Coronavírus: 30% dos moradores de Rio e SP furaram isolamento social, diz pesquisa

Leo Branco
No fim de abril, cariocas desrespeitam isolamento social e praticam esportes em dia de sol na Praia de Ipanema, no Rio

SÃO PAULO -- Cerca de um terço dos moradores das regiões metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro se deslocaram para mais de 1,1 quilômetro de um ponto de referência inicial, como a própria residência, entre os dias 20 de março e 20 de abril. Dessa maneira, furaram os regimes de isolamento social em vigor nas duas metrópoles. É o que revela um monitoramento online com 5.400 moradores dos dois estados conduzida pelo Brasil Sem Corona, uma iniciativa para mapear os bairros das cidades brasileiras com maior risco de surtos por Covid-19.

O monitoramento foi idealizado por duas start-ups: Colab, desenvolvedora de um aplicativo para cidadãos relatarem às prefeituras problemas de zeladoria urbana, como falta de luz e buracos nas ruas, e Epitrack, especializada na análise de dados sobre a evolução de epidemias.

Os dados foram levantados da seguinte maneira: em março, o app do Colab ganhou a função Brasil Sem Corona, com um questionário para o internauta checar se está com sintomas da Covid-19. Após o voluntário concordar em participar da pesquisa online, seus deslocamentos passaram a ser monitorados através de sensores dos seus celulares, como o GPS.

Os dados de movimentação foram filtrados para tirar a identidade dos usuários por trás deles -- ou, no jargão do setor, fazer a “anonimização” das informações. Por fim, os dados foram cruzados com mapas a fim de mostrar os trajetos mais comuns na malha urbana das duas metrópoles.

Em São Paulo, dos 4.353 voluntários, 30,5% fizeram deslocamentos acima de 1,1 quilômetro. Desse total, 8,5% também sinalizou algum tipo de sintoma da Covid-19, como tosse e febre.

No Rio de Janeiro, o descumprimento do isolamento social foi um pouco mais elevado. Dos 1.079 voluntários, 32% se deslocaram mais do que 1,1 quilômetro no período. Destes, 9% reportou algum sintoma da pandemia.

A pesquisa, que pode ser acessada no site do Brasil Sem Corona, ressalta que a base de voluntários ainda é pequeno para tecer conclusões sobre a evolução da quarentena no país.

- É um resultado preliminar e não conseguimos diferenciar se a pessoa está se deslocando frequentemente, ou foi somente para atividades essenciais. Porém, é uma informação estratégica pois sabemos que a transmissão da doença acontece também em casos leves e mesmo em assintomáticos - diz a epidemiologista Julia Lee, uma das responsáveis pela pesquisa.

Gastos com comunicação

Outro levantamento online - neste caso com gestores públicos, como prefeitos e secretários de saúde -, mostrou que as prefeituras brasileiras estão investindo mais em estratégias de comunicação no combate à Covid-19 do que na assistência básica de saúde, como exames pré-natais e vacinação.

Chamada de CoronaCidades, a iniciativa da ONG Impulso, de apoio à gestão pública, quis checar o grau de preparação de prefeituras ao combate à pandemia.

Num questionário online respondido por gestores públicos de 101 prefeituras brasileiras, de todas as regiões, os responsáveis pelo CoronaCidades quiserem saber quais eram as estratégias de combate à pandemia. A pesquisa foi conduzida entre os dias 10 e 28 de abril.

Do total de entrevistados, 98% fez alguma estratégia de comunicação para o combate ao coronavírus, como criar um site ou publicar conteúdos em redes sociais com dicas para evitar a doença.

- As prefeituras estão conseguindo com relativa facilidade montar estratégias de comunicação para combater a crise porque já tinham essas estruturas antes mesmo da pandemia - diz Isabel Ópice, uma das responsáveis pelo CoronaCidades.

A mesma pesquisa perguntou a um grupo menor, de 63 cidades das regiões Norte e Nordeste, sobre as estratégias dessas prefeituras para a atenção básica de saúde. Desse total de 63 cidades, 4,8% relatou ter suspendido atendimentos pré-natal e de vacinação para concentrar esforços das equipes de saúde no combate ao coronavírus. Em 37% das prefeituras, essas medidas estão sendo feitas em horário reduzido. Em 58% o atendimento está como antes da crise sanitária.