Copa do Mundo no Qatar vive crise em meio a denúncias sobre violações de direitos e ameaça de boicote

Marcello Neves e Vitor Seta
·4 minuto de leitura

Jovem talento com status de estrela do futebol mundial aos 20 anos, Erling Haaland é figura constante no noticiário pelos gols que marca em profusão. Na última semana, porém, o atacante do Borussia Dortmund e da seleção da Noruega ganhou as manchetes por outra razão. Ele foi um dos vários atletas que divulgaram mensagens como “direitos humanos dentro e fora de campo”, “o futebol apoia a mudança”, antes das partidas das Eliminatórias europeias à Copa do Mundo no Qatar. Os protestos têm um alvo: as denúncias sobre violações de direitos a trabalhadores imigrantes nas obras do Mundial.

Segundo uma série de reportagens do jornal “The Guardian” no mês passado, mais de 6.500 trabalhadores estrangeiros já perderam a vida durante o processo de reforma de infraestrutura e dos estádios do país visando o evento de 2022. Em meio a denúncias de condições de trabalho precárias e abusivas, as mortes de cidadãos de países como Índia, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka vêm categorizadas como “causas naturais” — cerca de 80% delas, de acordo com o diário britânico. O governo qatari contesta a informação.

As denúncias fizeram a Anistia Internacional pedir à Fifa que pressionasse o país sede para melhorar as condições dos trabalhadores. Em resposta, o Qatar reformou a sua legislação e aprovou um salário mínimo mensal de 230 euros (cerca de R$ 1.568) no emirado. Um passo considerado pequeno pelas federações internacionais.

— O futebol se tornou o projeto do governo do Qatar para ter prestígio e poder. Anteriormente, muitas das preocupações com relação aos direitos humanos estavam na Rússia, por ter sido o Mundial anterior, quando houve muita discussão sobre a população LGBT. No Qatar, é a condição de trabalho dos estrangeiros em um país com regime autoritário. A pressão aumenta porque os países europeus têm agendas internacionais baseadas nestas lutas — afirma Maurício Santoro, cientista político e professor de relações internacionais da Uerj.

— Esta Copa simplesmente não seria possível sem os trabalhadores imigrantes. As eliminatórias desta semana são um lembrete de que a janela para a Fifa influenciar o Qatar está se fechando. Ela deve agir agora para garantir que a Copa de 2022 seja um torneio do qual se orgulhar, e não contaminado por abusos trabalhistas — disse Steve Cockburn, chefe de Justiça Econômica e Social da Anistia Internacional.

A primeira seleção a se manifestar foi a Noruega, de Haaland. Os clubes do país são favoráveis a um boicote à Copa do Mundo, e a seleção nórdica entrou em campo contra Gibraltar e Turquia, na última quarta-feira e no sábado, respectivamente, vestindo camisas com frases a favor os direitos humanos.

Também antes de seus jogos pelas eliminatórias, os jogadores da Alemanha foram a campo com um mosaico de camisas formando a expressão “direitos humanos”. Mas ao contrário dos noruegueses, o presidente da Federação Alemã, Fritz Keller, descarta a possibilidade de boicote, alegando que a realização do Mundial joga luz sobre os direitos dos trabalhadores no país.

— As condições de vida no Qatar só estão em evidência neste momento por uma razão: porque eles vão receber a Copa do Mundo ano que vem. Condições inaceitáveis em outros países não recebem este nível de atenção pública. Eu acredito no poder unificador do esporte para trazer mudanças — afirmou Keller.

A seleção holandesa foi a terceira a se juntar ao protesto. “O futebol apoia a mudança” é o termo que nomeia o movimento a ser seguido pela equipe — com apoio da Dinamarca — , segundo comunicado da Federação Holandesa.

“O Qatar é o lugar onde queremos ser campeões do mundo, mas não podemos deixar de olhar fora da caixa. As condições para os trabalhadores imigrantes são terríveis”, diz um trecho do comunicado dos holandeses, que já se posicionaram contra a realização do Mundial no emirado, mas também não pensam em boicote.

A Fifa optou por não sancionar nenhuma das seleções envolvidas no protesto. Mas a entidade tem poderes suficientes para tomar medidas drásticas caso a situação evolua, com mais manifestações políticas. Se qualquer seleção decidir pelo boicote, a Fifa poderia excluí-la da disputa do Mundial de 2026.

Maurício Santoro não acredita em boicote:

— Em 1978, na Argentina, com ditadura militar, presos políticos, torturas e execuções, isso não aconteceu. A Holanda aproveitou para encontrar com as mães da Praça de Maio. O mais provável é algo nesta linha — as seleções fazendo algum ato de solidariedade com esses trabalhadores. Vamos ter uma Copa que vai se seguir a esse período do futebol na pandemia. As pessoas estão com desejo reprimido de comemorar, celebrar.

A reportagem do GLOBO procurou a CBF questionando sobre sua posição em relação às condições de trabalho na sede da próxima Copa, mas não obteve resposta. A organização do Mundial do Qatar não se manifestou sobre os protestos.