Copa América 2001. Há 20 anos.

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A decisão da Copa América 2001 FOTO FABIAN GREDILLAS/AFP via Getty Images

Há 20 anos, direto do funil do tempo.

Copa América na Colômbia convulsionada politicamente. O que escrevi em 3 de julho de 2001:

"Os cartolões da Conmebol não esperaram a casa cair. Ela precisou sumir na Colômbia. O governo deles não dá garantia. Quem garante é a guerrilha.

O país gastou milhões em segurança, estádios, cidades? Ótimo. As melhorias continuam, com ou sem o torneio. Eles não perdem dinheiro. Só deixam de ganhar.

'Se a Copa não fosse na Colômbia, nenhum time seria bem tratado em nosso país'. ameaçou o cartolão sequestrado. É o terrorismo de Estado".

Em 6 de julho de 2001, meu texto no jornal AGORA S.PAULO

"Deus levou seis dias para fazer o mundo. A Conmebol levou outros seis para acabar com a América do Sul. Num dia decidiu o que deveria ter decidido meses antes, tirando da convulsionada Colômbia o direito adquirido (e, depois, sequestrado) de sediar a Copa América.

No dia seguinte, em vez de fazer a competição no Brasil (como pedia a lógica, e mandava quem manda), a entidade, por meio das pessoas que desmandam nela, teve a genial ideia de adiar a competição para o ano de Copa do Mundo (2002). Brilhante. Só não se sabia se depois do banquete asiático, em agosto (o que dispensa comentário), ou em janeiro, mês de férias dos boleiros dos clubes sul-americanos, mês que nenhum clube europeu iria liberar qualquer jogador para o torneio.

Mais não seria preciso escrever. Mais é dever falar. Os mesmos cartolas que garantiram que não havia garantia na Colômbia há uma semana, agora garantem que o país é outro. Que as guerrilhas se dão com as milícias, que o presidente de plantão tem a situação sob controle, e que o cartolão que ameaçara todos os visitantes não quis dizer exatamente que “nenhum país seria bem tratado se a Copa América não fosse na Colômbia”. Imagine...

Nada como uma semana depois da outra, e algumas reuniões no meio. O que era um inferno até que não tem tantas trevas assim. O que era inadmissível pode muito bem ser admitido. O que foi perdido em uma semana pode ser recuperado sem problema. O que foi dito há sete dias já foi esquecido. Qual o problema?

Eu quero mesmo que toda a cúpula da Conmebol curta esses dias de Copa na Colômbia".

Em 11 de julho de 2001, no embarque para a Colômbia, Mauro Silva desistiu. No aeroporto. Minha coluna a respeito:

"Você pode lamentar que o aviso de Mauro Silva tenha sido feito além da hora. Que a atitude do volante tenha deixado os já apreensivos membros da delegação brasileira em situação ainda mais delicada em Cali. Que Felipão e o elenco vão perder confiança e referência. Que, apesar de ter tido a decência de dizer pessoalmente ao treinador que não disputaria a Copa América, Mauro poderia ter dito antes.

Você também pode ir além. Pode dizer que o ato corajoso de renunciar à camisa da Seleção foi uma covardia. Que Mauro Silva só tomou essa atitude por estar de bem com a vida e com o bolso, e que, por estar há 9 anos na Espanha, não tem mais “aquele” amor pela camisa amarela. Que Mauro Silva, passando do 40 minutos do segundo tempo de sua vida profissional, não precisa correr mais riscos. E pode fazer o que bem entende.

São todos argumentos razoáveis. Alguns até muito defensáveis. Racionais. Mas quem pode falar em razão numa praça de guerra? Quem pode exigir respeito a qualquer coisa quando um país fica “seguro” em cinco dias? Quem pode garantir paz num país sem garantias?

Convocado para a seleção não é convocado para o exército. Futebol não é guerra.

A camisa amarela não é farda. Uniforme não é fardo.

Mauro Silva pode ser “covarde” para os que resolvem a vida no braço. Mas quem ganha o pão com o pé e com a cabeça como ele precisa ser corajoso para enfrentar também com o coração os que não souberam enfrentar os fatos.

Você pode discutir o tempo da decisão de Mauro Silva.

Mas deve respeitá-la.

Ao contrário dos que não respeitaram o sono e a tranquilidade dos familiares dos convocados para a Copa América.

Como bem disse o xará, exemplo de caráter e retidão: "A seleção não é o exército brasileiro. Nós não vamos para a Colômbia para defender o país. Vamos para jogar futebol.”

O alemão Schuster e o argentino Redondo, dois belíssimos meio-campistas, são exemplo de atletas que, por vários motivos, abriram pé de defender a seleção nacional.

Ninguém é obrigado a atender a uma convocação. Vestir uma camisa não é um dever. Deveria até ser um prazer. Mas só cabe a quem veste decidir se a veste.

Para finalizar, em 15 de julho de 2001, comentava o medo que a Seleção apresentava em campo. E outros medos brasileiros. Há 20 anos.

E contando.

"Medo.

De ir para a Copa América. De ficar em Cali. De disputar mais jogos na Colômbia. De passear pela cidade. De ficar no quarto do hotel. De enfrentar a entrevista coletiva. De aturar as cobranças da imprensa. De sofrer com o deboche da galera. De ouvir de casa o que se tem falado da seleção na América.

Medo. De vestir a camisa da seleção tetracampeã. Do peso dessa camisa. Da tradição que ela reveste. Da cobrança que ela enseja. De entrar em campo por ela. De jogar pelo Brasil. De driblar, de ousar, de arriscar pela seleção.

Medo.

De levar o primeiro gol. De tropeçar na bola. De empacar na marcação cerrada. De dar espaço no contragolpe. De afunilar o jogo. De errar os passes. De não encontrar o companheiro e não se encontrar como time. De perder gols. De nem mesmo criar lances de gol. De bater o recorde sem gols da história da seleção.

Medo.

De Felipão. Da seleção. Da CBF. Da televisão. Do patrocinador. Do emprego. Do dinheiro. Do futuro. Da execração. Da mesa-redonda domingueira. Do “Casseta & Planeta”. Do Agamenon. Do Galvão. Do Luciano. Do Juca. Do Milton. Do Trajano. Do Tostão. Do Armando. Do Calazans. Do Flávio. Do Kajuru. Do Avallone. Do Zé Simão. Do Jô. Do Pelé. Do Dodô. Do Didi. Dos Trapalhões.

Medo.

Do apagão. Do tarifaço. Da recessão. Do Jader. Do ACM. Do Arruda. Do Lalau. Do Lula. Do FHC. Do PT. Do PFL. Dos FDPs.

Do Cavallo da Argentina. Dos bagres do Brasil.

Medo.

De tudo. De todos. De nós mesmos.

Se a gente não sabe mais jogar como antigamente, se eles sabem jogar mais do que antes, é hora da gente se reinventar.

Tempo de dar dois passos para trás. E um passe certo à frente".

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