Contra desigualdade de gênero, USP oferece curso online sobre ciência para meninas

Raphaela Ramos
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Astrominas

Universidade de São Paulo (USP) oferece curso online sobre ciência para meninas

"Empoderar meninas através da ciência". Essa é a missão do Astrominas, uma iniciativa do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), que oferece atividades online e gratuitas para meninas do ensino básico. Ao longo de cinco semanas, as participantes vão ter aulas sobre temas como Astronomia, Matemática, Física, Geociência e Oceanografia, além de realizar experimentos, assistir palestras com cientistas convidadas e contar com a orientação das chamadas "fadas madrinhas".

As inscrições para o evento estão abertas até o dia 20 de maio, e devem ser feitas por meio de um formulário online. Podem participar estudantes de todo o Brasil, que estejam no 9º ano do ensino fundamental ou no 1º e 2º anos do ensino médio e se identifiquem com o gênero feminino. A seleção será realizada por meio de um sorteio e levará em consideração cotas para pretos, pardos e indígenas e para estudantes de escolas públicas.

O curso é organizado por alunas e cientistas da USP e é coordenado pela professora Elysandra Figueredo Cypriano. As aulas começam no dia 30 de maio e vão até o dia 3 de julho. Elas exigem cerca de uma hora de dedicação por dia, e ficarão disponíveis para serem assistidas em qualquer horário. Alunas que cumprirem todas as atividades vão receber um certificado digital.

— Um projeto voltado para meninas é importante porque ainda temos poucas mulheres na área das ciências exatas. Quando você entra na Física, por exemplo, e vê uma proporção muito pequena, você começa a ter uma certa síndrome da impostora e a questionar se você realmente é capaz de estar ali — conta Ivanice Morgado, estudante de Física na USP e uma das bolsistas que fazem parte da organização do projeto.

O principal objetivo do curso, portanto, é aproximar as meninas dessa área da qual são pouco incentivadas a participar, por ainda ser culturalmente considerada mais masculina.

— Quando fazemos a escolha da nossa carreira geralmente somos influenciadas pelos familiares e pela escola a seguir na área de humanas ou biológicas, que teria afinidade maior com as meninas. A barreira começa a aí e depois vai acontecendo o efeito tesoura, conforme você vai aumentando os níveis acadêmicos, vê cada vez menos mulheres. Nós queremos que as meninas se sintam seguras, empoderadas e capazes de seguir esse tipo de carreira, sabendo que não são limitadas de nenhuma forma — afirma a estudante de 20 anos.

Para isso, o projeto apresenta uma ciência totalmente feita por mulheres e dá voz a professoras e cientistas para que contem sobre suas profissões e mostrem o universo de possibilidades que existe nessa área. A física, astrofísica e cientista de dados Patricia Martins de Novais, de 33 anos, é uma dessas mulheres. Ela participa da organização do Astrominas e vai estar em uma mesa redonda sobre jovens cientistas.

— O projeto tem dois pontos importantes: primeiro é mostrar para as meninas que a ciência é sim para mulheres, apresentando profissionais capacitadas que são pesquisadoras incríveis em suas áreas. E outro ponto é que podemos transformar essas meninas em disseminadoras, porque sabemos que o público feminino tende a transmitir mais o conhecimento. Como estamos nesse projeto de forma online vamos ter a oportunidade de atingir estudantes nos mais diferentes contextos, e isso é muito importante — diz a cientista.

Ela lembra que uma das dificuldades em sua trajetória foi a falta de modelos femininos em que pudesse se inspirar. Além disso, afirma ter sentido outros efeitos dessa barreira cultural que afasta mulheres da ciência. Algumas vezes de forma mais explícita, outras de maneira mais velada.

— Foram vários momentos em que a gente pode perceber essa diferença. Na graduação, alguns professores ignoravam minha participação, meu projeto não era tão bem quisto quanto os dos outros colegas. Mas conforme a gente vai crescendo na carreira percebemos que esses preconceitos são mais velados e mais difíceis de atacar. Como um mansplaining, alguém querendo nos explicar algo que a gente domina, eventos em que todo o staff é masculino e não têm uma mulher convidada — ela cita.

Por isso, Patricia Novais acredita que iniciativas com essa são extremamente importantes na busca pela equidade e diversidade na ciência:

— Além do Astrominas, hoje existem outros projetos que têm feito um esforço para aumentar a presença feminina desde a base, começando no ensino fundamental. Isso é muito importante porque acredito que a mudança no paradigma da equidade vai sendo construída no dia a dia. Com o aumento dessas iniciativas não só a gente leva ciência para muitas meninas como percebemos pela quantidade de inscritas o quanto há de meninas interessadas, mas que ainda não tiveram oportunidade de aprender e desenvolver essas habilidades — conclui.

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