COP26: Na contramão do mundo, Brasil teve aumento de emissões de CO2 em ano de pandemia

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Amazônia em chamas
Em 2020, emissões de gases do efeito estufa aumentaram quase 10% no Brasil- o pior resultado desde 2006. Desmatamento foi o maior responsável

Na contramão do mundo, o Brasil teve um aumento de 9,5% nas emissões de gases poluentes em 2020, em plena pandemia de covid-19, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. Já a média global de emissões sofreu uma redução de 7%, por causa das paralisações de voos, indústrias e serviços ao longo do ano passado.

A divulgação dos dados ocorre às vésperas da COP26, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, que acontece entre os dias 31 de outubro e 12 de novembro, em Glasgow, na Escócia. No evento, que reúne líderes como o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o premiê do Reino Unido, Boris Johnson, o Brasil vai tentar demonstrar que existe uma imagem "equivocada" no exterior de que o país não é comprometido com a proteção ambiental.

Mas o resultado do cálculo de emissões para 2020 pode dificultar essa tarefa, já que indica que o país está na contramão das suas metas de redução de gases do efeito estufa. Segundo as novas estimativas do SEEG, o Brasil liberou 2,16 bilhões de toneladas de gás carbônico em 2020, contra 1,97 bilhão em 2019.

É o maior nível de emissões em 14 anos — desde 2006. E o maior responsável foi o aumento no desmatamento em 2020, que foi grande o suficiente a ponto de compensar as reduções nas emissões causadas pela paralisação da economia durante a pandemia.

Na COP26, a delegação brasileira deve oficializar a meta de reduzir as emissões em 37% até 2025, em 43% até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono em 2050 — quando todas as emissões são reduzidas ao máximo e as restantes são compensadas por captura de carbono da atmosfera.

Durante o encontro, líderes de mais de 100 países vão negociar novos compromissos para garantir a meta do Acordo de Paris de manter o aquecimento global em 1,5°C. Mais ainda não está claro como serão alcançados os objetivos climáticos do Brasil diante de dois anos consecutivos de aumentos no desmatamento, nos focos de incêndio e nas emissões de CO2.

Desmatamento é maior responsável por emissões

Gráfico de emissões de CO2 anuais do Brasil por fonte
Gráfico de emissões de CO2 anuais do Brasil por fonte

Em um ano em que milhões de pessoas tiveram que trabalhar de casa, serviços foram interrompidos e voos internacionais foram suspensos, era de se esperar uma redução nas emissões no mundo. E foi o que aconteceu na maior parte dos países, mas não no Brasil.

Segundo os dados do SEEG, a poluição provocada pelo setor de energia diminuiu 4,5% no país durante a pandemia, mas os aumentos no desmatamento das florestas e nas emissões provocadas pela agropecuária foram grandes a ponto de anular essa redução na poluição energética.

"O setor de energia foi aquele que apresentou a maior queda percentual de emissões em 2020. Esse resultado é um claro reflexo da diminuição de atividades emissoras devido à pandemia de covid-19, quando foi necessário que as pessoas evitassem se deslocar", explicou Felipe Barcellos, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente, um dos autores do levantamento.

"Destaca-se a diminuição de emissões nos transportes de passageiros. O consumo de combustível na aviação caiu pela metade. A demanda por gasolina e etanol também diminuiu de maneira relevante."

Mas a categoria "mudanças no uso da terra", que engloba desmatamentos na Amazônia e no Cerrado, viu um aumento de 24% nas emissões em relação a 2019, com a liberação de 998 milhões de toneladas de gás carbônico na atmosfera. Isso é reflexo, segundo o Observatório do Clima, do forte crescimento do desmatamento desde o início do governo Bolsonaro.

Em 2020, o desmatamento na Amazônia foi o maior em 11 anos, alcançando 10.851 km², segundo os dados oficiais do sistema Prodes/Inpe. A perda de florestas e mudanças no uso do solo são responsáveis pela maior fatia das emissões brutas brasileiras — 46%, segundo os dados do SEEG.

E a Amazônia é, segundo o relatório do Observatório do Clima, o bioma que historicamente mais tem emitido gases do efeito estufa, "decorrentes principalmente do avanço da pecuária sobre as florestas". Segundo o levantamento, em 2020, as emissões brutas na maior floresta tropical do mundo foram até sete vezes maiores do que no Cerrado, o segundo bioma que mais emitiu gás carbônico por desmatamento e pecuária.

"O principal fator a explicar a elevação (das emissões brasileiras) foi o desmatamento, em especial na Amazônia e no Cerrado. Os gases de efeito estufa lançados na atmosfera pelas mudanças do uso da terra aumentaram 23,6%, o que mais do que compensou a queda expressiva verificada no setor de energia, que na esteira da pandemia e da estagnação econômica viu suas emissões regressarem ao patamar de 2011", diz trecho do relatório sobre emissões.

O levantamento do Observatório do Clima existe desde 2012 e é a principal referência nacional sobre emissões de gases do efeito estufa. Ele segue as diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão das Nações Unidas, e toma como base dados oficiais do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Agropecuária também viu emissões aumentaram

Floresta queimando e gado pastando
Agropecuária e manejo do solo, que inclui desmatamento, são responsáveis por mais de 70% das emissões no Brasil

As emissões da agropecuária sofreram alta de 2,5% — o maior aumento desde 2010. Segundo o Observatório do Clima, isso ocorreu em parte porque a crise econômica reduziu em 8% o consumo de carne no Brasil.

Com isso, houve redução no abate de animais e as cabeças de gado aumentaram em 2,6 milhões, o que, por usa vez, aumentou as emissões de metano pela chamada fermentação entérica — conhecido popularmente como "arroto do boi". Os autores do estudo reconhecem que houve grande avanço no Brasil na implementação de técnicas de agricultura de baixo carbono, mas defendem que é preciso fazer ainda mais.

"Esse crescimento (do uso de técnicas sustentáveis) ainda está aquém dos patamares necessários para que possamos ver a trajetória de emissões do setor ser modificada e demonstrar o real potencial que o Brasil possui em ser uma agropecuária de baixo carbono", disse Renata Potenza, coordenadora de projetos do Imaflora, e uma das autoras da pesquisa.

A agropecuária é responsável por 27% das emissões brutas brasileira. Somadas, a poluição provocada pelo desmatamento e a causada pela agropecuária representam 73% das emissões do Brasil.

"Para o Brasil, o melhor custo eficiência para reduzir emissões é diminuir o desmatamento. É a política mais barata, mais intensa em redução de emissões e não traz prejuízos econômicos. De 2004 a 2012, o Brasil reduziu em mais de 80% o desmatamento sem que isso afetasse o seu crescimento econômico", disse à BBC News Brasil Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Quarto maior emissor histórico?

Durante a COP26, países pobres e em desenvolvimento devem cobrar mais compensações de nações ricas e destacar que elas falharam em cumprir o compromisso de contribuir com US$ 100 bilhões por ano em ações para mitigação das mudanças climáticas.

Por sua vez, EUA, Reino Unido e União Europeia tentam obter de grandes países emergentes, como Brasil, Rússia, China e Índia, compromissos mais ambiciosos de controle do desmatamento e redução de emissões.

A expectativa é que o Brasil seja um dos países mais pressionados, por causa do crescimento do desmatamento e das queimadas da Amazônia nos três primeiros anos de governo Bolsonaro.

Nessa queda de braço entre países ricos e em desenvolvimento, a responsabilidade de cada país pelo aquecimento do planeta será medida, entre outras maneiras, pelo seu volume atual e histórico de emissões. Integrantes do governo brasileiro reiteradamente usam o argumento de que o Brasil não é um grande poluidor, para defender que cobranças de metas ambiciosas para controle climático devem ser dirigidas a países ricos.

Diferentes pesquisas que não levam em conta desmatamento na contabilidade de emissões colocam o Brasil na sétima ou sexta posição no ranking de emissões, como responsável por cerca de 3% do total de CO2 na atmosfera.

"O NDC (documento em que países apresentam metas climáticas) do Brasil é mais ambicioso do que o de vários países do G20. O Brasil responde por menos de 3% das emissões globais e nosso compromisso inclui uma meta não só para 2030, mas também uma meta de curto prazo, para 2015, o que permite melhor monitorar as ações de mitigação", diz texto que a delegação brasileira vai apresentar na COP26, a que BBC News Brasil teve acesso.

Mas um estudo, que leva em consideração pela primeira vez o desmatamento ao contabilizar a liberação histórica de CO2, põe o Brasil em quarto lugar no ranking de emissões desde 1850. A China, gigante emergente que só pretende começar a reduzir suas emissões a partir de 2030, é apontada como o segundo maior emissor de gases do efeito estufa no acumulado histórico, atrás dos Estados Unidos.

O levantamento foi feito pelo think tank internacional Carbon Brief e leva em conta dados de emissões de queima de combustível fóssil, mudanças no uso do solo, produção de cimento e desmatamento de 1850 a 2021. Pesquisas anteriores consideravam no cálculo as emissões decorrentes de queima de combustível, sem incluir a poluição provocada pela destruição de florestas.

"O Brasil tem um papel importante na discussão climática não apenas por causa da Amazônia, mas porque é um dos maiores emissores do mundo. Atualmente, ele está em sexto lugar em emissões e é o quarto maior em emissões históricas, apesar de ainda ser um país em desenvolvimento com desafios para redução de pobreza", afirmou à BBC News Brasil Carlos Rittl, especialista em políticas públicas da Rain Forest Foundation, ONG ambiental da Noruega.

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