Coreia do Norte testa míssil que poderia atingir os EUA; Seul realiza novas manobras militares

A Coreia do Norte disparou nesta sexta-feira um míssil balístico intercontinental (ICBM), teoricamente capaz de atingir os EUA, mais um lançamento na maior série de testes de armas em cinco anos, iniciada no começo do mês, e que provocou duras condenações em Seul, Tóquio e Washington.

De acordo com autoridades em Seul e Tóquio, o míssil foi lançado dos arredores do aeroporto que serve a capital Pyongyang e percorreu cerca de 1.000 km, com altitude máxima de 6,1 mil km, caindo nas águas da zona econômica exclusiva japonesa. Um alerta chegou a ser emitido para algumas regiões, mas não foram registrados danos.

O ministro da Defesa japonês, Yasukazu Hamada, declarou que o projétil, possivelmente um Hwasong 17, tem um alcance potencial de 15 mil km, sendo teoricamente capaz de atingir todo o território continental dos EUA. O míssil, o maior do arsenal do país, teria sido testado pela primeira vez com sucesso em março, mas lançamentos posteriores fracassaram, incluindo no começo de novembro. A Coreia do Norte não se pronunciou.

“O lançamento do ICBM norte-coreano foi uma provocação significativa e um sério ato de ameaça que mina a paz e a estabilidade, na apenas na Península Coreana, mas também na comunidade internacional, além de ser uma clara violação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU”, afirmou, em comunicado à imprensa, o Estado-Maior Conjunto da Coreia do Sul (JCS), citado pela Yonhap.

Logo depois da confirmação do lançamento, EUA e Japão realizaram manobras aéreas no Mar do Japão, citando um "contexto de segurança cada vez mais difícil ao redor do Japão" e "reafirmando a forte vontade" da aliança bilateral "responder a qualquer situação", declarou o Ministério da Defesa japonês.

Também com participação americana, a Coreia do Sul realizou um treinamento aéreo que simulou ataques contra instalações de lançamento de mísseis norte-coreanas. Segundo o Estado-Maior Conjunto sul-coreano, foram usados quatro caças F-35A, que atuaram ao lado de quatro F-16 da Força Aérea dos EUA em formação de combate no Mar do Japão.

“[Os aliados] demonstraram sua forte intenção de responder, de forma direta, a qualquer ameaça ou provocação, incluindo o míssil balístico intercontinental da Coreia do Norte, e reiteraram sua habilidade superior e prontidão para atacar o inimigo com precisão”, afirmou o JCS, de acordo com a Yonhap.

Desde o começo do mês, a Coreia do Norte tem intensificado seus lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais, de médio e de curto alcance, além de mísseis de cruzeiro, na maior sequência desde 2017, ano em que ocorreu a última detonação de uma arma nuclear por Pyongyang. Em um dos disparos, um míssil chegou a cruzar a fronteira marítima com a Coreia do Sul, em um ato que foi considerado pelo presidente Yoon Seok-yeol "uma invasão territorial de fato".

Como esperado, o disparo desta sexta-feira foi recebido com condenações públicas. Durante uma reunião de líderes da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) na Tailândia, a vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, discutiu o incidente com os representantes de Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Coreia do Sul, e emitiu uma dura condenação pública.

— Nós pedimos novamente que a Coreia do Norte evite novos atos ilegais e de desestabilização — disse Kamala, em discurso. — Eu afirmei nosso compromisso inquebrantável com as nossas alianças Indo-Pacíficas. Juntos, os países representados aqui continuarão a pressionar a Coreia do Norte para que se comprometa com uma diplomacia séria e sustentável.

No encontro, o premier japonês, Fumio Kishida, disse que o lançamento era algo “absolutamente inaceitável”, enquanto o presidente sul-coreano Yoon Seok-yeol, que não foi à reunião, determinou o fortalecimento de medidas de defesa, em parceria com os EUA e o Japão. De acordo com a Presidência, ele ainda “pediu ações para condenações mais intensas e sanções contra o Norte, incluindo através do Conselho de Segurança da ONU, ao lado dos EUA e da comunidade internacional”.

Desde 1991, quando entrou para a ONU (ao lado da Coreia do Sul), Pyongyang foi alvo de 21 resoluções no Conselho de Segurança, incluindo extensões de mandatos de comissões, condenações e sanções. Entre as atividades vetadas estão justamente os testes de mísseis, mas analistas apontam que, além de mudanças na doutrina de defesa norte-coreana, a Coreia do Norte vê um ambiente pouco propício a novas resoluções no Conselho.

A guerra na Ucrânia pôs EUA e Rússia em lados opostos, e Moscou (além de Pequim) sinaliza pouca disposição para apoiar novas sanções, e sugere que poderá usar seu poder de veto. Em um sinal claro dessa postura, o vice-chanceler russo, Sergei Ryabkov, declarou nesta sexta-feira que os EUA “parecem estar testando” a paciência de Kim Jong-un.

— Estamos acompanhando os desenvolvimentos com preocupação. E notamos que o trabalho nos formatos que antes eram usados ​​para usar o tema da desnuclearização da Península Coreana foi cerceado por iniciativa de Washington Mas isso não significa que os contatos estejam completamente ausentes, - eles continuarão em Nova York — disse Ryabkov, citado pela RIA.