Coronavírus: Ônibus para São Paulo e outros estados param de circular; passageiros são pegos desprevenidos

Rafael Nascimento de Souza

Após o decreto do governador do Rio, Wilson Witzel, que suspendeu a circulação de ônibus interestaduais para estados com transmissão comunitária ou em situação de emergência, as empresas de transporte coletivo deixaram de vender passagens para São Paulo e diversos outros estados do país. O EXTRA esteve em guichês de quatro empresas na manhã desta quinta-feira e foi informado de que não há passagens para os estados vizinhos, além de Bahia e Rio Grande de Sul. Além disso, foram suspensos temporariamente todos os embarques e desembarques para os municípios da Região dos Lagos.

Muitos passageiros com bilhetes comprados anteriormente estão sendo surpreendidos ao serem avisados de que muitas viagens foram canceladas. É o caso da universitária Chrisleane Santana Sansão, de 22 anos, moradora de Gandu, a 290 quilômetros de Salvador (BA). De férias no Rio desde o fim de fevereiro, a estudante iria embarcar de volta para sua cidade natal às 6h desta quinta-feira. No entanto, ao chegar no guichê da empresa Gontijo, foi avisada que todas as viagens para a Bahia estão suspensas temporariamente. Sem para onde ir, a jovem tentará uma nova passagem para Ilhéus, cidade perto da sua.

— Estava na casa da minha tia, em Coelho Neto, e a passagem de volta estava comprada desde o último dia 23. Mas, agora, na hora de embarcar, disseram que não sairá ônibus para a Bahia nos próximos dias — disse Chrisleane Santana.

— Mais tarde está previsto para sair um ônibus para a cidade próxima da minha. Caso eu não consiga, vou tentar ver com a minha tia se eu posso ir para lá. O pior é que tenho que voltar para a minha casa, porque a minha filha de 5 anos está sentindo muito a minha falta — aifmra a estudante, que estava usando uma máscara.

O aposentado Valdemar Dutra da Silva, de 74 anos, tenta embarcar para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O aposentado, que estava no Rio desde a última semana, diz que não sabia o que fazer, ao receber a notícia que não poderá embarcar para o Sul. Ele tenta voltar para casa desde terça-feira. Nos últimos dias, dormiu em um albergue na Lapa. Como seu dinheiro acabou, disse que precisará ficar na rodoviária até a situação se normalizar.

— Estou no Rio desde sexta-feira, porque vim resolver uns problemas. Na terça-feira, comprei a passagem de volta e, nesta quinta-feira, às 7h30m, antes de embarcar, fui avisado que a passagem para Porto Alegre estava suspensa. E não há previsão de volta — disse.

— Não tenho dinheiro para pagar hospedaria e não sei o que fazer. Sou hipertenso e tenho pressão alta. Os meus remédios estão acabando — contou o idosos, que aguarda a decisão da empresa Kaissara.

Mesmo com a proibição de entrada de ônibus de estados vizinhos no Rio, algumas empresas estão descumprindo a determinação. Na manhã desta quinta-feira  um ônibus da União com passageiros que embarcaram em Ribeirão Preto (SP) chegou à rodoviária. Entre os passageiros, estava o casal Gisele Oliveira, 40, e Sebastião Bandeira, 39. Eles pretendiam seguir para Rio das Ostras, mas, após descerem do veíiculo, foram avisados de que não poderiam prosseguir, já que a cidade da Região dos Lagos não está recebendo ônibus vindos de outras regiões.

— Chegamos às 7h vindo de Ribeirão Preto para ir para Rio das Ostras. Ao chegar ao balcão, formos informados de que não estão vendendo passagens para lá — relata Gisele.

Segundo a cabeleireira, em São Paulo, a empresa União está vendendo passagens para o Rio normalmente. Mesmo sabendo da determinação.

— Chegamos, compramos e embarcamos. Se eles tivessem dito que não estava podendo vir, ao Rio, teríamos desistido. Agora, a minha prima está vendo um jeito de alguém vir nos buscar na rodoviária — afirmou Sebastião Bandeira.

A todo momento, é anunciado no alto-falante da rodoviária que quem tiver passagens para outros estados e que está preso no Rio deve procurar a direção do local e colocar o nome em uma ficha. O documento está sendo enviando para a Secretaria estadual de Transportes.

Em casos extremos, funcionários da rodoviária estão fazendo uma vaquinha para comprar passagens para uma região onde ainda estão saindo ônibus. E de lá, o passageiro adquire outro bilhete para o local de destino.

De acordo com a Rodoviária do Rio, mais conhecida como Novo Rio, entre a última segunda-feira e ontem a demanda no coloca —  para embarques e desembarques — caiu 80%. Por dia, passavam pelo local 30 mil pessoas.

Segundo Bia Lima, porta-voz da rodoviária, cada empresa tem a ingerência de vender ou não as passagens e que, mesmo com o decreto estadual, algumas ainda estão disponibilizando bilhetes para São Paulo, estado com transmissão comunitária do coronavírus.

— Quem tem que fiscalizar (a venda de passagens e a vinda de ônibus de São Paulo para o Rio) é a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), que é um órgão federal. Entretanto, todas as empresas que operam dentro do estado do Rio suspenderam suas viagens. Não podemos impedir uma empresa que venha de São Paulo não entre na rodoviária — afirmou Bia.

De acordo com a porta-voz, o espaço  passa diariamente por higienização e que, atualmente, existem 40 pontos de álcool em gel no espaço. A direção da rodoviária está fazendo uma força-tarefa para tentar repatriar para os estados de origem quem tem algum problema de saúde ou pessoal.

— No caso das pessoas que vieram para o Rio e precisam retornar para suas cidades por algum tipo de problema, estamos procurando as empresas de ônibus que ainda fazem a rota do passageiro e tentando realocá-los. Até agora, já conseguimos 25 viagens — completou.