Contos modernos de um disco antológico: companhia de teatro encena peça a partir de "Dois", da Legião Urbana

Ricardo Ferreira
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Divulgação

Lançado em 1986, no auge da era de ouro do rock brasileiro daquela década, o álbum “Dois”, da banda Legião Urbana, é o ponto de partida do espetáculo “Dois (mundos)”, que a companhia teatral Complexo Duplo encena a partir de hoje, até sexta-feira, sempre às 21h30, no Zoom. O primeiro ato de “Dois (mundos)”, baseado nas músicas do lado A do disco, ficou em cartaz durante o segundo semestre do ano passado, e retorna hoje como um “esquenta” para o segundo ato, com músicas do lado B de “Dois”, que estreia no dia 19 de fevereiro. O coletivo também já disponibilizou no YouTube um episódio desse primeiro ato, em torno da música “Daniel na cova dos leões”.

Com dramaturgia e direção de Felipe Vidal, a peça se desdobra, ao vivo, a partir de cada uma das faixas do disco — o segundo de estúdio da Legião e um dos mais celebrados da banda candanga. Hoje, o episódio será sobre a música “Quase sem querer”, de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha, dos versos “Quantas chances desperdicei / quando o que eu mais queria / era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”. Amanhã, a música tema será “Acrilic canvas”, seguida de “Eduardo e Mônica” (quarta-feira), “Central do Brasil” (quinta-feira) e “Tempo perdido”, que encerra o lado A do disco, na sexta.

O diretor explica que a peça foi idealizada para ser encenada no palco, mas diante da pandemia o trabalho migrou para a internet. Seria nos moldes de “Cabeça (um documentário cênico)”, estrelado pela companhia em 2016 e que celebrava os 30 anos do disco “Cabeça Dinossauro”, dos Titãs, também de 1986.

— O “Cabeça” é essencialmente um álbum de protesto. Agora, nós chamamos o espetáculo de “Dois (mundos)” pela própria natureza do disco da Legião, que tem canções de protesto e canções de amor. Mas é também um paralelo com a situação que vivemos de polarizações políticas e ideológicas — diz Felipe Vidal, que conclui:

— A potência das canções de amor nos colocam em um lugar de força, de afeto, e a gente precisa valorizar isso num momento de tanto conflito.

Cartas para o futuro

Nos episódios, com cerca de 30 minutos cada, os atores compartilham histórias que se cruzam, de alguma maneira, com as letras de Renato Russo. Única parte gravada da apresentação, o elenco também assume a condição de banda para tocar a música homenageada da vez. Vidal explica que a proposta de “Cabeça” era olhar para trás, traçar uma retrospectiva que unisse 1986 com 2016, ano em que a peça foi encenada. Em “Dois (mundos)”, a dramaturgia mira o futuro, com pílulas de sugestões para um distante ano de 2054.

— São histórias pessoais, ou notícias contemporâneas, ou vinculadas ao disco. Tem endereçamento, é um carta para o futuro — conta o diretor, adiantando uma das histórias envolvidas no episódio de hoje:

— O avô de um dos atores, o Guilherme Miranda, morreu durante pandemia. O Guilherme herdou um terno do avô e, quando ele vestiu, esse terno ficou largo. A gente começou a especular sobre isso, sobre essas roupas que não nos cabem mais. Quais são as questões que não nos cabem mais? A partir dessa história, imaginamos coisas que não nos caberão mais no futuro — diz Vidal.

Além de Guilherme Miranda e do próprio diretor, completam o elenco Felipe Antello, Gui Stutz, Leonardo Corajo, Lucas Gouvêa, Luciano Moreira, Sergio Medeiros e Tainá Nogueira, além da participação especial de Carol Fazu em “Eduardo e Mônica”, quarto episódio da série. Dia 19, o lado B do espetáculo vai trazer histórias a partir das músicas “Metrópole”, “Plantas embaixo do aquário”, “Música urbana 2”, “Andrea Doria”, “Fábrica” e “Índios”.

Fenômeno de vendas

Depois do sucesso com o álbum de estreia “Legião Urbana” (1985), que havia vendido 100 mil cópias até aquele momento, o segundo disco do grupo foi cercado de expectativas, tanto por parte da banda como da gravadora EMI. Produzido por Mayrton Bahia e Carlos Savalla, “Dois” trazia melodias mais suaves, absorvendo influências do pós-punk britânico (leia-se Joy Division e The Smiths ) sobre Renato Russo. Faixas como “Eduardo e Mônica”, “Quase sem querer”, e “Tempo perdido” logo se transformaram em hits absolutos nas rádios da época e o álbum e vendeu 250 mil cópias apenas na semana de lançamento. É considerado um dos discos mais importantes da história do rock brasileiro.