Copa do Catar: A dificuldade para beber cerveja no país onde não existe o hábito de se brindar

Estava tudo pensado. No vídeo que gravaria sobre a dificuldade para se comprar uma cerveja no Catar, terminaria erguendo o copo de plástico e em seguida beberia um gole da Budweiser nem tão gelada assim. Entre um gesto e outro, o auge do canastrão: armaria um sorriso de canto de boca e falaria "saúde, ou como se diz em árabe...". E como se faz um brinde em árabe? Consultei colega brasileira que mora em Doha, que me surpreendeu. Ela afirmou que não existe algo igual ao “saúde” nosso. Como não bebem álcool, cataris normalmente não brindam. Por que teriam uma expressão forte para isso?

Não é fácil brindar no país da Copa. Estava no centro de mídia quando fui pautado: você deve beber uma cerveja e contar como foi. Nessas horas, você pensa que não pode reclamar da profissão. Nem tanto quando se está em Doha.

Bares e restaurantes não vendem a bebida. O melhor caminho para se beber é procurar hotel onde bebida alcoólica é permitida.

Como já tinha sido solicitado para ir ver como estava o The Westin, onde o Brasil ficará hospedado durante a Copa do Mundo, resolvi matar dois coelhos com uma cajadada só.

Deu certo, mas poderia não dar. Se eu não quisesse correr o risco, poderia consultar um mapa que torcedores têm compartilhado nas redes sociais, com a localização dos hotéis que vendem álcool. Deu certo, depois de viagem de metrô que durou cerca de meia hora, com direito a baldeação. Tudo por um gole.

Ao chegar ao hotel da seleção, passei pelo detector de metais. Mas fui questionado se tinha uma reserva para ir ao bar. Disse que não. Tinha que fazer uma para conseguir entrar.

Havia uma mulher sentada do lado de fora do hotel, em uma mesa. Era ela quem fazia a reserva, ali mesmo, ao léu. Pegou meu nome e o escreveu num papel junto ao horário em que eu havia chegado e ao restaurante para onde eu iria. Entregou a folhinha para mim. E eu o mostrei para o mesmo segurança que me impediu de entrar na primeira vez.

Era apenas o primeiro entrave da pequena burocracia exigida para se ter acesso ao bar do restaurante e, consequentemente, à cerveja vendida em Doha. Depois disso, mais uma barreira. Entreguei meu passaporte, que foi escaneado. Logo em seguida, mais uma, onde recebi uma pulseira. Depois, a cerveja.

O simpático atendente mostrou pouca intimidade com a torneira. Levou um tempo, mas acertou no ponto do colarinho.

Isso tudo custou 60 riais, pouco mais de R$ 70 a conversão, fora o tempo gasto com o deslocamento. Ao menos o metrô sai de graça para quem está no Catar em função da Copa do Mundo, torcedor ou imprensa. Foram R$ 70 gastos em uma Budweiser nem tão gelada assim em um copo de plástico de 350ml.

Era isso ou ser convidado para beber na casa de alguém que tem permissão para comprar no único ponto de distribuição de bebidas alcoólicas de todo o país, controlado pelo governo do Catar. Ou então esperar mais de um mês até a volta ao Brasil. Bebi.