Contra estatísticas, profissionais trans lutam para fazer parte do mercado de trabalho

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Pesquisa da OAB-MT estimou que o índice de evasão escolar de travestis e transexuais é de 82%. (Foto: Carla Carniel)
Pesquisa da OAB-MT estimou que o índice de evasão escolar de travestis e transexuais é de 82%. (Foto: Carla Carniel)

por Iran Giusti

A trajetória de Sol Santos, 26 anos, tinha tudo para ser uma história de sucesso precoce: moradora de um bairro da extrema zona sul de São Paulo, filha de mãe empregada doméstica e pai vigia de hospital, entrou na faculdade de Medicina Veterinária na Universidade de São Paulo (USP) logo após o ensino médio cursado em escola pública aos 18 anos. No entanto, o preconceito impediu seu avanço no passo que desejava.

"Comecei a transição no final da faculdade quando tive tempo para me dedicar a mim, entender que era uma pessoa trans e já no estágio obrigatório senti como o mercado de trabalho é elitista, racista e transfóbico", desabafa.

Sol relata ter feito uma dezena de entrevistas sem sucesso: "Em uma delas pediram só para mim que desse um plantão de 12 horas, no fim do dia perguntei para profissional que deveria me avaliar e ela falou que nem prestou atenção porque achou que eu era uma enfermeira", conta.

O emprego na área até veio, mas como representante comercial técnica de uma marca de ração de cachorros. "Era uma trabalho CLT, uma vitória para uma mulher trans preta", lembra, porém não durou muito: "A empresa se recusava a usar meu nome social e nem sequer queria falar sobre isso, então acabei saindo", explica.

Sem perspectiva de trabalho, Sol então acabou buscando uma outra área de atuação e participou do curso profissionalizante de maquiagem de um projeto LGBT chamado Casa 1, em São Paulo. No entanto, mesmo realizando o curso a entrada na nova profissão não foi rápida a levando a recorrer à prostituição, prática comum entre mulheres trans para sobreviverem.

"Fiz um mês de pista e foi horrível, o medo, a exposição ainda maior à violência, não consegui continuar", conta se referindo ao trabalho como profissional do sexo. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% das mulheres transgênero vivem da prostituição.

EMPREGO E EDUCAÇÃO NA POPULAÇÃO TRANS

E quando se fala em empregabilidade e educação da população os números são sempre alarmantes.

Uma pesquisa conduzida pelo defensor público João Paulo Carvalho Dias, presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), seccional Mato Grosso. (OAB-MT) em 2016, estima que o indíce de evasão escolar de travestis e transexuais é de 82%.

Já a V Pesquisa do Perfil Socioeconômico e Cultural de Estudantes de Graduação, publicada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2018, aponta que apenas 0,2% dos alunos e alunas das Instituições Federais de Ensino Superior são trans.

Essa equação de exclusão escolar — afinal mais do que abandonarem as escolas, as pessoas trans são impulsionadas para fora por conta da violência que sofrem — somada à falta de oportunidades e ao preconceito levou o empresário Ariel Nobre a pensar em formas de auxiliar outras pessoas trans como ele a se estabelecerem no mercado de trabalho.

"Entre 2017 e 2019 trabalhei com muitas marcas no campo da comunicação e da publicidade e ao longo desse tempo percebi o quanto ainda as empresas precisam se preparar para questões LGBT. Eu sempre era a única pessoa trans e isso se deve ao fato de sermos expulsos sistematicamente dos espaços de convivência: casa, escola, igreja e consequentemente das empresas", declara o também diretor de cinema.

Foi então que Ariel elaborou uma mentoria para pessoas trans. "Montei uma grade de um dia sobre finanças pessoais e comunicação e a ideia era que cada pessoas trans se entendesse como uma pessoa do mercado, falamos sobre dinheiro, em como colocar o mercado ao nosso favor", explica.

A primeira edição no começo deste ano contou com quinze participantes e, mesmo durante a quarentena, seguiu online com novos e novas alunas.

O consultor de diversidade e pesquisador na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Ricardo Salles explica: " A maior dificuldade que uma pessoa trans enfrenta no mercado é a própria transfobia. Existem algumas ideias que são equivocadas mas que circulam inclusive no meio empresarial, como a que você não encontra pessoas trans com formação ou que tenham traquejo para o mundo corporativo. Tudo isso é fruto de ideia preconceituosa.

Na avaliação de Salles, é evidente que o número de pessoas trans à disposição no mercado de trabalho é menor, visto o caráter excludente dos ambientes formadores. No entanto, mesmo com a capacitação necessária, ter um diploma não é garantia de obter um emprego.

“É claro que por viver numa sociedade estruturalmente transfóbica, a gente tem um número menor de pessoas trans com uma formação universitária exigida por grandes empresas, mas essas pessoas existem, e ainda assim os seus diplomas não são garantia de que vão conseguir qualquer tipo de emprego", completa.

Além do processo de mentoria realizado por Ariel, outras iniciativas como a Feira Diversa realizada pela +Diversidade da qual Ricardo é sócio, o Fórum de Empresas e Direitos LGBT+ e a plataforma Transempregos fundada pelas mulheres trans Maite Schneider, Márcia Rocha e Laerte Coutinho, são iniciativas da sociedade civil para incentivar a inserção de pessoas trans e travestis no mercado de trabalho.

PEQUENOS PASSOS

Ariel também aponta que o mercado vem avançando em especial em relação à comunicação mas é preciso cautela.

"Já estamos vendo homens trans com visibilidade nas campanhas, porém a publicidade tende a ser um tanto messiânica, mas ela não salva ninguém. O que falta é ver nós, pessoas trans, não só como tema de campanha, mas como pessoas dignas de terem profissão e que podem contar suas histórias para início de conversa", explica Ariel, citando o recente caso da Natura, marca de beleza que convidou o ator trans Thammy Miranda para ser um dos influenciadores da sua campanha de Dia dos Pais.

"A sociedade respondeu positivamente mesmo com os ataques do conservadorismo. A diversidade traz sim produtividade mas a inserção das pessoas vulneráveis no mercado global deve ser um imperativo moral", aponta o empresário que lembra que nem de longe é um processo fácil. "Isso não quer dizer que é só jogar a pessoa e fazer ela lidar com todos os desconfortos e violências e dói para os dois lados, quem emprega e quem é empregado. Os processos vão ter que ser refeitos e requer mudanças em tratos estruturais das empresas", finaliza.

E Ricardo relata ainda o quanto se avançou no campo da diversidade: "Quando comecei a trabalhar com o tema em 2005, há 15 anos, você praticamente não tinha espaço para discutir a questão LGBT no ambiente de trabalho, mesmo para uma um homem gay, cis, branco, não havia muito alternativa numa empresa tradicional, a não ser ficar no armário. De lá para cá gente teve algumas mudanças que não aconteceram na velocidade que a gente precisa, nem aconteceram para todo mundo que faz parte da sigla na mesma velocidade, mas são mudanças e são importantes", pontua, dando como exemplo a ser seguido, grandes empresas de varejo.

"Algumas empresas que contratam pessoas trans para atuarem ali na linha de frente, como é o caso alguns grandes supermercados. Acho que isso tem seu valor e deve ser saudado, porque a empresa está colocando ali na ponta para atender um cliente, para representar-la".

Os avanços vieram também para Sol, que hoje trabalha como professora no projeto em que se profissionalizou na Casa 1 e está caminhando a passos largos na área da maquiagem em especial em campanhas publicitárias e revistas de moda.

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