A Copa dos três zagueiros: sistema é adotado por 12 das 32 Seleções no Catar

A Copa do Mundo de 1990 foi um marco. Após o título da Argentina no Mundial de 1986, sob o comando de Carlos Bilardo, e uma linha defensiva formada por Ruggieri, Jose Luis Brown e Cuciuffo; as equipes chegaram na Itália dispostas a jogar com o mesmo sistema.

Das 24 seleções, 13 (54%) utilizaram a linha de três como base. Dentre elas, os quatro finalistas daquela edição: Alemanha (que se sagrou campeã), Argentina (vice), Itália e Inglaterra.

Quatro anos depois, em 1994, apenas quatro equipes utilizaram esse esquema — e assim, como todos os ciclos, os três zagueiros caíram em desuso também no futebol de clubes. Passaram-se duas décadas e, em 2014, a Copa no Brasil viu cinco equipes com esse sistema: a Holanda (historicamente ligada aos três defensores), que chegou na semifinal, além do histórico Chile de Sampaoli, o México, a Costa Rica e o Uruguai.

Aceleramos no tempo e chegamos em 2022, no Catar. Assim como nos clubes, as seleções voltam a utilizar esta tática. São 12 das 32 equipes neste modelo, cada uma com a sua particularidade. Mas o que representa na prática o sistema com três zagueiros?

Diferentes formas

Holanda e Dinamarca são as seleções mais “diferentes” na utilização dos três zagueiros. A linha holandesa formada por De Ligt/Timbers, Van Dijk e Nathan Aké tem ótima capacidade para sair construindo os ataques desde o tiro de meta.

Até por isso, De Ligt, o zagueiro do Bayern de Munique, se junta aos meio-campistas (Frenkie de Jong e Koopmeiners/Berghius) com duas funções bem claras: empurrar o adversário para trás, criando mais uma opção de passe, e servir de cobertura mais adiantada ao ala direito Dumfries, bastante acionado no setor. Sendo assim, o time consegue recuperar a bola já no campo de ataque. Após vencer o Senegal na estreia por 2 a 0, a seleção holandesa enfrenta hoje, o Equador, às 13h, pela segunda rodada do Grupo A.

A Dinamarca tem estrutura diferente. Christensen, zagueiro do Barcelona, se posiciona muitas vezes atrás dos atacantes adversários durante o tiro de meta e se torna mais um passe perigoso, mas quando o time avança, ele volta e permanece na linha de três.

Existem equipes que buscam mais se defender, como o País de Gales. A equipe de Rob Pag usa Chris Mepham, Joe Rodon e Ben Davis sempre acompanhados dos alas Neco Williams e Connor Roberts. Isso para proteger ainda mais a sua área e o goleiro Hennessey, mas sobretudo para liberar o craque do país, Gareth Bale, de qualquer atribuição defensiva e estar livre para atacar.

O anfitrião Catar aposta no sistema com três zagueiros para tentar ajudar na saída de bola — devido à influência do futebol espanhol, com o técnico Félix Sánchez —, mas principalmente para defender sua própria área.

O maior exemplo, entretanto, é o Irã. Em 2018, o time ficou marcado pela linha de seis defensores sem a bola. Nesta Copa, o português Carlos Queiroz voltou a apostar no sistema, mas “menos conservador”, com uma linha de cinco. Hoje, pela segunda rodada do Grupo B, o time joga com Gales, às 7h.

Além do próprio sistema com três zagueiros, existem seleções que, apesar de jogarem com uma linha de quatro — formada, predominantemente, por dois zagueiros e dois laterais — quando se estruturam no campo adversário, é visível a utilização de apenas três jogadores na linha defensiva. Um exemplo claro é o Brasil comandado por Tite.

Quando o treinador, na coletiva que anunciou os convocados, justificou Daniel Alves utilizando a frase “não teremos laterais ofensivos, mas laterais construtores”, ele já explicou um pouco de como a seleção brasileira atacaria.

Menor aderência em clubes

Ao longo do ciclo (2018-2022), o lateral direito Danilo sempre esteve ao lado de Marquinhos e Thiago Silva para a saída de bola. Com isso, dava liberdade maior ao ponta direita Raphinha, que fica bem aberto esperando a chance dos seus dribles no mano a mano.

No lado oposto, tudo depende do sistema. Quando Lucas Paquetá é utilizado aberto, Alex Sandro deve chegar mais na linha de fundo, mas quando Vini Jr. é o escolhido na posição, o lateral esquerdo fica bem próximo de Casemiro para também liberar o ponta esquerda e ajudar na construção desde a defesa.

A Alemanha também usa seu lateral direito para dar liberdade ao ponta no ataque; enquanto outras equipes preferem o primeiro volante, casos de Equador e Argentina. Os equatorianos têm em Méndez o jogador a se aproximar de Hincapié e Torres para liberar seus laterais ofensivos (Estupiñan e Preciado).

Já os argentinos usam Paredes ao lado de Otamendi e Cuti Romero dando liberdade a Molina e Tagliafico. Resta saber qual a tendência que a Copa nos proporcionará. Mesmo que no futebol de clubes tudo seja diferente.