Coronavírus: BRT quer ajuda financeira da prefeitura 'para sobreviver'

Luiz Ernesto Magalhães
BRT Transoeste lotado no primeiro dia útil das medidas contra coronavírus adotadas pela prefeitura e pelo estado

Em meio aos efeitos da epidemia de coronavírus no Rio, surge uma nova crise na relação entre a prefeitura e empresários do setor de ônibus da cidade. Em ofício ofício encaminhado no fim da tarde de domingo ao prefeito, o presidente do Consórcio BRT, Luiz Carlos Martins,  diz que as operadoras não vão sobreviver às restrições se, em 48 horas, a prefeitura  não adotar medidas para compensar a queda de passageiros no sistema.  Em um trecho do documento, Martins chega a pedir ajuda financeira da prefeitura para manter o sistema operando.

''Por fim requer-se (...) que seja ponderado pelo município a utilização do Fundo de Mobilidade Urbana de modo a mitigar o desequilíbrio econômico financeiro vicenciado pelas operadoras e garanta a continuidade do serviço por ônibus durante e depois desse momento excepcional'', diz um trecho do documento, enviado horas depois do BRT participar de uma reunião com técnicos da Secretaria municipal de Transportes e o próprio Crivella para tentar reduzir a superlotação do sistema.

Compartilhe por WhatsApp: clique aqui e acesse o guia completo com tudo sobre coronavírus

Regulamentado em agosto de 2019, o fundo conta com receitas de multas aplicadas contra operadores das linhas de ônibus da cidade, multas de trânsito, entre outras fontes. Geralmente, a prefeitura usa essas receitas para manter a sinalização viária e pagar fornecedores pela manutenção do sistema de sinalização. E também fazer pequenas intervenções para melhorar a fluidez do trânsito.

Ferrovias: passageiros formam fila em estação de trem para embarcar após bloqueios no Rio

A operação do BRT é motivo de conflitos com a prefeitura há mais de dois anos. Em 2019, a prefeitura chegou a decretar a intervenção no sistema, após a troca de acusações sobre a responsabilidade pela má qualidade do serviço prestado. Enquanto a prefeitura acusava a operadora de má gestão, o BRT argumentava que o município não cumpria sua parte. Tanto por não impedir que usuários embarcassem sem pagar quanto pela falta de investimento na manutenção das pistas por onde os articulados circulam, o que exige mais gastos para manter os veículos em bom funcionamento.

No entanto, passados oito meses, o serviço não melhorou. Na semana passada, os coletivos das linhas do BRT - em especial do Transoeste (Campo Grande - Barra) -circularam superlotados, apesar da recomendação de que os passageiros viajassem apenas sentados. Ao GLOBO, o BRT alegou que nenhum sistema modal foi projetado para que usuários sigam até o destino sentados nos horários do rush e disse que essa determinação não é seguida por outros modais, como o Metrô, por exemplo.

Filas no metrô: Governo do estado vai rever métodos para evitar aglomerações nos embarques ao transporte público

O GLOBO apurou que outro motivo para o envio da correspondência é que os operadores do BRT estão insatisfeitos com o congelamento das tarifas, válida não só para o sistema de articulados como para as demais concessionárias. Há quase um ano, a tarifa está em R$ 4,05 e não é possível reajuste por causa de uma disputa judicial sobre o preço das passagens. No documento, o BRT também reivindica que tenha assento no Comitê de Crise criado pela prefeitura para enfrentar a epidemia. 

Infográfico:  Os números do coronavírus no Brasil e no mundo

Procurado, o Consórcio não se manifestou, confirmando apenas a veracidade do documento. O prefeito Marcelo Crivella, por sua vez, preferiu não polemizar com os operadores.

- Orientei a Secretaria de Transportes para que faça os estudos em relação à ponderação do equilíbrio econômico financeiro. Mas isso está no Tribunal de Justiça. Tomamos as medidas devido ao consenso majoritário da comunidade científica do Rio de Janeiro que recomenda evitar aglomerações nos ônibus, em pé. É um momento de maior risco - disse o prefeito.

Na sexta-feira, Crivella adotou novas medidas. Reduziu a oferta de linhas que vão até a estação do Metrô do Jardim Oceânico e proibiu a linha Transoeste de operar no fim de semana.  Na reunião de domingo, ficou acertado que as empresas que operam o sistema manteriam em algumas estações coletivos comuns – não articulados. Além disso, a frota que atende ao corredor Transolímpico (Recreio-Vila Militar) foi reduzida à metade e esses coletivos realocados para o Transoeste.

Nesta segunda-feira, fiscais da prefeitura ficaram posicionados nas principais estações do Transoeste. Havia filas, mas a maioria saía das estações apenas com passageiros sentados. Ao longo do percurso, porém, alguns ônibus circularam com passageiros em pé.