em todo o país, e na perspectiva de incidência política, com campanhas de pressão a autoridades e governos para políticas públicas contra a violência sexual, que, infelizmente, é uma realidade - diz Livia Merlim, coordenadora do Mapa do Acolhimento.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos