'Contos de axé' marca posição política ao mostrar presença cotidiana da mitologia afro e reforçar conceitos do candomblé

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Neste país cada vez mais racista e intolerante, é muito bem-vinda a antologia “Contos de Axé”, organizada pelo escritor Marcelo Moutinho. São 18 narrativas que têm como pano de fundo o poder do candomblé e sua presença no nosso cotidiano. Para entender sua graça, não é preciso ser iniciado em religiões de matriz africana. O único pré-requisito é gostar de literatura e ter a mente aberta — o que é, na prática, um pleonasmo.

Também é bom levar em conta que a cultura terrivelmente cristã que nos assola sufocou inúmeras crenças disponíveis no mercado da fé, sobretudo as politeístas. No caso do candomblé e afins, o ataque é ainda mais pesado devido à sua origem: povos escravizados, espécie de não-gente aos olhos colonizadores. Pura tirania. A mitologia afro é viva, tão viva que com frequência deixa o plano das ideias e ganha as ruas. E a maioria da gente nem percebe.

Os 18 autores presentes na coletânea, no entanto, sabem que não é bem assim que a banda toca. Trabalhando com os arquétipos dos orixás, eles trazem para nossos dias situações em que as divindades estão presentes não apenas como palavras (o que já é muito), mas como sujeitos determinantes das trajetórias de simples mortais.

Como convém a cada início de trabalho, o primeiro conto do livro reverencia os exus, divindades mensageiras que vigiam caminhos e levam oferendas do Aiê, este nosso mundinho banal, ao Orum, o mundo espiritual. É por isso que os encontramos já em “Crisálida”, de Gustavo Pacheco, autor do premiado “Alguns humanos” (Tinta da China, 2018), ajudando o narrador nas quebradas da vida —com direito a um sustinho brincalhão. Típico.

Cada conto da coletânea é precedido por um pequeno perfil do orixá retratado para que o leitor não iniciado possa identificar sua presença na narrativa. Facilita, porque nem sempre o contista vai nominá-las, como fez Nei Lopes em “Era um pássaro muito grande”. Diga-se que Nei é, ele mesmo, quase uma entidade que sabe tudo da cultura negra, com dezenas de livros publicados sobre o assunto e sambas obrigatórios nas rodas, como “Tia Eulália na xiba” (com outro gigante, Claudio Jorge). No seu conto, Nei apresenta Orumilá, “aquele que traça o destino”, e Elegbara, “o imprevisto”.

Na ordem de invocação dos orixás, Ogum é apresentado por Jeferson Tenório, outro nome de peso para a coletânea. O autor de “O avesso da pele”, obra que acaba de conquistar o Prêmio Jabuti de melhor romance do ano, mostra que a interação das divindades com os pobres mortais pode se manifestar também através de uma doença — sobretudo quando a vaidade desnorteada alimenta o preconceito.

Um mundo sem pecado e sem dízimo

“Batiputá”, de Socorro Acioli, é um achado. Ao falar de Oxóssi, o orixá das florestas, do sustento e das famílias, a escritora cearense narra a atração de uma jovem estudante por um professor de antropologia. Ela mistura candomblé com astrologia — o que parece estranho, mas a história é intrigante. A conferir.

Já a cantora Fabiana Cozza estreia como contista. Bela estreia, diga-se, ainda mais com a responsabilidade de retratar Xangô e seu empenho por justiça. Mostrou que sabe o que está fazendo — assim como Marcelino Freire (sempre sagaz), Itamar Vieira Junior (clássico), Luisa Geisler, Giovana Madalosso, Paula Gicovate, Juliana Leite...

A lista de contistas é extensa, mas registre-se que “Contos de Axé” marca uma posição política contra estes tempos abjetos. E reforça também um ponto sempre esquecido: bem ao contrário dos impolutos santos cristãos, os orixás são demasiadamente humanos. Eles dançam, distribuem amor e raiva. Têm energia, fazem guerras. Nesse mundo não tem pecado, não tem céu nem inferno, nem dízimo tem. Mais que isso, suas histórias reforçam conceitos fora de moda — tais como humildade, persistência e paciência. Essas características são fundamentais para o fortalecimento do axé. Não importa em que ponto você esteja na hierarquia do candomblé, sempre vale a pena pensar nisso.

CONTOS DE AXÉ

Autores: Diversos. Organização: Marcelo Mouotinho. Editora: Malê. Páginas: 224. Preço: R$ 58.

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