Coronavírus aprofunda brecha educacional na América Latina, alerta a Unesco

Paulina ABRAMOVICH
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Alunos de pré-escola usam tablets durante aula em uma escola pública de Montevidéu, 11 de agosto de 2020
Alunos de pré-escola usam tablets durante aula em uma escola pública de Montevidéu, 11 de agosto de 2020

O coronavírus aprofundou a brecha educacional na América Latina, a região mais desigual do mundo e, embora o ensino à distância tenha se estendido para além da média global após o fechamento das escolas, pode enfrentar um "desastre geracional", segundo um relatório da Unesco.

Antes da pandemia, os resultados de aprendizagem já eram baixos e excludentes nos países da América Latina, onde a identidade, a origem e a capacidade determinam as oportunidades de educação.

Em 21 países da região, por exemplo, os estudantes de famílias de renda mais alta têm cinco vezes mais probabilidades que os mais pobres de concluir o ensino médio.

Apenas metade dos jovens de 15 anos alcança uma proficiência mínima em habilidades de leitura, enquanto indígenas e afrodescendentes apresentam taxas de rendimento e de alfabetização mais baixas que o resto da população. Em média, os adolescentes com deficiência têm 10% menos probabilidade de frequentar a escola do que aqueles sem deficiência.

"Os sistemas educacionais da região não só são caracterizados por sua baixa qualidade, mas também por seus altos níveis de desigualdade e exclusão social. Este problema foi exacerbado com a pandemia", diz Javier González, diretor do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Educação para a América Latina e Caribe (Summa), um dos participantes do relatório "Todos e todas sem exceção", apresentado nesta quinta-feira em Santiago.

O material foi produzido pela equipe do Relatório de Monitoramento da Educação no Mundo e pelo escritório da Unesco em Santiago.

"A pandemia tem três consequências para a inclusão na educação: a falta de aprendizagem, uma maior pobreza gerada pela recessão e a interrupção dos serviços de apoio. Todas elas afetam mais as alunas e os alunos desfavorecidos", alerta o relatório.

Os resultados são dados apesar de os países da América Latina e Caribe terem aumentado os gastos com educação. Se em 2000 a região destinava em média 3,9% do PIB para a educação, em 2017 este valor subiu para 5,6%.

- Ensino à distância, substituto parcial –

Diante da pandemia, os países da América Latina conseguiram estender a educação à distância para o total mais alto de alunos potenciais (91%), muito acima da média mundial (69%), principalmente através da televisão (86%) e do rádio (50%).

De acordo com dados coletados no relatório, em maio de 2020 - dois meses depois que os primeiros casos de coronavírus foram detectados na região, o que gerou o fechamento de todas as escolas -, dos 26 países latino-americanos, sete tinham plataformas de aprendizagem, 22 ofereciam conteúdos digitais, 13 utilizavam conteúdos de material didático e redes sociais e 20 forneciam educação através de programas de rádio ou televisão.

Em países como El Salvador e Honduras, também houve fornecimento de conteúdos educativos na plataforma YouTube.

O relatório destaca os esforços dos governos para apoiar especificamente os alunos mais desfavorecidos. No Uruguai, por exemplo, se destaca a política para tornar a internet mais acessível, através de uma associação com uma empresa de telecomunicações para fornecer a todos os alunos um acesso gratuito a conteúdos educativos.

No entanto, a educação à distância e o prolongado fechamento das escolas agravam o risco de deixar os alunos mais desfavorecidos ainda mais para trás.

"Essa solução só oferece um substituto parcial da experiência educacional", disse Manos Antoninis, diretor do Relatório de Monitoramento da Educação no Mundo, durante a apresentação virtual do estudo.

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