Coronavírus: 'Brasil pode viver uma epidemia de intoxicações' diz especialista sobre corrida por remédios em teste

Ana Lucia Azevedo
De acordo com Teixeira, nos próximos dias e meses vão surgir muitos resultados como os da hidroxicloroquina, mas isso não quer dizer que essas drogas devem ser tomadas agora.

RIO - Se houver uma corrida a cada nova droga promissora em testes, teremos uma epidemia de intoxicações. E pacientes com doenças que precisam destes remédios vão morrer ou agravar o seu quadro devido à escassez. Há cerca de 30 compostos em testes no mundo, mas é preciso esperar.

O alerta é de um dos maiores especialistas do Brasil em desenvolvimento de tratamentos para doenças infecciosas, Mauro Teixeira, professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), cujo grupo estuda a ação de substâncias contra a Covid-19. Teixeira é membro da Comissão Científica da Anvisa e presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação. Para ele, o Brasil corre o risco de virar nova Itália.

Temos mais um perigo?

Sim. Uma epidemia de intoxicação de gente que não estava doente e de morte de pessoas que precisam desses medicamentos e ficaram sem eles porque os apavorados compraram todos. Nos próximos dias e meses vão surgir muitos resultados como os da hidroxicloroquina, mas isso não quer dizer que essas drogas devem ser tomadas agora.

O que o estudo mostrou?

Que a droga reduz a carga viral, a concentração de vírus. Ele não mostrou que ela aumenta o tempo ou a chance de sobrevida. Ou seja, atua sobre o vírus, mas não necessariamente na evolução da doença instalada.

Como os estudos, como o da hidroxicloroquina, devem ser entendidos?

Que uma determinada droga tem potencial e deve ser avaliada em testes maiores. Só isso. Ela foi testada em seis pessoas. Isso não diz nada de útil para a clínica médica agora. Esses estudos pequenos servem para descartar substâncias e aprimorar os testes de outras.

Qual o risco de tomar uma droga dessas?

É imenso. A hidroxicloroquina, por exemplo, pode causar anemia hemolítica e matar. Essa droga é para quem tem malária e doenças autoimunes, como artrite reumatoide e lúpus. Seu uso precisa de acompanhamento médico.

Mas medicamentos têm sido dados a pacientes graves de Covid-19 em casos extremos, não?

Sim. Porque são pessoas para as quais não há mais opção e estão à beira da morte. Para elas, o benefício é maior do que o risco.

E para as demais?

Ocorre o contrário. O benefício de um remédio deve ser maior do que os efeitos adversos que ele causa. Todas essas drogas testadas agora para a Covid-19 têm riscos muito elevados. Para pessoas com sintomas leves, os danos dos efeitos colaterais são maiores do que qualquer potencial benefício. A regra é: se o efeito colateral é maior que a doença, o remédio não deve ser tomado.

Qual a perspectiva de desenvolvimento de remédios e vacinas?

Não teremos tempo para desenvolver vacinas e drogas específicas contra a Covid-19 para esta pandemia. Elas virão para o futuro. Temos que identificar entre os compostos que já temos quais poderão ser usados.

E qual o cenário neste momento?

Até agora, nenhum estudo grande mostrou que algum composto é eficaz contra a Covid-19.

Quantos estão em teste?

Temos cerca de 20 grandes estudos em curso no mundo. Há aproximadamente 30 drogas em análise, número muda a cada dia.

E quais os mais avançados? Se fala muito no remdesivir, o que acha dele?

Ele parece promissor, mas não sabemos em que escala. É um medicamento para Sars e ebola. Pode ser opção em algumas circunstâncias.

E quais medicamentos o mundo deve ter?

Um antiviral de amplo espectro, capaz de combater muitos vírus. Ele será uma salvaguarda para futuras epidemias, mas ainda não dispomos de um.

O senhor também tem trabalhado no desenvolvimento de testes. Qual a perspectiva de aumentar a testagem no Brasil?

Temos uma capacidade limitada, como a de muitos países, e isso não deve ser a prioridade agora. Precisamos escolher muito bem quem testar, com foco nos profissionais de saúde e nos pacientes graves.

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Qual a sua avaliação sobre as medidas tomadas?

As quarentenas em massa, os isolamentos são necessários para reduzir a disseminação do vírus e dar tempo a nosso sistema de saúde. Mas não devemos alimentar a ilusão de que não será grave, porque será muito grave. A gente está testando pouco, não conseguimos testar mais agora.

Quão grave?

Ainda não sabemos. Mas sejamos realistas: estamos tentando ganhar tempo, mas podemos ter uma situação semelhante à da Itália. Temos uma população pobre extremamente vulnerável, que não vai conseguir se proteger direito. Nossos médicos já passam pelo dilema que os italianos relatam agora, de ter que fazer a dolorosa opção de que paciente salvar.

Quais as urgências?

Todas. Onde está o dinheiro anunciado pelo governo para os mais pobres? Já deveria estar sendo distribuído. E para quem não têm nem conta em banco? Temos que pensar nos pacientes graves, no atendimento deles.

Por que a Itália chegou a uma situação tão trágica?

A Itália testou pouco e teve uma epidemia muito intensa. Somando a isso, tem uma população idosa. Agora está testando os mortos. Ela perdeu o controle.

Quando os casos na Itália vão cair?

Quando a epidemia se esgotar por si só. Quando contaminar todos os vulneráveis e os sobreviventes, que serão a maioria, estiverem naturalmente imunes.