Conversas com a China foram 'duras e diretas', diz alto funcionário dos EUA

Frederic J. BROWN com Francesco FONTEMAGGI em Washington
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Delegações chinesa e americana na primeira reunião entre os dois países após a eleição do presidente dos EUA, Joe Biden, em 18 de março de 2021

As conversas entre os principais diplomatas dos Estados Unidos e da China foram "duras e diretas", mas foram encontradas algumas áreas em que os interesses das superpotências rivais convergiram, disseram altos funcionários americanos nesta sexta-feira (19) após o fim de reuniões bilaterais no Alasca.

O encontro de alto nível terminou em Anchorage, depois que as duas partes trocaram críticas por ações consideradas perturbadoras da estabilidade mundial, no primeiro encontro entre delegados dos dois países desde a chegada ao poder do presidente americano, Joe Biden, em 20 de janeiro.

Após as sessões de quinta e desta sexta-feira pela manhã, o secretário de Estado americano, Antony Blinken, disse que os Estados Unidos foram francos em relação a suas preocupações sobre a atitude de Pequim com relação a Hong Kong e Taiwan e seu agir no ciberespaço.

O lado chinês ficou na defensiva, como se esperava, disse.

"Mas também pudemos ter uma conversa muito sincera durante estas muitas horas sobre uma agenda de expansão", afirmou Blinken.

"Sobre o Irã, sobre a Coreia do Norte, sobre o Afeganistão, sobre o clima, nossos interesses se cruzam", afirmou.

As reuniões foram fixadas como uma troca de pontos de vista e não eram esperados acordos ou pactos.

"Esperávamos ter conversas duras e diretas sobre uma ampla gama de temas, e foi isso exatamente o que tivemos", disse o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan.

"Temos as coisas claras ao sair e voltaremos a Washington para fazer um balanço de onde estamos", disse.

"Continuaremos consultando aliados e sócios sobre o caminho a seguir", acrescentou Sullivan.

A delegação chinesa, liderada pelo o mais alto funcionário do Partido Comunista chinês para a diplomacia, Yang Jiechi, partiu sem fazer comentários imediatamente após o encontro.

Mas em declarações à agência de notícias chinesa Xinhua, Yang Jiechi disse que as discussões bilaterais foram "diretas, construtivas e úteis".

O diálogo em cinco dias de conversações foi "direto, construtivo e útil, embora ainda haja divergências importantes entre ambas as partes", disse Jiechi à Xinhua.

Já nos discursos de abertura, a cúpula bilateral foi marcada por um tom distinto da diplomacia tradicional, abordando as profundas diferenças entre os dois países.

Longe do protocolo estabelecido ao milímetro, as duas delegações procuraram falar depois das intervenções da outra parte, para tentar dar a última palavra, trocando ataques de uma virulência pouco frequente.

O secretário de Estado, Antony Blinken, acusou a China de "ameaçar" a estabilidade mundial, declarações que Biden apoiou nesta sexta-feira, afirmando que está "orgulhoso" de seu ministro das Relações Exteriores.

Além disso, os Estados Unidos expressaram sua "profunda preocupação" com a situação da minoria muçulmana uigur na China, que Washington afirma ser vítima do "genocídio" por parte de Pequim.

A lista de áreas de atrito continuou com as alegações de Hong Kong, Taiwan e a menção de Blinken a "ataques cibernéticos contra os Estados Unidos e coerção econômica" contra seus aliados por parte da China.

Por sua vez, Jiechi criticou a "interferência dos EUA nos assuntos internos da China" e ameaçou com represálias "firmes".

- "Condescendência" -

Ele, então, acusou os Estados Unidos de serem os "campeões" em matéria de ataques cibernéticos e de buscarem impor seu estilo de democracia, mas destacou a falta de "confiança" nesse modelo dentro do próprio país, citando como exemplo os protestos anti-racistas do movimento "Black Lives Matter", também denunciando o respeito aos direitos humanos no país.

Jiechi lamentou o "tom" e "condescendência" dos Estados Unidos, dizendo que "não está qualificado" para falar com a China a partir de uma posição de força.

Assim que os jornalistas saíram da sala, após mais de uma hora de trocas virulentas, ambas as partes continuaram a se criticar por criar uma atmosfera que violava o protocolo da ocasião.

Por outro lado, um alto funcionário dos EUA acusou Pequim de "demagogia" por ter chegado ao cume "com ares de pomposidade, focado na cena pública e no drama em vez de no conteúdo".

- "Mentalidade da Guerra Fria" -

Nesta sexta-feira, o Ministério das Relações Exteriores da China respondeu que os americanos foram os primeiros a iniciar a "provocação".

"Quando a delegação chinesa chegou a Anchorage, seus corações ficaram gelados com a frieza e pela recepção dos anfitriões americanos", afirmou o porta-voz do ministério, Zhao Lijian.

A delegação chinesa sentou-se à mesa visivelmente chateada com as últimas sanções americanas contra Pequim por causa da erosão da autonomia de Hong Kong, anunciadas no dia anterior.

Antes do encontro, as expectativas já eram limitadas, pois Biden havia mostrado sua intenção de manter o caminho de firmeza traçado por seu antecessor, o republicano Donald Trump.

No entanto, a equipe de Biden - que censura o governo Trump por ter isolado os Estados Unidos do cenário internacional e por ter promovido uma diplomacia entusiástica e apressada - declarou que quer cooperar com o gigante asiático em desafios comuns, como o aquecimento global.

O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, observou: "Não buscamos conflito, mas aceitamos uma competição acirrada".

Yang Jiechi pediu para o país "abandonar a mentalidade da guerra fria" e defendeu alguma forma de "cooperação".

No entanto, longe das câmeras, ambas as delegações tiveram uma "conversa substancial, séria e direta", informou uma fonte americana.

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