COP26 tem filas de 1 hora e bloqueios; ratazanas podem ser próxima crise

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GLASGOW, ESCÓCIA (FOLHAPRESS) - Foi para o governo britânico o primeiro prêmio Fóssil do Dia desta COP26, "por dificultar o acesso da sociedade civil às negociações".

A irônica honraria é concedida durante o evento pela organização Climate Action Network International (CAN), aos países "que fizeram o melhor para bloquear negociações" a cada dia da conferência para combater a crise climática.

O Brasil ganhou o "antiprêmio" na COP23, em 2017, por causa de medida provisória que concedia subsídios de até R$ 1 trilhão ao setor de petróleo e gás, por 20 anos.

Na COP25, foi além: foi escolhido como o país que mais atrapalhou o clima em todo o ano de 2019 e saiu do evento coroado como Fóssil do Ano.

É no sentido concreto, e não abstrato, o "acesso dificultado" que distinguiu o governo britânico com o Fóssil do primeiro dia: com 30 mil inscritos no evento (um aumento súbito de 5% na população local), os postos de segurança não davam vazão suficiente, provocando até atraso em algumas reuniões.

Nesta terça o premiê britânico, Boris Johnson, precisou pedir desculpas à ministra de Energia e Águas de Israel, Karine Elharrar, que não conseguiu passar com sua cadeira de rodas em encontrou um ônibus acessível.

Quando as pessoas conseguiam entrar, o problema mudava de lugar: "Às 12h45 desta terça a COP26 atingiu sua capacidade máxima", avisou a plataforma de comunicação. Quem não havia entrado foi orientado a acompanhar os eventos pela internet.

"Pessoas que investiram tempo e recursos para viajar para Glasgow esperaram pacientemente apenas para descobrir que 'não há espaço' para a sociedade civil e teriam que 'participar de eventos online' --para então descobrir que eles estavam offline", ironizou a CAN sobre situação semelhante ocorrida na véspera.

Também não foi mais fácil para quem chegou antes do bloqueio. Às 10h30 desta terça, ainda havia lugar, mas era preciso paciência: do primeiro posto de checagem à passagem final pelo raio-X, levavam-se 67 minutos.

Na fila --ou ajuntamento-- de entrada, o distanciamento físico era impossível, contrariando o protocolo antipandemia que inclui a necessidade de apresentar um teste negativo novo todos os dias.

Uma vez lá dentro, o problema foi achar um lugar para trabalhar. Às 11h50, já há no centro de mídia duas classes profissionais: os com-tomada e os sem-tomada (há um subgrupo dos com-tomada-mas-sem-adaptador para o esquisito plug britânico; mas não dá para culpar os organizadores pela imprevidência própria).

Meia hora depois, nova segmentação na base da pirâmide: surgem os sem-cadeira, que digitam em seus laptops sentados sobre o carpete cinzento.

"Cheguei cedo para ter acesso a uma mesa e um computador, mas precisei sair e, por espírito de solidariedade, deixei livre meu lugar. Agora não tenho nem onde sentar para descansar", diz Andoni, repórter de uma TV basca.

Questionada sobre as aglomerações, a superlotação do local e o Fóssil do Dia, a organização do evento não havia respondido até as 18h (horário local, 15h no Brasil).

No centro de mídia, parte do desconforto tem origem nas medidas antiCovid, que cortaram pela metade o número de cadeiras para garantir 1,5 m de distância na bancada --embora, em tese, todos tenham testado negativo para o Sars-Cov-2 e se aglomerado na fila de entrada.

Outra fonte de lotação é a reunião de mais de cem líderes globais nos dois primeiros dias --da qual o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não participa.

A presença de chefes de governo como o americano Joe Biden e o britânico Boris Johnson atrai mais gente, afirma a argentina Cecília, que acompanha as conferências desde a COP20, em Lima, em 2014.

Se a tendência é a de abrir algum espaço do lado de dentro do centro de convenções quando os líderes partirem, do lado de fora não devem faltar engarrafamentos.

No meio da tarde, um e-mail da organização avisava: "O ônibus da conferência e o ônibus X19 estão impossibilitados de operar devido a um pequeno protesto na Finnieston Street. Sugerimos que os participantes saiam do local pelo túnel 'smartie tube'".

Na sexta (5), não haverá um pequeno protesto, mas uma grande manifestação de vários grupos, entre eles a rede Fridays for Future, da ativista sueca Greta Thunberg. Nesta terça, ela já participou de um protesto dizendo aos líderes que "enfiassem a crise climática na bunda".

A programação dos ativistas tira o sono do taxista Logan Stewart, que sofre com engarrafamentos desde a semana passada, às vésperas da abertura da COP: "A procissão de carros já começava na saída do aeroporto [a 15 km de Glasgow]."

Outros protestos podem tumultuar os dias de reunião. Embora um acordo salarial tenha evitado a greve dos ferroviários, nesta segunda (1º) os lixeiros recusaram o reajuste proposto e cruzaram os braços.

Segundo o jornalista escocês Andrew McDonald, do site jornalístico Politico, isso deve agravar um problema já persistente de limpeza pública, cuja face mais assustadora é "a crescente população de grandes ratos se reunindo entre as pilhas de lixo na cidade".

Já sob o aspecto metafórico do "acesso facilitado", a organização da COP tentou facilitar a vida dos participantes. Relaxou regras de quarentena, aceitou todas as vacinas para permitir a entrada de delegados estrangeiros e assumiu vários custos.

Até o dia 12 de novembro, quando termina a COP, os inscritos não pagam transporte público nem os testes de coronavírus, e receberam máscaras de proteção e desinfetantes para as mãos.

Como faltou acomodação em Glasgow e parte das pessoas se hospedou em Edimburgo, o trem entre as duas cidades também será gratuito para quem assiste à conferência.

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