Quem apostou em "conversão" de Bolsonaro deve desculpas ao país

Matheus Pichonelli
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Brazil's President Jair Bolsonaro and Brazil's Health Minister Eduardo Pazuello attend the launch ceremony of a training program for health workers at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, December 8, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro com seu ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Ueslei Marcelino/Reuters

Em uma paródia genial de “My Fair Lady”, filme baseado na peça “Pigmaleão”, de Bernard Shaw, e estrelado por Audrey Hepburn, o humorista e diretor mexicano Roberto Bolaño propõe um final alternativo à história sobre uma vendedora de flores rude e inculta convertida em dama apenas com o convívio, em poucos meses, com um professor de fonética.

Na versão do criador de Chapolin, é o presunçoso tutor que se brutaliza com o convívio.

Pouco antes das eleições de 2018, as versões locais do professor Henry Higgins decidiram apostar alto em Jair Bolsonaro. Estavam convictos de que, alinhados a uma espécie de jibóia institucional, conseguiriam transformar um deputado rude e incauto em estadista.

Hoje o Brasil está mais para esquete do Chapolin do que para o filme de George Cukor. Em vez de civilizar a fera, as instituições e seus representantes se brutalizaram, tornando o vírus bolsonarista numa mazela à parte aos riscos sanitários que ele gerencia e representa.

As últimas cenas de Eduardo Pazuello como ministro são exemplos desta contaminação ideológica.

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À frente da pasta, o general do Exército ostenta índices de bolsonarismo galopante ao longo da pandemia. Em uma de suas últimas coletivas à imprensa, ele culpou o fuso horário da Índia pela demora em trazer as vacinas para as quais já havia avião adesivado e que não chegou a decolar.

Embora rejeitado pelos especialistas, o site do ministério, sob sua intervenção, insiste em divulgar orientações relacionadas ao “manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19”, uma doença para a qual, ainda, não há remédio.

Em ofício, o ministério dizia ser “inadmissível” a não utilização de medicações como cloroquina e ivermectina para controlar a explosão de casos em Manaus, onde sobraram lorotas e faltavam cilindros de oxigênio hospitalares para pacientes.

Mesmo diante das evidências, Pazuello nega que a pasta tenha protocolos sobre o uso desse tipo de cura milagrosa. E, como o chefe, se irrita quando perguntado sobre o assunto.

O fato é que, sob sua gestão, o ministério que mais deveria inspirar credibilidade numa pandemia chegou ao limbo do descrédito ao ter uma postagem marcada como enganosa e potencialmente prejudicial pelo Twitter a respeito do tal “tratamento precoce”. É como se, diante do receio de um país inteiro sob guerra, o rei George VI mandasse o povo britânico para o baile (para mais, assistam “O Discurso do Rei”).

Em uma live recente, Pazuello ouviu calado o presidente dizer que não se podia esperar a comprovação científica para uso de determinadas medicações. Para isso, citou como exemplo o uso de água de coco para substituir o sangue de soldados feridos em guerra. Segundo o presidente, eles foram salvos antes da ciência aplicar um veredito sobre o reidratante.

Pazuello, que já disse que a região Norte é a região “mais ligada ao inverno no hemisfério Norte” (vide Canadá), agora atribui a explosão inédita de doenças respiratórias à umidade relativa do ar amazônico, que dizer de quase 100%, e não à sabotagem, promovida especialmente por deputados bolsonaristas, às regras relacionadas ao distanciamento social quando a segunda onda de contaminação já estava formada.

No mesmo dia, Bolsonaro mostrou os dentes ao evocar o fantasma do golpe dizendo que cabe só às Forças Armadas determinar até onde vai o limite de uma democracia e uma ditadura para esfumaçar seu incômodo, mal disfarçado em um “apesar da vacina”, com o sucesso da vacina de uma fabricante chinesa desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan. Sem mais a dizer, ainda teve tempo pra arremessar uma bolinha de papel na cabeça do ditador Nicolás Maduro e associar, com ironia, seu peso ao tamanho do coração de quem oferecia o oxigênio em falta nos hospitais de Manaus. Em outra palavra, trotou como quis numa loja de cristais.

Ofender para desconversar e justificar o injustificável --e negar quando já não se pode lutar contras as evidências-- é a pedra filosofal da ideologia bolsonarista que os entendidos juravam que estaria sob controle quando as instituições e seus representantes civilizassem o presidente.

O que se viu até aqui é o contrário. Nos últimos dois anos, até poliglotas começaram a latir para fazer coro, ou oposição, à linguagem bolsonarista. No vácuo de tudo o que se nivelou por baixo, o Brasil se tornou um polo produtor de memes sem competidores internacionais. A excelência das piadas, dessas que trocam o choro pelo riso, será o legado de Bolsonaro ao país. Os adultos na sala entraram em extinção.

Não teve sócio da aventura bolsonarista que não saiu chamuscado da parceria. Com eles, as instituições que representam, ou deveriam representar.