Corinthians ameniza crise em campo enquanto vive tormenta financeira

CARLOS PETROCILO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A classificação do Corinthians para as quartas de final do Campeonato Paulista é um alento para o clube, que durante a paralisação causada pela pandemia de Covid-19 viu sua crise financeira e política se aprofundar, com dívidas milionárias, disputa nos bastidores e salários do elenco atrasados em três meses. Enquanto o time do técnico Tiago Nunes ainda não convence, mas agora está a quatro confrontos de um inédito tetracampeonato estadual consecutivo, fora de campo o cenário se mostra mais complexo. Em abril, a divulgação do balanço de 2019, com prejuízo de R$ 177 milhões e dívidas de R$ 665 milhões, mostrou o tamanho do problema. Ou quase, porque o déficit se revelaria ainda maior nos meses seguintes. Em reunião neste mês, o conselho de orientação (CORI) do clube aconselhou a reprovação das contas do ano passado. O órgão aponta que o balanço não informou uma pendência de R$ 18 milhões com o J. Malucelli, equipe do Paraná, referente a negociações do volante Jucilei. Outro problema é que uma dívida com um ex-funcionário seria de R$ 2,2 milhões, e não de R$ 1,7 milhão, conforme registrado originalmente no balanço. Roberto Gavioli, gerente financeiro do Corinthians, anunciou que fez um acordo com o J. Malucelli para pagar R$ 17 milhões em 12 parcelas a partir de agosto. "Estamos fazendo uma retificação nesse balanço para incluir os compromissos com o atleta Jucilei, o que vai elevar o déficit para cerca de R$ 194 milhões", disse em nota o clube, que afirma ter adotado "uma série de medidas de correção de rumos, o que já esperávamos fazer por ser o último ano da gestão" de Andrés Sanchez. O Corinthians vive clima eleitoral acirrado há meses, motivado pelo pleito que escolherá o sucessor de Sanchez no fim do ano. Mário Gobbi, seu ex-aliado, já lançou candidatura de oposição. Na paralisação, a agremiação sofreu com a queda de ao menos duas das suas principais receitas: a cota de televisão paga pela Globo e a venda de ingressos. Esta última, suspensa enquanto os jogos forem sem público e que rendeu R$ 62 milhões em 2019, nem passa pelo cofre alvinegro e segue direto para o abatimento do empréstimo feito junto à Caixa Econômica Federal para construção da arena em Itaquera. O clube reúne 61 títulos protestados em cartórios, de setembro de 2016 até junho deste ano, no total de R$ 1.169.938,50. As dívidas com fornecedores e bancos prejudicam a instituição na hora de reivindicar empréstimo ou financiamento. Entre os 61 protestos, não está incluída a dívida com a Caixa Econômica Federal. Em setembro de 2019, o banco entrou com ação na Justiça Federal para cobrar R$ 536 milhões. A agremiação, por sua vez, afirma que o débito é de R$ 470 milhões. O processo está suspenso, mas não extinto, desde outubro, enquanto as partes tentam acordo. Também chama a atenção o salto na dívida do clube com a União mesmo depois da implantação do Profut (programa de refinanciamento de dívidas), em 2015. Os R$ 26 milhões inscritos na Dívida Ativa em janeiro deste ano viraram R$ 130,7 milhões, segundo extrato ao qual a reportagem teve acesso nesta segunda-feira (27). O montante é referente a débitos de Imposto de Renda, PIS (Programa de Integração Social), Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) e previdenciários. O orçamento para 2020, aprovado em fevereiro deste ano, previa um lucro modesto de R$ 40 mil. O cálculo considerava que o time chegaria pelo menos às oitavas de final da Libertadores e, com isso, faturaria R$ 27 milhões entre bilheterias e premiações paga pela Conmebol. A equipe de Tiago Nunes, porém, foi eliminada pelo Guaraní (PAR) na segunda fase eliminatória da competição, em fevereiro. "Ainda não é possível fazer essa previsão [do resultado financeiro do ano], como não é possível saber quando a vacina chegará. Mas nós já tivemos a maior venda da história do Corinthians [Pedrinho, para o Benfica, por 20 milhões de euros] e dois meses de superávit no exercício de 2020. O otimismo permanece", afirmou o clube em nota. O balanço do primeiro semestre apresentou lucro de R$ 4,39 milhões. "Como nossos movimentos de contratação são bem menos numerosos que os do ano passado, a tendência é que 2020 tenha um resultado melhor que 2019. Tudo isso considerando, claro, que não haverá nova pausa no futebol", completou. A agremiação contabiliza R$ 135 milhões arrecadados em vendas de jogadores no primeiro semestre. Também comemora os R$ 8 milhões anuais que serão obtidos com seu novo patrocinador na manga da camisa ao longo de cinco anos e o fato de ter renegociado R$ 100 milhões em dívidas de curto prazo com a Receita Federal, que agora poderão ser pagas em até 72 meses. Caso alcance o título paulista, o clube receberá como premiação da Federação Paulista de Futebol R$ 5,5 milhões. Atualmente, o Corinthians responde a 179 processos no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª região. A minoria é movida por atletas, como Clodoaldo, atacante do time que foi rebaixado à Série B do Brasileiro em 2007 (ingressou com ação em 2012 e teve decisão favorável em julho para receber R$ 924 mil), e o volante Marcelo Mattos. O meio-campista, campeão brasileiro em 2005, pleiteia verbas de FGTS, direito de imagem e férias. Em maio, a juíza Renata Libia Martinelli, da 79ª Vara do Trabalho, determinou o bloqueio de R$ 500 mil das contas do Corinthians. Somente de janeiro a julho deste ano são 29 reclamações trabalhistas. Em 2019, foram 47, e em 2018, 26. A maioria dos ex-funcionários tinha funções administrativas no clube ou na arena. Há processos em que funcionários contratados por empresas terceirizadas reclamam na Justiça. Os valores pleiteados por atletas, no entanto, tendem a ser mais altos. O meia Giovanni Augusto, que chegou ao time em 2016 e não conseguiu se firmar entre os titulares até ser emprestado para o Vasco, pede indenização de R$ 924 mil referente a FGTS e saldo de férias -uma audiência está agendada para setembro.