COP27: Lula tem encontro com indígenas, ironiza Bolsonaro e defende furo do teto de gastos

Lula
Lula discursa em evento com povos indígenas de várias partes do mundo

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva teve agenda cheia no seu último dia na COP27, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, em Sharm El-Sheikh, no Egito.

Em reuniões com integrantes da sociedade civil e indígenas, ele defendeu que seu futuro governo possa "furar" o teto de gastos, ironizou o presidente Jair Bolsonaro e cobrou "respeito" do agronegócio.

Recebido calorosamente pelos corredores da conferência, com gritos de apoio e aglomeração, o presidente eleito também se reuniu com o ministro do Clima e Meio Ambiente da Noruega, Espen Barth Eide, o secretário-geral da ONU, António Guterrez, e a ministra de Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock.

Mas a maior parte da agenda do dia foi dedicada a conversar com jovens ativistas, pesquisadores e ambientalistas, além de lideranças indígenas de todo o mundo.

Nessas encontros, o presidente eleito fez dois discursos e abordou temas polêmicos como o teto de gastos e a resistência do setor agro ao seu retorno à Presidência.

A BBC News Brasil lista aqui os destaques das falas de Lula no seu último dia na COP27:

Cobrança de respeito ao setor do agro

Em reunião com integrantes da sociedade civil, Lula voltou a dizer que a meta é zerar o desmatamento no Brasil. Para ele, não é preciso derrubar mais florestas para aumentar a produtividade da agricultura brasileira.

Nesse momento, abordou brevemente as resistências de parcela das lideranças do setor do agronegócio ao seu governo.

"Não me preocupo quando dizem que o agronegócio não gosta do Lula. Não quero que goste, quero que respeite", disse.

"O verdadeiro empresário do agro sabe que não pode fazer queimada, não pode desmatar. Sabe que tem que ter compromisso. Hoje no Brasil as pessoas sabem que você não precisa derrubar área para ter plantação de soja. Nós vamos evitar de uma vez por todas que haja exploração em terra indígena."

O presidente eleito afirmou, porém, que a tarefa de combater o desmatamento e proteger terras indígenas não vai ser fácil. Segundo ele, será preciso enfrentar a "fúria" dos bolsonaristas.

"A gente derrotou Bolsonaro, mas os bolsonaristas se mantém aí. Vocês veem que eles atacam aldeias indígenas sem nenhum respeito, veem a fúria dos madeireiros. Então, a gente vai ter que ter muito mais competência, habilidade. Se a gente só ficar brigando, a gente vai perder a razão pela qual fomos eleitos."

Lula cumprimenta representantes de grupos sociais
Durante a manhã desta quinta (17), o presidente eleito se reuniu com representantes da sociedade civil

Teto de gastos

No mesmo discurso, Lula disse que "não adianta responsabilidade fiscal sem responsabilidade social". E afirmou que o teto de gastos, na sua forma atual, tira "dinheiro de cultura, educação, ciência e tecnologia".

"Você tenta desmontar tudo aquilo que faz parte do social e não tira um centavo do sistema financeiro. Se eu falar isso vai cair a bolsa e subir o dólar. Paciência. O dólar não aumenta e a bolsa não cai por conta de pessoas sérias, (cai) por conta dos especuladores que ficam especulando todo o santo dia".

De fato, a bolsa caiu e o dólar subiu nesta quinta (17/11) diante das falas de Lula e das negociações da chamada PEC da Transição, que permitirá ao governo gastar em 2023 até R$ 198 bilhões fora do Teto de Gastos — regra constitucional que limita o aumento das despesas ao crescimento da inflação.

No governo Bolsonaro, este mesmo teto foi furado em quase R$ 800 bilhões nos últimos quatro anos.

Segundo levantamento do economista Bráulio Borges, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), feito a pedido da BBC News Brasil, os gastos do governo Bolsonaro acima do teto somam R$ 794,9 bilhões de 2019 a 2022.

Lula também afirmou, nos seus discursos na COP27, que o orçamento não leva em conta indígenas, pobres e negros.

"Os indígenas não são tratados como humanos. Não são levados em conta quando se faz o orçamento de um país. Ao distribuir as finanças de um país, vai um tanto para guerra, um tanto para a diplomacia e nada para os pobres, nada para os negros, nada para os indígenas."

'Obrigação moral com indígenas'

Na tarde desta quinta, Lula se reuniu com representantes indígenas de todos os continentes.

Em discurso, ele ressaltou que vai criar o Ministério dos Povos Originários e disse querer que indígenas ocupem outras esferas do governo.

"Temos obrigação moral, ética, política, de fazer a reparação pelo que causaram os povos indígenas. Eu tenho compromisso de fazer inclusive com que o Brasil possa servir de exemplo. Com política de parceria, para que pessoas não sejam tratadas como se fossem de segunda classe", disse.

Lula em reunião com representantes dos povos indígenas
Durante a COP27, Lula reafirmou o compromisso de criar o Ministério dos Povos Originários

"Quero que os indígenas participem da governança do nosso país. Por isso estamos criando o Ministério dos Povos Originários, e uma saúde pública especial, quem sabe dirigida pelos povos indígenas."

Segundo o presidente, é preciso que os indígenas parem de ser vistos como "estorvo, como se fossem alguém que está atrapalhando o desenvolvimento econômico".

"Graças a Deus a humanidade está percebendo que cuidar da preservação não é uma coisa menor, é de suma importância, porque não temos dois planetas terra, temos apenas um."

Lula ainda criticou gastos bilionários com viagens espaciais, guerras e armas. Segundo ele, esse dinheiro deveria ser destinado a acabar com a fome e mitigar as mudanças climáticas.

"Às vezes, fico muito preocupado quando vejo meia dúzia de pessoas ricas tentando inventar foguete, procurando lugar fora da Terra, quando parte do dinheiro que ele gasta poderia investir para fazer mais preservação", disse. "Quantos trilhões de dólares são gastos com a guerra, armas, quanta gente morre desnecessariamente."

Lula também falou que, para ele, o encontro com lideranças indígenas é a reunião mais importante que já fez em sua trajetória política.

"Já fiz reunião com príncipe, chefes de Estado, mas não fiz nenhuma tão significativa do que essa reunião que estou fazendo hoje. Sou um grão de areia perto da importância de vocês. Quero fazer parte dessa luta de vocês e quero aproveitar meu mandato para contribuir mais com os companheiros indígenas brasileiros", disse.

Ironia sobre Jair Bolsonaro

Lula também fez críticas ao governo atual e ironizou o isolamento do presidente Jair Bolsonaro desde que foi derrotado na eleição.

"Durante quatro anos, o presidente, que está dentro de casa desde que foi derrotado, não fez nenhuma reunião com a sociedade civil. Mas ofendeu mulheres, periferia, negros, quilombolas, portadores de deficiência."

Lula disse ainda que o Brasil "foi quase destruído em quatro anos". "Tudo aquilo que construímos em política social foi descontruído. Sem vingança, mas com muita paz, amor e tolerância, queremos fazer a política que possa ser feita para que o povo possa viver dignamente."

Bolsonaro tem se mantido recluso no Palácio do Alvorada, sem sequer ir ao Palácio do Planalto para despachar ou se reunir com integrantes do governo. Também não tem feito as tradicionais lives - as longas transmissões ao vivo pelas redes sociais que viraram uma marca de seu governo.

As demandas da sociedade civil

Na reunião realizada pela manhã desta quinta-feira (17), Lula se encontrou com diversos representantes de associações, coletivos e grupos que lutam contra as mudanças climáticas.

Seis deles foram selecionados para discursar e apresentar algumas demandas para o presidente eleito.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, disse que as entidades esperavam "há quatro anos uma autoridade brasileira fazer um discurso do tamanho do Brasil".

Ele disse ter confiança que as mudanças nas políticas ambientais vão acontecer, mas destacou que a sociedade civil continuará cobrando e fiscalizando.

"Governo bom é igual feijão: precisa ficar sob pressão, senão, não acerta o ponto", comparou.

Thuane Thux, do PerifaConnection, afirmou que "o tempo da juventude brasileira não é o tempo do Norte global".

"Nós estamos sobrevivendo até agora e queremos dar um passo a mais, em busca do bem-viver", disse.

Ela também pediu que o presidente eleito crie o Conselho Nacional de Juventude Climática.

O professor de história Douglas Belchior, da Coalizão Negra por Direitos, lembrou que "não existe justiça climática sem o enfrentamento do racismo".

"E o Brasil é um país que historicamente negligencia essa questão."

Puyr Tembé, que representou a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) afirmou que "há muitas demandas", a começar "pela demarcação dos territórios indígenas e quilombolas"

"Estamos também preparados para ocupar outras instâncias. Que venha o Ministério dos Povos Originários, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Saúde e a Fundação Nacional do Índio (Funai)", listou.

O biólogo Adalberto Val, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Ipan), pediu que Lula apoie a pesquisa científica no país.

"Precisamos criar condições para trazer nossos meninos de volta", pediu.

Ele usou o termo "meninos" em alusão aos cientistas que são formados no país, mas se mudam para o exterior em busca de melhores condições de vida.

Por fim, Bárbara Gomes, do Engajamundo, disse que a sociedade civil "precisa de mais apoio, espaços e lugar de fala";

"A juventude não se calará, nosso papel é ser linha de frente", discursou.

Ela também pediu que o próximo governo crie o Conselho Nacional da Juventude Climática.

- Este texto foi publicado originalmente https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63670565