Coronavírus altera peregrinação ao santuário de Lourdes

Por Marisol RIFAI
(Arquivo) Basílica de Nossa Senhora de Lourdes, na França

Com milhões de peregrinos vindos de todo o mundo, o santuário de Lourdes, no sudoeste da França, trava sua própria batalha contra o coronavírus, com um dispositivo sem precedentes, em uma cidade onde comerciantes e hoteleiros temem uma avalanche de cancelamentos.

Na entrada da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, inúmeros cartazes lembram aos peregrinos as regras de higiene a seguir, como lavar as mãos com frequência.

Piscinas fechadas, confessionários com gel desinfetante disponível ou contagem de peregrinos, são algumas das medidas tomadas pela gerência do santuário.

Embora nenhum caso tenha sido registrado em Lourdes ou na área em que está localizada, a administração do santuário indica que está pronta "para todas as eventualidades".

Dada a proximidade da temporada de peregrinação que começa em 5 de abril, "estabelecemos uma célula de vigilância dez dias atrás, que se reúne diariamente", explica o reitor do santuário, monsenhor Olivier Ribadeau Dumas.

"Foi decidido rapidamente o fechamento das piscinas porque elas são um lugar de muita concentração, onde os peregrinos se banham", declarou.

Essas piscinas localizadas perto da caverna de Massabielle, onde de acordo com a tradição cristã a Virgem apareceu, atraem anualmente cerca de 350 mil peregrinos que mergulham nas águas com a esperança de cura.

Isabel Jaraiz, uma espanhola de 61 anos que se locomove de cadeira de rodas, está em Lourdes pela primeira vez. Se as piscinas estivessem abertas, "eu teria ido lá, não acho arriscado", disse.

- Sem precedentes -

Não muito longe, um grupo de fiéis se reúne em frente à caverna, tocando a parede de pedra. "Este gesto não é questionado pelas medidas do Ministério da Saúde", especifica o santuário em seu site.

E como agir contra o coronavírus? "Tento não entrar muito nesse tipo de psicose atual", diz Géraldine, de 55 anos.

Apesar da chuva, há várias dezenas de peregrinos reunidos no santuário, mas em um mês haverá milhares.

"Teremos que levar em conta o pedido [do governo francês] de não colocar mais de 5.000 pessoas em um espaço confinado ... usando especialmente a contagem dos fiéis e sua redistribuição em diferentes locais do santuário", disse Ribadeau Dumas.

Para Alessandro de Franciscis, médico permanente no santuário, a situação é sem precedentes.

Ele crê que pessoas doentes - cerca de um terço do contingente de peregrinos - poderiam cancelar sua viagem, sabendo que a taxa de mortalidade relacionada ao coronavírus é muito maior em pessoas que sofrem de doenças cardiovasculares ou respiratórias, diabetes ou câncer.

- Fortes prejuízos -

Enquanto isso, a associação inglesa HCPT cancelou a peregrinação de cerca de 6 mil crianças com deficiência agendada para abril.

No total e "até o momento, cerca de 15% dos peregrinos programados para abril cancelaram ou postergaram sua visita, principalmente os italianos", detalha o reitor do santuário.

É um cenário que preocupa os comerciantes. "O início da temporada será complicado, pois muitos grupos da Páscoa cancelaram. Será um grande prejuízo para lojas, hotéis e Lourdes em geral", lamenta Karim Guemeche, vendedor de uma loja de lembranças.

Pascal Martin, proprietário e diretor do hotel Best Western em Lourdes, está "preocupado" com cancelamentos, principalmente de clientes estrangeiros. Em dois dias, cerca de 30 reservas foram canceladas, afirmou.

"Faço isso há 32 anos e nunca vimos nada tão poderoso quanto o que está acontecendo conosco hoje", revelou.

Diante da epidemia, vários países adotaram medidas drásticas em relação aos locais de peregrinação.

Assim, a Basílica da Natividade de Belém, local de nascimento de Jesus segundo a tradição cristã, foi fechada como precaução após os casos suspeitos de Covid-19 neste setor da Cisjordânia ocupado por Israel.

Já Arábia Saudita suspendeu na quarta-feira temporariamente a entrada de peregrinos para realizar a Umrah, a pequena peregrinação muçulmana que ocorre em Meca, no oeste do reino, a qualquer época do ano, uma decisão de escala sem precedente.