Copa do Brasil: futebol e gestão 'pés no chão' levam América-MG a ano de façanhas

Renan Damaceno
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Ao pisar o gramado do Independência, em Belo Horizonte, nesta quarta, às 21h30, o América-MG estará diante de mais um desafio de Davi contra Golias que se habituou a travar nesta edição da Copa do Brasil. Depois de superar Corinthians e Internacional, o time volta a enfrentar o Palmeiras, clube que teve receita 20 vezes maior em 2019, por vaga na inédita decisão. O primeiro duelo foi 1 a 1 e qualquer igualdade leva aos pênaltis. No mesmo horário, São Paulo e Grêmio jogam no Morumbi.

Vice-líder da Série B, com acesso praticamente assegurado, o Coelho, como é conhecido, deixa um recado claro com o sucesso em 2020: de que as finanças precisam andar em compasso com o desempenho dentro de campo. Centenário e tradicional, é um dos raros exemplos de clubes de capital que conseguem se manter competitivos à sombra dos vizinhos ricos — em contraposição a Portuguesa, em São Paulo, ou América, no Rio, por exemplo, que deixaram de frequentar a elite. O clube tem estádio próprio e CT com boa estrutura.

Agora, quer mais: além da final da Copa do Brasil, traça planos para evitar o efeito ioiô, depois de subir e descer da Série A três vezes na última década.

— O América sempre foi um clube organizado, mas com poucos recursos. A gente faz as coisas da maneira correta, mas o esporte vende que tem que ser campeão a qualquer custo... O orçamento natural na Série B é, no máximo, R$ 40 milhões. Na Série A, de R$ 70 a R$ 90 milhões. Para se manter tem que ser acima de R$ 150 milhões — afirma Marcus Salum, presidente do Conselho de Administração do clube, que é formado por quatro integrantes.

Para chegar ao novo patamar, a grande aposta do América é a mudança para clube-empresa, em andamento desde julho, quando o projeto foi apresentado ao Conselho Deliberativo. O modelo desejado prevê parceria com um investidor para gerir o futebol e foi dividido em etapas. A EY foi contratada para, entre outros trabalhos, pesquisar e listar possíveis parceiros. Neste momento, o clube está prospectando investidores e, embora não revele nomes, entre seis e 10 manifestaram interesse, mas ainda não avançaram à mesa de negociação. O objetivo era que isso ocorresse ainda em 2020, planejamento afetado pela pandemia.

A mudança para clube-empresa tem sido sonho de diversos clubes — o RB Bragantino é um exemplo recente de sucesso —, mas o alto endividamento tem sido entrave, como no caso do Botafogo. Pesa a favor do América, na avaliação de Salum, o fato do clube ser enxuto e a maior parte da dívida de médio e longo prazo, que já está parcelada ou em negociação. O débito líquido em 2019 era de R$ 82 milhões. Em comparação com os outros semifinalistas da Copa do Brasil, o segundo que tem a menor dívida é o Grêmio: R$ 410 milhões, cinco vezes maior que os mineiros, portanto.

TIME FORMADOR

A expectativa é que o Coelho feche 2020 com superávit. O faturamento na temporada foi turbinado pela premiação na Copa do Brasil que já soma R$ 17,59 milhões, o que representa quase a metade da receita prevista para o ano.

Além das conquistas, o Coelho é reconhecido como um clube celeiro de talentos: saíram ou estiveram na base atletas de várias épocas da seleção brasileira, de Tostão e Éder Aleixo a destaques recentes como o lateral direito Danilo e o atacante Richarlison, passando por Gilberto Silva e Fred.

O sucesso de 2020 vem sendo construído desde o ano passado, quando a equipe de Felipe Conceição só não subiu porque perdeu o último jogo em casa para o já rebaixado São Bento. A base da equipe e a filosofia de trabalho foram mantidas, mas a direção do clube já imagina que será difícil segurar alguns nomes, a começar pelos bastidores. Executivo de futebol, Paulo Bracks foi anunciado ontem pelo Internacional. A situação do técnico Lisca é tratada com transparência entre as partes: se surgir algum interesse que o treinador avalie como bom, deixará o time ao fim da Série B, mas não há martelo batido.

Lisca, que tem apenas oito derrotas em 52 partidas, desenvolveu um time competitivo, organizado ao se defender e eficiente para criar chances para seus principais jogadores na frente, Ademir, Felipe Azevedo e Rodolfo.

— É um time com repertório, que sabe reagir ao que o adversário impõe: se precisa ser mais agressivo e tomar a iniciativa, faz. Se tem que jogar mais recuado e resistir à pressão, consegue se adaptar— avalia Henrique Fernandes, comentarista do Grupo Globo.

Ligado ao América desde a década de 1980, Salum era presidente em 1997, quando o time de Pintado, Boiadeiro e Tupãzinho conquistou a Série B — considerado o principal feito recente do clube. Mas não há dúvidas de que, pela campanha até aqui, dá para vislumbrar que o Coelho está perto de seu maior salto na História.