Cerveja limitada e roupas adequadas: o que esperar da Copa no Catar

Mesquita Katara, um dos templos de oração da religião islâmica em Doha (Tiago Leme)

Por Tiago Leme (@tiago_leme), de Doha, no Catar

Em 2022, pela primeira vez na história a Copa do Mundo será disputada em um país muçulmano, com costumes bastante diferentes do que os brasileiros estão habituados em casa. No Catar, um país de população árabe em que a religião islâmica pauta o dia a dia das pessoas, os estrangeiros que forem viajar para torcer pelas suas seleções de futebol terão de se adaptar e respeitar algumas regras locais no Oriente Médio. Restrição de bebidas alcoólicas, roupas adequadas, proibição de demonstração de afeto entre casais em público, homossexualidade considerada como crime, as cinco rezas diárias do Islã e até a crise diplomática com nações vizinhas são pontos importantes a serem considerados.

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Por isso, depois de presenciar esses costumes muçulmanos durante alguns dias no Catar, o time do Yahoo Esportes conversou com cataris e brasileiros que moram por lá e preparou uma lista com alguns tópicos importantes para ajudar quem pretende ir ao Mundial de futebol daqui a menos de três anos.

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Vivendo em Doha há sete anos, a brasileira Leila Martinez, que trabalha como guia turística, reconhece que a diferença de culturas pode causar algumas situações delicadas, mas por outro lado explica que os cataris estão aos poucos ficando mais flexíveis para receber os estrangeiros. O Mundial de Clubes de 2019, quando o Liverpool venceu Flamengo na final, já foi um teste para isso e mostrou uma boa integração entre os locais e turistas, sem registros de qualquer problema grave.

“Acho que a maior dificuldade vai ser com relação aos costumes. Eles sabem, estão super conscientes que eles vão ter que abrir mão durante um período dessas restrições com relação ao beber fora de áreas autorizadas, o contato, a manifestação de afeto em público. Isso tudo eles têm consciência e eles estão se preparando. Agora no Mundial de Clubes em dezembro, eles já foram menos rigorosos em algumas coisas, em relação ao álcool e roupas, por exemplo, e foi uma surpresa para mim”, afirmou Leila.

Já a jornalista argelina Amina Bouamari, que mora em Doha há sete anos, aponta que a Copa do Mundo será boa não só para o Catar, mas também para outros países árabes. Ela diz que o evento esportivo pode ser um agente de transformação positiva em determinados pontos.

“A Copa do Mundo aqui é excelente para todo o mundo árabe, não apenas para o Catar. É um país que evoluiu bastante e rapidamente nos últimos anos, tem uma estrutura muito boa. Claro que o Catar não tem a mesma cultura futebolística que o Brasil e a Argentina, mas a gente já vê uma melhora nos últimos anos, com os Cataris e os estrangeiros que vivem aqui se interessando mais pelo futebol. A Copa pode mudar um pouco a cultura da população. Então eu acho que a Copa do Mundo é uma coisa muito positiva para todo o mundo árabe”, disse Amina.

Bebidas alcóolicas

Por causa da religião islâmica, existe a restrição de bebida alcoólica no Catar. Pela tradição local, é uma ofensa beber em locais públicos ou ficar bêbado publicamente. Atualmente, só é permitida a venda e consumo de álcool nos bares e boates licenciados, que ficam dentro de grandes hotéis internacionais, geralmente quatro ou cinco estrelas, com horário limite até as 2h da manhã e preços altos, na média de R$ 50 por um copo de 500ml. Na Copa do Mundo, porém, assim como já aconteceu no Mundial de Clubes de 2019, a Fifa vai criar Fan Fests onde a cerveja será liberada, vendida por um valor um pouco mais baixo, e os torcedores poderão fazer a festa enquanto assistem aos jogos em telões. 

Como um dos patrocinadores da Fifa é uma marca de cerveja, está sendo debatida a possibilidade de venda também dentro dos estádios nos jogos, mas ainda não há uma definição sobre isso. Já os residentes no Catar podem conseguir uma licença especial para comprar bebida alcoólica em um depósito e consumir em casa, com quantidade mensal que varia de acordo com o salário recebido.

Roupas

Mesmo com altas temperaturas, não é aconselhável usar roupas curtas. Por ser um país conservador, principalmente em relação às mulheres, a recomendação é evitar blusas com decote ou sem mangas, calças muito justas e bermudas ou saias que não cubram os joelhos. Por outro lado, o Catar é um pouco mais aberto do que outros países muçulmanos, como a Arábia Saudita por exemplo, e é normal ver homens estrangeiros com bermudas no verão, sem a obrigatoriedade de usar calça. Também não é necessário usar túnicas ou véus para cobrir o cabelo, como os locais fazem. Para entrar nas mesquitas, no entanto, as normas quanto às vestimentas são mais rígidas e é preciso respeitar a religião islâmica.

Estádios de futebol também contam com mesquitas para os torcedores muçulmanos fazerem oração (Tiago Leme)

Demonstração de afeto em público

Não é permitido a demonstração de afeto exagerado em público entre casais. Andar de mãos dadas não é um problema, mas beijos e mesmo abraços mais calorosos não são aceitos. Ou seja, nada de “pegação” na rua. De qualquer forma, nada impede que casais namorem ou se agarrem em locais mais reservados.

Homossexualidade é crime

Homossexualidade é considerada crime no Catar, mas isso não significa que não existam homossexuais no país. Existem gays vivendo por lá, mas de maneira mais discreta, sem expor a sexualidade. Desta forma, apesar da proibição do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, turistas estrangeiros homossexuais também visitam normalmente o Catar, mas não demonstram as suas preferências em público.

Questionado sobre o assunto em entrevista coletiva o secretário-geral do Comitê Organizador da Copa de 2022, Hassan Al Thawadi, afirmou que todos os visitantes serão bem recebidos no país, mas avisou que eles também precisam se adaptar a alguns costumes locais.

"Nós trabalhamos muito duro para educar as pessoas sobre a nossa cultura, que é conservadora progressiva. Há uma lista de regras que não são exclusivas do Catar e são adotadas por uma porção do globo. Nós pedimos aos visitantes que apreciem e respeitem a nossa cultura. Ao mesmo tempo, que aproveitem a hospitalidade que oferecemos. Nem todos partilham dos mesmos valores, temos diferentes estilos de vida e há riqueza nisso. A paixão pelo futebol pode mostrar que podemos nos respeitar, é isso o que pedimos", explicou.

Cinco rezas diárias

Quem visita um país de religião islâmica se acostuma a ouvir com frequência o som das mesquitas, o chamado para as cinco orações diárias que os muçulmanos devem realizar, chamadas de Salá. Elas acontecem ao amanhecer (Fajr), ao meio-dia (Dhur), entre o meio-dia e o pôr do sol (Asr), logo após o pôr do sol (Maghrib) e aproximadamente uma hora após o pôr do sol (Isha). Se não for possível ir a uma mesquita, os muçulmanos podem realizar estas orações em qualquer local, mas é sempre obrigatório virar-se no sentido da cidade de Meca. Os estrangeiros que tiverem outras religiões não precisam se preocupar em seguir esse mandamentos do Islã. Muitas mesquitas podem ser visitadas por turistas sem qualquer problema, para entrar nesses templos de oração é necessário apenas respeitar o silêncio, tirar os sapatos e não vestir roupas curtas.

Temperatura

Por causa das altas temperaturas no verão do Oriente Médio, que podem chegar até a 50 graus Celsius, a Copa do Mundo teve as suas datas alteradas, saindo de junho e julho, como acontece normalmente, e indo para novembro e dezembro. Nesses meses do fim do ano, inverno no Catar, as temperaturas variam em média 15 e 30 graus Celsius. No Mundial de Clubes de 2019, em dezembro, o clima estava agradável durante o dia, sem calor excessivo, e à noite muitas vezes foi necessário vestir uma blusa de frio. Além disso, todos os oito estádio da Copa do Mundo contarão com um moderno sistema climatização, e a promessa é que a temperatura fique em torno de 23ºC durante as partidas.

Crise diplomática

Acusado de financiar e apoiar grupos terroristas da região, o Catar está desde 2017 brigado politicamente com a maioria dos países próximo ali no Oriente Médio, incluindo a vizinha Arábia Saudita, os Emirados Árabes e o Egito. A crise diplomática gera certa certa tensão entre esses países, e a fronteira com a Arábia Saudita está fechada. No entanto, para os turistas que forem à Copa isso tem pouco efeito prático. Por precaução, a recomendação é evitar manifestar uma posição política neste sentido, e tudo deve correr sem problemas.

“Creio que viver em um bloqueio ilegal não é desejado. Mas nos últimos dois anos crescemos apesar do bloqueio. Sediamos o Mundial de Clubes, que recebeu torcedores de diferentes países. Antes tivemos a Copa do Golfo e recebemos fãs de todas as nações participantes, o que é uma mostra do poder do futebol de unir as pessoas”, disse Hassan Al Thawadi, secretário-geral do Comitê Organizador da Copa de 2022.

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