Coronavírus atravessa o samba; vítima mais recente da doença é da Grande Rio

Geraldo Ribeiro

RIO — Esse ano não vai ser igual aquele que passou. A letra de uma antiga marchinha serve para definir o clima do carnaval de 2021. Como toda a sociedade, o mundo do samba também está tendo de aprender a conviver com as perdas decorrente da pandemia de coronavírus.

Em pouco mais de duas semanas já foram registradas pelo menos seis mortes de integrantes ou componentes, sendo quatro de sexta-feira em diante, entre os confirmados e suspeitos.

O caso mais recente é do diretor de harmonia da Grande Rio, Marcos Diniz, de 50 anos, o Marquinhos DJ, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O falecimento do integrante, ocorrido nesta terça-feira, foi confirmado pela escola, em sua página no Facebook.

"É com muito pesar que informamos o falecimento, no dia de hoje, de Marcos Diniz, um dos nossos Diretores de Harmonia, vítima da covid-19. Marquinhos DJ, como era conhecido, tinha 50 anos e era morador de Duque de Caxias. A Grande Rio, em nome do nosso presidente Milton Perácio e dos Presidentes de Honra Jayder Soares, Leandro Soares e Helinho de Oliveira, lamenta profundamente a perda de um componente tão apaixonado e roga a Deus que conforte o coração de seus familiares", diz o texto.

Na véspera, foi o diretor de bateria da Porto da Pedra, Anderson Dias da Silva, o Andinho, de 26 anos, que estava internado no Hospital Luiz Palmier, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. O sepultamento foi na tarde desta terça-feira, no mesmo município onde Andinho morava.

A Mocidade Independente de Padre Miguel perdeu três componentes atuantes na escola. O intérprete Rico Medeiros, com passagens pelo Salgueiro e Viradouro, esta última a campeã do carnaval desde ano, não teve divulgada a causa da morte, ocorrida na sexta-feira, mas havia suspeita de Coronavírus.

— Certamente que vai ser um carnaval diferente (o de 2021). Toda escola vai ter perda, seja de componente ou de um torcedor mais próximo. A alegria dessas pessoas que se forem merece ser homenageada no desfile — sugere Meste Pablo, da Tigre de São Gonçalo, que não perdeu apenas um integrante da bateria que comandava, mas também um amigo e compadre.

Pablo é padrinho do filho mais novo de Andinho, um menino de 2 anos. Ele se recorda da paixão que o amigo nutria pelo carnaval e, em especial, pela Porto da Pedra. O mestre de bateria contou que quando chegou na agremiação, há cinco anos, o jovem já estava lá.

— Duas semanas antes do carnaval a gente dormia e acordava junto na quadra, para ajudar a entregar as fantasias. Esse tipo de proximidade fortalecia nossa amizade — disse.

Ele contou ainda que entre os primeiros sintomas e a morte do amigo se passaram apenas duas semanas.

Andinho era músico, tocava percussão, e tinha um grupo de pagode, o "Sacode a poeira", no qual também era vocalista.

— Perdi mais do que um diretor de bateria. Perdi um compadre, uma amigo e irmão. Já a escola perdeu um grande apaixonado — afirmou Mestre Pablo, acrescentando que o teste feito no hospital teria dado positivo para Covid-19.

No sábado, foi a vez de Adilson Santos, o terceiro componente da Mocidade, terceira colocada no desfile desse ano a morrer. O primeiro foi Vagner Prata, de 40 anos, cujo teste teria dado positivo para coronavírus, segundo a viúva. Já Adilson e Rodrigo Magalhães Pacheco, de 29 anos, tinham suspeita da doença. Rodrigo Richard, como o último era conhecido, era filho do diretor de alegoria da escola da Vila Vintém e desfilava na agremiação desde a infância.

O diretor de carnaval da Mocidade, Marco Antônio Marino, disse que os três eram figuras queridas e muito presentes na escola. Ele lamentou as perdas, disse que a agremiação está de luto pelas perdas e lembrou as medidas que a escola está tomando para ajudar a conter os efeitos do coronavirus.

— Estamos distribuindo cestas básicas na quadra e máscaras, num projeto junto com a Liesa na intenção de que isso não aconteça com ninguém. É uma tristeza muito grande pegar logo gente que a gente tem intimidade. A escola está de luto — disse.

Em plena crise do Coronavírus, a Viradouro, campeã deste ano, anunciou que levará para a avenida no ano que vem o enredo "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria". A ideia dos carnavalesco Marcus Ferreira e Tarcísio Zanon é fazer uma releitura do carnaval carioca de 1919, mostrando o sentimento da população que naquele ano foi às ruas para celebrar o fim da pandemia de gripe espanhola, tão grave quanto a atual.

Coreógrafo infectado apresenta melhora no quadro de saúde

Uma das figuras mais conhecidas do carnaval carioca, com mais de 30 anos de dança e passagem por diversas escolas de samba, o coreógrafo Carlinhos de Jesus anunciou numa rede social, na última quarta-feira, que havia sido contaminado pelo coronavírus.

Na ocasião, ele contou que estava respeitando a quarentena e, desde o seu início, saíra de casa uma única vez e bem cedo para ir ao supermercado. Ele acredita ter se contaminado durante as compras. A mulher dele Raquel Vieira também se contaminou.

"Dor, febre e dificuldade de respirar", postou para descrever os sintomas.

Carlinhos de Jesus coreografou a comissão de frente de escolas como Mangueira, Beija-flor, Império Serrano, União da Ilha e Portela.

De acordo com a família dele, o coreógrafo foi internado no Copa D'Or, na Zona Sul do Rio, nesta segunda-feira para ser melhor avaliado.

— Os exames dele comparados com os que foram feitos no hospital na semana passada estavam bem melhores e seguem melhorando. Porém, a equipe médica achou mais prudente acompanhá-lo de perto. A previsão de alta é a mais rápida possível e ele vai se pronunciar quando tudo isso acabar — afirmou Tainah, filha de Carlinhos de Jesus. — Ele está bem e não há motivos para preocupação. Ele está sendo acompanhado tanto pela equipe médica quanto pela médica da família.

Mutirão do samba

No começo do mês, a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) anunciou um mutirão envolvendo as 13 agremiações do Grupo Especial mais a campeã da Série A para ajudar no combate da Covid-19.

Pela parceria, a Liga fornece o material e as escolas mão de obra para confeccionar máscaras e aventais de proteção, estes últimos para serem encaminhados aos hospitais.

Como o trabalho é feito de forma descentralizada, na quadra de cada escola, a Liesa não tem um balanço de quantas máscaras e aventais já foram confeccionados nem distribuídos.