Coordenador da Funai fala em ‘meter fogo nos isolados’ em reunião com comunidade indígena

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BRASILIA, BRAZIL - JUNE 19: A member of an indigenous community wears a face mask that reads 'Bolsonaro out' during a protest against Bolsonaro's administration on June 19, 2021 in Brasilia, Brazil. Brazilian president Jair Bolsonaro is facing a probe  for pandemic mismanagement as the country approaches the half million deaths from COVID. The controversial decision to host the Copa America 2021 amid the coronavirus crisis is questioned by a large part of the population. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
Indígenas protestam em Brasília, no dia 19 de junho. Foto: Andressa Anholete/Getty Images
  • Caso ocorreu em junho, mas áudio veio à tona recentemente

  • Comunidade do Vale do Javari está tendo problemas com indígenas isolados

  • Coordenador disse que governo Bolsonaro não consegue resolver problemas indígenas por ‘questões ideológicas'

Em reunião na comunidade indígena Paulinho, do povo marubo, o coordenador da Funai no Vale do Javari (AM), o tenente da reserva do Exército Henry Charlles Lima da Silva, incentivou que os moradores da comunidade atirem contra indígenas isolados caso sejam “importunados” por eles.

“Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados’”, declarou Henry, no dia 23 de junho. A fala está em um áudio obtido pelo jornal Folha de S. Paulo.

O povo marubo relatou que 16 dias antes do encontro, indígenas isolados sequestraram uma mulher de 37 anos da comunidade. Ela foi encontrada 4 horas depois na mata, com as mãos amarradas. Essa foi a terceira tentativa de sequestro da mesma mulher desde o final do ano passado.

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A Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari investiga porque isolados apareceram nessa região do rio Ituí. A Frente não é subordinada à Coordenação Regional da Funai, que apenas cuida de populações indígenas contatadas.

“São eles que estão saindo do território deles para importunar os marubos”, disse o tenente no áudio.

E continuou: “Não estou aqui pra desarmar ninguém, também não estou aqui pra ser falso e levantar bandeira de paz. Eu passei muito tempo da minha vida evitando a guerra, mas se a guerra vier, nós também não vamos correr. Se vierem na terra de vocês, vocês têm todo o direito de se defender.”

“Se eles [os isolados] cometerem algum delito, alguma ameaça a vocês, a gente tem de ver o que pode fazer pra poder parar”, declarou o coordenador. "Eles já entendem. Já pedem cesta básica, já falam português, já têm contato direto com a frente, não se justificam certas atitudes deles.”

Nenhum povo isolado fala português ou recebe cesta básica. O tenente está há um ano no cargo e possivelmente confundiu os povos com os korubos, que foram recentemente contatados.

"A gente tem de tomar uma providência para evitar um mal maior. Eu não tiro o direito de vocês, independentemente da lei penal ou não, de defender o seu território, a sua maloca, a sua casa, o seu povo, a sua mulher, as suas crianças.”

Por fim, Henry afirma que o governo de Jair Bolsonaro não consegue atuar nas pautas indígenas “por questões ideológicas: “A Apib [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil] vai, denuncia, e a gente fica nesse impasse”.

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