Copa Além da Copa: Um Irã em tensão social que tenta se redimir através da seleção

Copa Além da Copa traz ao GLOBO textos que relacionam política, cultura, história, arte e sociedade com o futebol.

No dia 16 de setembro, Mahsa Amini, de 22 anos, morreu após ser abordada pela polícia moral do Irã por não estar usando seu véu de maneira adequada. Os policiais afirmaram que ela passou mal na delegacia e teve uma morte natural, mas testemunhas viram a jovem curda ser brutalmente espancada.

A morte de Amini levou a protestos generalizados no Irã, descritos pelo New York Times como os maiores desde pelo menos 2009. A polícia local reagiu com violência, matando mais de 300 pessoas, segundo a Anistia Internacional.

Na década de 1970, uma época em que o futebol feminino ainda era proibido em países como Brasil e Inglaterra, o Irã era pioneiro na modalidade. As mulheres iranianas chegaram até a fazer um intercâmbio para aprenderem mais sobre tática e técnica na Europa.

Mas com a Revolução Islâmica, que transformou o país em uma teocracia em 1979, as mulheres foram proibidas não apenas de jogar futebol como até de frequentar os estádios. A elas, torcer é proibido.

Sahar Khodayari, de 29 anos, disfarçava-se de homem e pintava todo o rosto de azul para frequentar os jogos de seu time de coração, o Esteghlal. Era conhecida como “Bluegirl”. Presa pela polícia, cometeu suicídio ateando fogo ao próprio corpo.

A situação é tão drástica que houve pressão recente da Fifa para liberar as mulheres nos estádios iranianos e, antes da pandemia, até aconteceu uma experiência, com 3.500 torcedoras em uma área separada do estádio em uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo, contra o Camboja, em Teerã. Mas foi só.

Recentemente, uma organização de direitos humanos comandada por iranianas pediu que o Irã fosse excluído da Copa do Mundo sob a alegação de que proibir mulheres de frequentarem estádios viola a regra da Fifa que veta interferências governamentais no esporte.

Jogadores se posicionam

Logo no início dos mais recentes protestos nas ruas iranianas, jogadores de futebol demonstraram apoio às manifestações: Zoebir Niknafs, do Esteghlal, postou nas redes sociais um vídeo raspando o cabelo, ato que se tornou popular entre os manifestantes para mostrar que cabelo é apenas cabelo, e não há problema em estar à mostra.

Ali Karimi, o “Maradona da Ásia”, e Ali Daei, o primeiro iraniano a disputar uma partida de Champions League, falaram a favor dos manifestantes nas redes sociais. O governo iraniano proibiu menções aos dois na mídia oficial do país. Eles também recusaram convite da Fifa para serem representantes do Irã no Catar durante a Copa do Mundo.

Os protestos não demoraram a chegar à seleção de futebol. Sardar Azmoun, talvez o principal jogador iraniano da atualidade, é o mais vocal. Logo que veio à tona a morte da Mahsa Amini, postou em suas redes sociais: “Se essas pessoas são muçulmanas, Deus, me faça um infiel”, em referência aos policiais. Deletou a mensagem poucos minutos depois.

O técnico do Irã é o português Carlos Queiroz, que recentemente teve passagens desastradas por Colômbia e Egito. No país persa, porém, é uma espécie de ídolo: ele é o técnico que mais tempo ficou à frente da seleção na história, permanecendo no cargo entre 2011 e 2019.

Com o português, o Irã conseguiu algo inédito em sua história ao se classificar para duas Copas seguidas, em 2014 e 2018. O treinador é acostumado ao ambiente rotineiramente conturbado da seleção iraniana, no qual política e futebol se misturam bastante.

Em 2014, por exemplo, teve de enfrentar uma crise quando a Fifa não pagou o prêmio à seleção pela classificação, devido a sanções internacionais contra o Irã que impediam a transferência. Quatro anos depois, o próprio Queiroz peitou a Nike quando a fornecedora desistiu em cima da hora de fornecer chuteiras para o seu time, também por receio de ferir restrições comerciais do seu país de origem, os EUA.

“É meu dever dizer: deixem nossos garotos jogarem futebol. Eles são só jogadores”, desabafou após a vitória contra Marrocos no Mundial passado. “Eles não são contra ninguém nem contra nada, só querem se expressar e jogar bola.”

Com toda essa bagagem, o português foi chamado de volta para a Copa de 2022, encontrando uma delicada situação iraniana perante a comunidade internacional. A convocação para a Copa, no último dia 13, atrasou e teve uma coletiva de imprensa cancelada, sendo anunciada horas depois, via internet.

Telhado de vidro

Os rumores se espalharam. Dizia-se que Carlos Queiroz entrou em conflito com a federação iraniana, que havia proibido os jogadores de se manifestarem sobre os protestos pela morte de Mahsa Amini. Um jogador específico seria o alvo: Sardar Azmoun, que estaria banido da seleção. Quando a convocação de fato saiu, o nome dele constava.

Queiroz nega ter sofrido pressões para não chamar o jogador. Em outros esportes, como no vôlei sentado e no polo aquático, atletas iranianos têm se manifestado ao não cantar o hino. Mas nenhum deles chega perto da popularidade do futebol, e há ativistas que estão esperançosos em ver isso se repetir no Mundial. Como se não bastasse, o Irã enfrentará no torneio seus dois maiores antagonistas políticos no Ocidente: a Inglaterra e os EUA.

Os jogadores e o treinador têm desviado o assunto quando perguntados se devem cantar o hino. Talvez por ser um ocidental, Queiroz virou um dos alvos preferidos da imprensa inglesa, e bateu boca ao ser questionado por um repórter da Sky News sobre como era “representar um país que reprime as mulheres”. Em resposta, disse que o jornalista deveria “pensar no que acontece com os imigrantes na Inglaterra”.

Não há dúvida de que a teocracia iraniana tem pouco apreço por direitos humanos. Antes de sua ascensão, contudo, os britânicos interferiram bastante na vida política do país: em 1953, por exemplo, o progressista Mohammad Mossadegh, eleito democraticamente primeiro-ministro do Irã, foi derrubado num golpe de Estado patrocinado pelo MI6, a inteligência britânica. O resultado foi o endurecimento do governo do xá (monarca do Irã) Reza Pahlavi, justamente o alvo da Revolução de 1979.

Ademais, a mesma pergunta do repórter da Sky poderia ter sido feita ao treinador da Arábia Saudita, um país alinhado ao Ocidente.