Contra coronavírus mutante, veto a voos do Reino Unido dispara e soma 42 países; Brasil fica de fora da lista

Redação Notícias
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A man wearing a face mask and face shield waits at a pedestrian crossing on Regent Street in London, England, on December 21, 2020. London spent its second day of what could be months under newly-introduced 'Tier 4' coronavirus restrictions today. Under Tier 4 rules non-essential shops and many other businesses including gyms and hairdressers must close, with people instructed to stay at home other than for exempted circumstances including travel to work or education. Indoor mixing between those in different households is also banned under the new tier, upending Christmas plans for a huge swathe of the population. Concern over a more infectious strain of the coronavirus in the UK has meanwhile seen dozens of countries ban arrivals from Britain, with food supplies also disrupted after France closed the cross-Channel freight route from Dover. (Photo by David Cliff/NurPhoto via Getty Images)
O Reino Unido convocou uma reunião de emergência com o gabinete para debater a situação sob o temor que o fechamento das fronteiras leve a um cenário de desabastecimento generalizado. (Foto: David Cliff/NurPhoto via Getty Images)

Com o Brasil de fora, mais de 40 países anunciaram nesta segunda-feira (21) bloqueios à entrada de viajantes oriundos do Reino Unido, aumentando o isolamento de Londres e deixando o país à beira do caos a apenas dez dias do brexit.

Os vetos vieram dois dias após o governo britânico endurecer o lockdown na capital e em outras cidades, para tentar conter uma mutação do novo coronavírus.

O premiê Boris Johnson convocou uma reunião de emergência com o gabinete para debater a situação. O temor é que o fechamento das fronteiras leve a um cenário de desabastecimento generalizado.

Ao menos 42 nações e territórios haviam vetado a entrada de viajantes vindos do Reino Unido até a tarde desta segunda — na noite de domingo, eram 13. Entre os países que anunciaram novas restrições nesta segunda, está a Rússia, que suspendeu os voos com o Reino Unido por uma semana.

A Índia tomou a mesma medida, mas com validade até o fim do ano, enquanto em Hong Kong (território que pertence à China), o veto será válido por duas semanas.

Os europeus Portugal, Espanha, Polônia, Noruega e Dinamarca também decretaram o bloqueio — este último já detectou ao menos nove pessoas infectadas com a nova mutação do coronavírus. Itália, Austrália, Holanda e África do Sul também identificaram pessoas com o patógeno mutante, além de Gibraltar (um território britânico na Península Ibérica).

As medidas de restrição tomadas pelos países têm como objetivo exatamente dificultar a disseminação dessa variação que, por ser 70% mais infecciosa, acaba circulando com maior velocidade.

Na América do Sul, Argentina, Colômbia, Peru e Chile também já anunciaram o veto para voos com passagem do Reino Unido.

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Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul também não tomaram medidas contra o Reino Unido, mas afirmaram que estudam essa possibilidade.

No domingo, uma série de países já tinha tomando medida semelhante, incluindo Alemanha, Arábia Saudita, Irã, Irlanda, Israel, Itália, Suíça e Turquia.

BRASIL MANTÉM VOOS E DIZ ‘ACOMPANHAR A SITUAÇÃO’

Enquanto isso, o Brasil limitou-se, até o momento, a acompanhar a situação e exigir resultado negativo no teste de RT-PCR para qualquer viajante que quiser ingressar em território nacional.

"A portaria número 630, de 17 de dezembro de 2020, em seu artigo 7º, exige o teste do RT-PCR negativo para qualquer viajante, brasileiro ou estrangeiro, que queira ingressar no Brasil por via aérea, inclusive os passageiros de procedência do Reino Unido", disse a Casa Civil em nota enviada no início da noite desta segunda-feira (21).

"Cabe destacar que o Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 acompanha diariamente a situação do coronavírus no Brasil e no mundo", encerra o breve comunicado da pasta comandada pelo general Walter Braga Netto.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) informou que as decisões sobre o fechamento ou abertura de fronteiras e de políticas restritivas para a entrada no país cabem a um grupo interministerial.

O GEI (Grupo Executivo Interninisterial em Saúde Pública de Importância Nacional e Internacional) foi criado em janeiro, quando o novo coronavírus ainda estava praticamente restrito ao território chinês. O objetivo era estabelecer medidas de preparação e enfrentamento da pandemia de Covid-19. Integram o grupo sete ministérios, além da Anvisa.

Sob a coordenação do Ministério da Saúde também estão Casa Civil, Ministério da Justiça, Ministério da Defesa, Ministério da Agricultura, Ministério do Desenvolvimento Regional e Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República.

"Dessa forma, a decisão de bloquear voos do Reino Unido é do GEI", informou a agência em nota.

"A Anvisa participa do grupo como órgão de caráter técnico, fornecendo os subsídios necessários para a avaliação e decisão dos ministérios. Neste momento a agência está trabalhando neste assessoramento", completa.

A reportagem apurou que uma nota técnica pode ser enviada ao GEI nas próximas horas.

O documento está sendo elaborado pela Gerência Geral de Portos, Aeroportos e Fronteiras. Antes da pandemia, a decisão final cabia à própria Anvisa. No entanto, com a criação do GEI, que é coordenado pelo Ministério da Saúde, a decisão saiu da esfera da agência.

O GEI toma decisões referentes a isolamento social, quarentena e também sobre "restrição excepcional e temporária de entrada e saída do país, conforme recomendação técnica e fundamentada da Anvisa, por rodovias, portos ou aeroportos", afirma legislação de fevereiro.

AS RESTRIÇÕES

Uma das restrições mais duras foi imposta pela França, que no domingo fechou por 48 horas suas fronteiras por terra, ar e mar com o Reino Unido. Como boa parte das importações britânicas chegam ao país via França, a medida fez soar o alarme para o risco de desabastecimento, já que o transporte de mercadorias também está proibido pelo veto atual.

Nesta segunda, faixas nas rodovias do sul da Inglaterra alertam os viajantes e motoristas que transportam mercadorias sobre o fechamento da fronteira. A segunda maior rede de supermercados do Reino Unido, a Sainsbury's, disse que a falta de produtos nas prateleiras vai começar já nos próximos dias.

Segundo a empresa, verduras, legumes e outros produtos frescos devem ser os primeiros a serem afetados. Horas depois, a rede Tesco, líder do setor, também apontou o problema e disse que podem faltar alface, couve-flor, hortaliças e frutas cítricas em breve.

O equivalente ao sindicato dos caminhoneiros da França anunciou também que devido ao risco de contágio seus associados não querem entregar produtos no Reino Unido, ainda que o governo retire a restrição.

Em entrevista coletiva nesta segunda, Boris disse que falou por telefone sobre o assunto com o presidente francês, Emmanuel Macron. Sem dar detalhes da conversa, o primeiro-ministro britânico afirmou que espera chegar a uma solução com Paris nas próximas horas.

O premiê também disse que as atuais restrições não afetaram o fornecimento dos suprimentos para o país e descartou a possibilidade de uma crise de desabastecimento. Mais cedo, um porta-voz do governo britânico já tinha afirmado que não há ligação entre as novas restrições feitas pela França e as atuais negociações do brexit.

Britain's Prime Minister Boris Johnson speaks during a media briefing in Downing Street, London, Monday Dec. 21, 2020. (Tolga Akmen/Pool via AP)
Em entrevista coletiva nesta segunda, Boris disse que falou por telefone sobre o assunto com o presidente francês, Emmanuel Macron, e afirmou que espera chegar a uma solução com Paris nas próximas horas. (Foto: Tolga Akmen/Pool via AP)

O Reino Unido deixou oficialmente a União Europeia em janeiro, mas a relação entre o país e o bloco segue regulada pelo acordo de saída. O período de transição, porém, termina no final deste ano. Assim, os dois lados têm tentado negociar um acordo comercial para regular as relações a partir de 1º de janeiro. Mas as conversas têm avançado com dificuldade e é grande a chance de que nada seja decidido até o final do ano.

Nesse caso, além das consequências sociais e econômicas, uma das grandes preocupações é o que aconteceria com o abastecimento britânico. Boa parte dos suprimentos e das cadeias produtivas do país dependem de material que vem da Europa. Sem um acordo, é possível que isso seja afetado, levando a um desabastecimento generalizado no país.

Apesar disso, o governo britânico disse que não vai pedir um adiamento do período de transição para além de 31 de dezembro. A União Europeia também convocou uma reunião de emergência para debater uma resposta conjunta do continente ao problema.

NOVA VARIAÇÃO DO VÍRUS

Foi o próprio Boris que endureceu no sábado (19) as restrições ao contato social em Londres e partes do sudeste da Inglaterra até 30 de dezembro, citando como razão a disseminação da nova variação identificada do patógeno.

Ele divulgou que essa nova versão do vírus é 70% mais contagiosa, mas ainda é preciso fazer estudos mais aprofundados para confirmar esse dado.

Pesquisas iniciais apontam que a nova mutação tem maior habilidade para entrar nas células humanas, o que aumenta seu poder de contágio. Essa vantagem ocorre por alterações no chamado — spike — , a parte usada pelo vírus para forçar a entrada nas células.

Mutações em vírus, no entanto, são corriqueiras. Conforme o patógeno se reproduz, as novas versões possuem detalhes levemente diferentes das anteriores, embora a maior parte siga igual. Hoje há várias versões do coronavírus circulando.

Com o tempo, variações mais eficientes acabam se proliferando mais. Um dos pontos que preocupam o governo britânico é que o essa nova variedade já representa dois terços dos novos casos de infecção registrados em Londres.

Segundo as autoridades de saúde, essas mudanças não devem afetar a eficácia das vacinas, que começam a ser aplicadas. Elas são projetadas para gerar defesas no corpo capazes de atingir o vírus de várias formas. As imunizações só precisam ser refeitas em caso de grandes mutações, o que parece não ser o caso atual.

Anunciadas às vésperas do Natal, as medidas que fecharam Londres são as mais severas que o governo britânico já tomou desde o lockdown nacional que vigorou em março e refletem o medo de que a nova variante pudesse aumentar a transmissão do vírus durante o inverno.​

Alarmado, o premiê britânico mudou radicalmente a estratégia de enfrentamento da pandemia no sábado ao impor o novo fechamento.​

A decisão veio depois de o governo ser informado sobre novas evidências de uma variante do vírus que já havia sido detectada em Kent, ao sudeste de Londres.

Os moradores dessas regiões agora estão sob o nível de alerta mais alto: a orientação é para que todos fiquem em casa e que os comércios considerados não essenciais permaneçam fechados.

Pubs, restaurantes e museus já estão proibidos de abrir desde o final de semana passado, e os deslocamentos para fora dessa área estão suspensos. Também não será possível realizar reuniões com moradores de outras casas — nas áreas que não estão em alerta máximo, os encontros devem acontecer em um único dia.

Coronavirus around blood cells
Pesquisas iniciais apontam que a nova mutação tem maior habilidade para entrar nas células humanas, o que aumenta seu poder de contágio. (Foto: Getty Images)

ENTENDA A MUTAÇÃO

  • O que é essa variação?

Uma versão do novo coronavírus que tem maior facilidade para entrar nas células, o que a torna mais contagiosa. O governo britânico disse que essa versão é 70% mais transmissível do que as anteriores, mas os estudos ainda são preliminares.

  • Como ela surgiu?

Os vírus se multiplicam dentro das células humanas, fazendo novas versões de si mesmos. Essas “cópias” costumam ser ligeiramente diferentes da versão que as originou. Assim, o surgimento de novas variações já era esperada pelos cientistas.

  • Essa versão é mais letal?

Segundo dados iniciais, não.

  • As vacinas darão proteção contra essa nova mutação?

Há quase certeza que sim. Uma mudança capaz de fazer o vírus resistir às vacinas deve levar anos para ocorrer.

  • Onde essa nova mutação já foi encontrada?

Reino Unido, Holanda, Dinamarca e Austrália, Itália e África do Sul.

RESTRIÇÕES DE VIAGEM

  • Suspenderam a entrada de estrangeiros de todos os países

Arábia Saudita, Kuwait e Omã

  • Restringiram a entrada de viajantes vindos do Reino Unido

Albânia, Alemanha, Argentina, Bélgica, Bulgária, Canadá, Chile, Colômbia, Croácia, Dinamarca, El Salvador, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Holanda, Hong Kong (parte da China), Índia, Irã, Irlanda, Israel, Itália, Jordânia, Letônia, Lituânia, Macedônia, Marrocos, Mauricio, Noruega, Peru, Polônia, Portugal, Rep. Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça e Turquia.

  • Restringiram a entrada de viajantes da África do Sul

Alemanha, Israel, Maurício, Omã, Suíça e Turquia

  • Restringiram a entrada de viajantes vindos da Holanda

Peru e Turquia

  • Restringiram a entrada de viajantes vindos da Dinamarca

Israel, Peru e Turquia

Fontes: AFP, Reuters e Anadolu. Lista atualizada às 18h45 de segunda (21).

Com informações da FolhaPress