Contexto: China tentou abafar alarme sobre coronavírus no início, mas depois retardou sua disseminação global

RIO — O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) causou uma crise diplomática entre o Brasil e a China ao culpar Pequim pela pandemia do novo coronavírus na quarta-feira. Apesar de a epidemia ter começado em território chinês, na cidade de Wuhan, e de as autoridades locais terem tentado abafar os primeiros alertas sobre os efeitos e a letalidade do vírus, medidas posteriores tomadas pelo governo chinês ajudaram a controlar a doença e retardar seu caráter pandêmico.

No dia 30 de dezembro, Li Wenliang, um médico de Wuhan, capital da província de Hubei, tentou alertar seus colegas da faculdade de medicina, avisando que pacientes estavam em quarentena na emergência do hospital. No meio da noite, funcionários do departamento de saúde da cidade foram até a casa de Li perguntar por que ele estava "espalhando boatos".  Três dias depois, o médico foi forçado a assinar uma advertência de que seu comportamento era “ilegal”.

Nesta quarta-feira, uma comissão de investigação oficial do governo chinês censurou a polícia de Wuhan por ter advertido o médico. Segundo a Comissão de Controle da Disciplina, os policiais atuaram de forma “inapropriada” e a responsabilidade dos responsáveis deverá ser estabelecida. Li, que morreu em razão da Covid-19 no dia 6 de fevereiro, foi um dos primeiros a chamar atenção para a gravidade da então misteriosa doença.

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Sabe-se que o primeiro paciente adoeceu em Wuhan em algum momento no início de dezembro, mas os detalhes não são conhecidos. Nos dias seguintes, pessoas começaram a procurar hospitais da cidade com queixas idênticas: os sintomas se assemelhavam ao de uma pneumonia viral que não respondia a tratamentos comuns. Os médicos rapidamente notaram um fator comum entre os doentes – todos trabalhavam no mercado Huanan, onde carnes variadas, exóticas e animais silvestres vivos eram vendidos em um ambiente pouco salubre.

O governo de Wuhan foi forçado a reconhecer a ocorrência da enfermidade no último dia de 2019, admitindo que 27 pessoas estavam infectadas com uma pneumonia desconhecida, mas que a doença era “evitável e controlável”. O escritório da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Pequim também foi alertado. O tom do governo local era de otimismo e sugeria que não havia transmissão entre humanos. 

Já no dia 7 de janeiro, porém, foi anunciado que um novo vírus havia sido identificado, então chamado de 2019-nCoV. No dia 11, seu código genético foi divulgado em um banco de dados público para que pesquisadores do mundo inteiro pudesse estudá-lo.

No dia 9, a Covid-19 fez sua primeira vítima fatal, cuja morte só foi anunciada dois dias depois: um frequentador do mercado de 61 anos com problemas prévios de saúde. Sua mulher, que nunca havia visitado o local, também adoeceu. Outros parentes de pessoas ligadas ao mercado também começaram a adoecer, deixando claro que a doença era transmitida entre humanos — algo que os médicos começaram a perceber já no meio de dezembro, mas que o governo relutava em reconhecer.

Apesar das províncias chinesas terem autonomia relativa, há uma cultura de medo da reação de Pequim, agravada neste ano pela proximidade do Congresso Nacional do Povo, maior evento político do país, que aconteceria em março (e foi adiado). Não se sabe quando o governo central foi oficialmente alertado, mas o prefeito de Wuhan, Zhou Xianwang, nem sequer mencionou a doença durante seu relatório anual ao Congresso, em 7 de janeiro. Vinte dias depois, com a epidemia já evidente, ele pediu desculpas, disse ter omitido diversas informações sobre a disseminação da Covid-19 e ofereceu sua renúncia.

Na primeira semana de janeiro, no entanto, autoridades locais diziam que, se não houvessem novos casos, a epidemia seria assunto encerrado, tom similar ao adotado pela OMS.

No dia 13 de janeiro, a Tailândia registrou o primeiro caso de Covid-19 fora da China. Dia 16, foi a vez do Japão. Em ambos os casos, foram pessoas que haviam chegado de Wuhan. Com a disseminação, Pequim enviou para a região de Wuhan no dia 18 o epidemiologista Zhong Nanshan. Uma semana depois, em rede nacional, o médico anunciou que o vírus era transmitido entre humanos. O presidente Xi Jinping também se pronunciou e, a partir daí, a resposta foi rápida. Até o dia 20 de janeiro, havia três mortes em Wuhan e casos em diversas cidades chinesas. Nos 10 dias seguintes, as mortes na China pulariam para 170.

A quarentena em Wuhan começou no dia 23 de janeiro, e o governo mobilizou uma força-tarefa para reduzir o contágio. Todo o acesso à cidade foi cortado e cerca de 50% do atendimento médico ornou-se virtual. Aqueles que precisassem de remédios controlados passariam a recebê-los em casa. As escolas também foram fechadas, e os alunos passaram a ter aulas pela internet.

Quem apresentasse sintomas do Covid-19 poderia procurar uma das “clínicas de febre”, onde teria sua temperatura medida, seus sintomas e histórico analisados. Os pacientes, em seguida, eram postos em tomógrafos –  em entrevista ao New York Times, o líder da equipe da OMS que visitou Wuhan no meio de fevereiro, Bruce Aylward, disse que as máquinas faziam cerca de 200 exames ao dia. Se fossem constatadas anormalidades no pulmão, o paciente seria submetido a um teste, cujo resultado levava em média 4 horas para ficar pronto.

Se a doença fosse constatada, o paciente era encaminhado para centros de isolamento: estádios, ginásios ou centros que chegavam a ter mil leitos. Caso fossem dos grupos de risco, tivessem mais de 65 anos ou apresentassem sintomas graves, eram encaminhados para hospitais, onde também havia um esquema especial de atendimento. 

Todos os testes para a doença eram aplicados gratuitamente e, caso o paciente fosse diagnosticado com o Sars-CoV-2, como o vírus passou a ser chamado, o governo cobriria os gastos que não fossem bancados por planos de saúde. Cerca de 40 mil médicos de outras províncias menos afetadas foram enviados a Hubei. Campanhas de conscientização tomaram conta dos canais de tv e das redes sociais.

Apenas Wuhan entrou em quarentena total: os 15 milhões de habitantes da cidade encomendavam sua comida pela internet, e as refeições eram entregues por uma força-tarefa de funcionários.Em outras cidades, o tamanho dos esforços dependia da quantidade de contágios. Ao todo, cerca de 760 milhões de chineses ficaram de algum modo isolados em suas casas, segundo estimativas do NYT. Mesmo conforme a vida vai retornando ao normal, diversas medidas de isolamento continuam em vigor no território chinês.

A cultura chinesa o autoritarismo do regime podem ter facilitado a implementação das medidas, mas os números indicam sua eficiência. Segundo epidemiologistas ouvidos pela revista Nature, o contágio na China parece ter atingido seu pico dois dias após o início da quarentena em Wuhan. Sem as medidas de contenção, modelos iniciais para projetar a amplitude da pandemia previam que o vírus poderia infectar cerca de 40% da população da China – aproximadamente 500 milhões de pessoas.

Pela primeira vez desde dezembro, Wuhan não registrou nenhum caso da doença na última quarta-feira, enquanto a China envia equipes médicas para auxiliar outros países no combate ao Sars-CoV-2. No mesmo dia, houve 475 mortes na Itália – recorde diário para qualquer país do mundo. O país europeu registrou seu primeiro caso da doença em 31 de janeiro, oito dias depois de o governo chinês declarar quarentena total em Wuhan.