COP26: 3 gráficos que mostram governo Bolsonaro na contramão de novas metas climáticas

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Bolsonaro e Joaquim Leite
Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite. Na COP26, delegação brasileira tenta vender a imagem de que política ambiental do Brasil mudou neste ano, após saída de Ricardo Salles, do ministério

Considerado país crucial para o controle do aquecimento da Terra, o Brasil assumiu o compromisso de zerar o desmatamento ilegal em 2028 e cortar em 50% as emissões de gases poluentes até 2030. As metas foram anunciadas durante a COP26, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas.

Mas dados sobre desmatamento e poluição nos dois primeiros anos de governo Bolsonaro revelam que o país está na contramão dessas metas.

Entre os dias 31 de outubro e 13 de novembro, representantes de quase 200 nações se reúnem em Glasgow, na Escócia, para a COP26, a 26ª conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. O objetivo do encontro é discutir novos compromissos para garantir a meta do Acordo de Paris de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C.

O engajamento do Brasil é considerado crucial por dois fatores: o país é um dos grandes emissores de gás carbônico e abriga a maior floresta do mundo, na Amazônia. O presidente Jair Bolsonaro não compareceu à COP26, mas, diferentemente do que ocorreu na conferência anterior, ele defendeu mais "ambições" nas metas climáticas brasileiras.

Além de ampliar seus compromissos, o Brasil assinou um importante acordo sobre proteção de florestas durante a conferência, que estabelece como meta desmatamento zero no mundo até 2030. O documento prevê US$ 19,2 bilhões em recursos públicos e privados para ações ligadas à preservação das florestas, combate a incêndios, reflorestamento e proteção de territórios indígenas.

A dificuldade da delegação brasileira será convencer o mundo de que as metas serão levadas a sério, diante de dois anos consecutivos de piora em todos os indicadores ambientais do país.

A BBC News Brasil reuniu em três gráficos os dados que mostram como desmatamento, incêndios e emissões de gás carbônico aumentaram durante o governo Bolsonaro.

Se isso não mudar, o Brasil dificilmente cumprirá as metas que acaba de anunciar.

Maior desmatamento na Amazônia em 12 anos

gráfico desmatamento
gráfico desmatamento

Em 2019 e 2020, dois primeiros anos de governo, o desmatamento na Amazônia alcançou o maior patamar em 12 anos, desde 2008.

De 2004 a 2012, durante o governo Lula, após a implementação de um plano agressivo de combate ao desmatamento iniciado na gestão da então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o desmatamento na Amazônia caiu cerca de 80%. Ainda na gestão Lula, em 2012, as taxas voltaram a subir e oscilaram para cima e para baixo até 2018.

Mas, nos dois primeiros anos de governo Bolsonaro, houve um crescimento significativo na destruição da floresta. A taxa anual de desmatamento chegou a 10.851km2 em 2020, sendo que a taxa média nos dez anos anteriores era de 6.493,8 km2.

Isso significa um aumento de 67% na área de floresta destruída.

Na segunda-feira (1), o governo brasileiro anunciou que vai antecipar a meta de zerar o desmatamento ilegal de 2030 para 2028, e alcançar uma redução de 50% até 2027. A ideia, conforme anúncio do governo brasileiro, é que haja uma diminuição gradual da destruição da floresta em 15% ao ano entre 2022 e 2024, subindo para 40% de redução em 2025 e 2026, até alcançar desmatamento zero em 2028.

Mas, para ambientalistas, o governo ainda não definiu ações concretas capazes de reverter de maneira significativa a curva de aumento no desmatamento.

"Existe uma guerra contra o meio ambiente em curso no Brasil e vai ser difícil esperar que governos, negociadores, empresas, investidores acreditem em uma mudança radical de postura do governo brasileiro no último ano de mandato do presidente Bolsonaro frente ao que aconteceu nesses últimos anos", diz o pesquisador e ambientalista Carlos Rittl, especialista em política pública da Rain Forest Foundation, ONG ambiental da Noruega.

A Amazônia tem importância crucial para o sucesso ou fracasso da meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global em 1,5°C. Um aquecimento maior do que esse tornaria diversas áreas do planeta inabitáveis, contribuiria para eventos climáticos extremos, significaria a extinção de espécies e ameaçaria o fornecimento de alimentos no mundo, segundo cientistas.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, explica que algumas áreas de alta absorção de carbono da atmosfera, como a Amazônia e as geleiras do Ártico, podem derrubar por si só as metas de controle climático, se deixarem de existir ou sofrerem muita degradação.

A floresta Amazônica ajuda a equilibrar o clima do planeta, ao capturar e estocar quantidades enormes de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases do efeito estufa. Quando árvores são derrubadas, parte desses gases são liberados para a atmosfera e novas absorções deixam de ocorrer.

Também é da Amazônia que vêm 70% das chuvas que irrigam as áreas agricultáveis do Centro Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, destaca Astrini.

"Existem hotspots (focos de interesse) de emissões no planeta que, se acionados, colocam a perder a meta de 1,5°C. São os oceanos, a Groenlândia, o Ártico e a Amazônia", diz o secretário-executivo do Observatório do Clima.

"A Amazônia estoca o equivalente a cinco anos das emissões globais. Junta todo o carbono de cinco anos de emissões do mundo, isso está estocando na Amazônia em forma de árvore e no solo. Se a gente perde a floresta, a gente perde a corrida pela manutenção do clima."

Emissões de gases poluentes cresceram

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O governo Bolsonaro oficializou durante a COP26, em Glasgow, a meta de alcançar em 2050 a chamada neutralidade de carbono- quando as emissões de CO2 são reduzidas ao máximo e as restantes são inteiramente compensadas com reflorestamento ou tecnologia de captura de gases do efeito estufa da atmosfera.

Mas o anúncio ocorre ao mesmo tempo em que o Brasil registra o maior volume de emissões em 14 anos, desde 2006. Na contramão do mundo, o país aumentou sua liberação de gás carbônico na atmosfera em 2020, em plena pandemia do coronavírus.

Com a paralisação de serviços, voos e atividades comerciais em boa parte do ano, a média global de emissões caiu cerca de 7% em 2020. No Brasil, no entanto, houve uma alta de 9,5% em relação a 2019, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.

O maior responsável foi o aumento no desmatamento em 2020, que foi grande o suficiente a ponto de compensar as reduções nas emissões causadas pela paralisação da economia durante a pandemia.

A poluição provocada pelo setor de energia diminuiu 4,5% em 2020, mas os aumentos no desmatamento das florestas e nas emissões provocadas pela agropecuária anularam essa redução na poluição energética. A categoria "mudanças no uso da terra", que engloba desmatamentos na Amazônia e no Cerrado, viu um aumento de 24% nas emissões em relação a 2019, com a liberação de 998 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera.

Já as emissões da agropecuária sofreram alta de 2,5% — o maior aumento desde 2010. As emissões da agropecuária sofreram alta de 2,5% — o maior aumento desde 2010. A perda de florestas e mudanças no uso do solo são responsáveis pela maior fatia das emissões brutas brasileiras — 46%, segundo os dados do SEEG. Já a agropecuária responde 27% das emissões brutas brasileira.

Somadas, a poluição do desmatamento e da agropecuária representam 73% das emissões do país.

"Para o Brasil, o melhor custo eficiência para reduzir emissões é diminuir o desmatamento. É a política mais barata, mais intensa em redução de emissões e não traz prejuízos econômicos. De 2004 a 2012, o Brasil reduziu em mais de 80% o desmatamento sem que isso afetasse o seu crescimento econômico", disse à BBC News Brasil Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Focos de incêndio

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Outro indicador que piorou em 2019 e 2020 foi o de focos de incêndio em todo o território brasileiro. Em 2020, houve mais incêndios que nos últimos dez anos- a pior taxa desde 2010, segundo dados oficiais do Inpe.

No ano passado, o país registrou 222.798 focos, contra 197.632 em 2019, um aumento de 12,7%. Neste ano, a contabilidade de focos de incêndio ainda não fechou, mas a tendência é que haja uma redução em relação a 2020, mas ainda assim fique acima dos patamares de 2018.

O fogo costuma ser usado para "limpar" áreas de plantio e o aumento de focos de incêndio funciona como um indicativo de desmatamento ilegal. Em 2019, imagens da Amazônia queimando invadiram o noticiário nacional e internacional, gerando críticas de líderes mundiais à política ambiental brasileira.

Já em 2020, o Pantanal foi o bioma que mais sofreu com queimadas, e imagens de animais carbonizados viajaram o mundo. Foram registrados 22.119 focos de queimadas lá, cerca de 120% a mais que no ano anterior- o maior patamar desde que o levantamento começou a ser feito pelo Inpe em 1998.

Contramão de metas climáticas?

Numa aparente guinada de discurso sobre política ambiental, o presidente Jair Bolsonaro disse, em mensagem gravada transmitida na COP26, que há espaço para "mais ambição" no controle climático e garantiu que o Brasil é "parte da solução" do problema.

Mas ambientalistas ainda estão céticos de que os novos compromissos ambientais assumidos pelo Brasil serão alcançados, diante dos indicadores de desmatamento, emissões e incêndios nos dois primeiros anos de governo.

"Todos os índices ambientais de clima no Brasil nos últimos dois anos e meio. As emissões aumentaram por dois anos consecutivos, o desmatamento na Amazônia aumentou por dois anos, os incêndios aumentaram dois anos seguidos, as invasões de terras públicas também. O Brasil chega com credibilidade zero à conferência e precisa mostrar ações concretas para alcançar as metas", diz o secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini.

Já integrantes do time de negociadores brasileiros na COP26 reforçam que existe uma "nova postura" do governo federal quanto a temas ambientais desde a saída em junho do ministro Ricardo Salles do Meio Ambiente.

"É importante olhar as coisas de maneira prospectiva. Não é simples, mas queremos procurar, na medida do possível, desfazer a percepção a nosso ver hoje equivocada - e eu sublinho hoje - de que nós não reconhecemos que existe um problema de desmatamento e que também não estamos tomando medidas concretas para conter o desmatamento", disse um dos negociadores brasileiros à BBC News Brasil.

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