Coronavírus: Ásia adota tecnologias controversas para vigiar população em quarentena

O Globo com agências internacionais

TAIPÉI — Para conter o novo coronavírus, países da Ásia estão implantando um arsenal de tecnologias inovadoras, mas também intrusivas, como pulseiras eletrônicas, mensagens de texto de aviso de quarentena ou pesquisa digital de itinerários suspeitos. A ilha de Taiwan, que tem sido elogiada ao redor do mundo pelas ações efetivas tomadas contra a Covid-19, adotou uma tecnologia inovadora para monitorar o cumprimento do isolamento pela população.

— O objetivo é impedir que as pessoas circulem e disseminem o vídeo — explica Jyan Hong-wei, chefe do Departamento de Cibersegurança de Taiwan, que lidera os esforços junto às operadoras telefônicas para o monitoramento da população.

A tecnologia usa sinais do telefone para alertar autoridades locais, como a polícia, se determinado residente deixou sua quarentena domiciliar ou, ainda, se desligou seu telefone para escapar da vigilância.

De acordo com Hong-wei, as autoridades chegam ao local especificado em até 15 minutos. Além disso, cada cidadão recebe duas ligações diárias para que o governo se certifique de que ninguém trapaceou deixando o telefone em casa.

Preocupações quanto a possíveis violações de privacidade têm representado resistências no planejamento anti-coronavírus de países como os Estados Unidos. Em Taiwan, que notificou até o momento 108 casos confirmados de Covid-19 e uma vítima fatal, a questão levantou pouco debate. Mas há quem discuta limites.

— É assustador pensar que o governador está trabalhando com as operadoras telefônicas para rastrear nossos telefones — disse uma comissária de bordo de Taiwan que se identificou apenas como Xiaomei e está de quarentena na capital, Taipéi.

Outros países da Ásia também adotaram medidas semelhantes para prevenir uma disseminação ainda maior do Sars-CoV-2, especialmente com o aumento no número de casos importados da Europa, que superou o continente no número de mortes por Covid-19.

Pulseiras

Quando Declan Chan, um estilista de Hong Kong, desembarcou esta semana procedente de Zurique, foi recebido por policiais que o colocaram uma pulseira no pulso. O dispositivo está conectado a um aplicativo que precisou baixar em seu telefone antes de iniciar as duas semanas obrigatórias de quarentena em casa.

O bracelete permite às autoridades verificar em tempo real onde está, para garantir que as pessoas que retornam do exterior não espalhem o coronavírus, em um momento em que cresce o medo de "casos importados" nesta cidade, que até agora soube lidar com a pandemia.

Questionado por telefone, Chan, de 36 anos, diz que se acostumou a esse "informante", que notificará as autoridades se ele sair de casa.

— Com certeza é desconcertante tê-lo, mas prefiro ficar em quarentena em casa do que em um centro governamental — afirma.

Esforços asiáticos

As autoridades de Hong Kong informam diariamente sobre a epidemia. Mas foi muito discretamente que anunciou na segunda-feira, em comunicado, o recurso a esse dispositivo, comumente usado pelo serviço de fiscalização de penas.

Desde quinta-feira, todas as pessoas que chegam do exterior devem usar o dispositivo. Quem não o recebeu antes, recebe uma videochamada da polícia que verifica o número de pessoas presentes.

A ex-colônia britânica não está sozinha na adoção desse tipo de medida. Coreia do Sul, Vietnã e China, além de Taiwan, também se voltaram para a tecnologia.

Cingapura, por sua vez, emprega investigadores para monitorar quarentenas e reconstruir os movimentos dos doentes. A Tailândia, no Sudeste Asiático, criou um aplicativo cujo download é obrigatório para qualquer passageiro que desembarque em seus aeroportos.

— Onde quer que vamos, deixamos impressões digitais ao sacar dinheiro ou usar nosso cartão bancário — explicou Leong Hoe Nam, especialista em doenças transmissíveis em Cingapura.

Para Maya Wang, especialista da Human Rights Watch, nenhuma crise deve justificar que essas leis de vigilância não respeitem três princípios essenciais: constitucionalidade, proporcionalidade e necessidade.

Governos democráticos e transparentes respeitam melhor esses princípios, segundo Maya Wang.

— É em lugares como a China que existem as medidas mais invasivas, com resultados mais arbitrários — afirma.

A especialista lembra os atentados de 11 de setembro de 2001, quando muitos governos tomaram a ameaça terrorista como pretexto para adotar leis que reduziam as liberdades individuais.:

— As situações de emergência costumam ser a melhor oportunidade para subverter os princípios democráticos.

A China foi ainda mais longe com essas tecnologias controversas, através da análise de dados em larga escala e da implantação maciça de tecnologias de inteligência artificial. Em um clima de suspeita, as gigantes da Internet Alibaba e Tencent criaram aplicativos móveis que permitem que os chineses certifiquem seu nível de risco às autoridades.

Assim, podem usar esses aplicativos para obter um código QR em seu telefone, cuja cor depende de suas visitas, ou não, a locais considerados de risco: verde (sem restrição), amarelo (quarentena de sete dias) e vermelho (14 dias de quarentena).

Ter esse código QR, com base na análise dos movimentos realizados pelo usuário, é quase obrigatório em várias cidades para usar o transporte público ou para deixar as estações de trem.