Coronavírus: cidades 'envelhecidas' se preparam para proteger idosos da Covid-19

Dimitrius Dantas
Desembarque de passageiros no aeroporto internacional de Guarulhos: população idosa é mais suscetível em caso de infecção respiratória.

SÃO PAULO - A pandemia do novo coronavírus é particularmente preocupante para um grupo específico da população: os idosos. Pesquisas realizadas desde o início do surto indicam que a Covid-19 pode chegar a uma taxa de letalidade de quase 15% entre aqueles com mais de 80 anos. Com isso em mente, algumas das cidades brasileiras com maior porcentual de idosos começam a se preparar para o crescimento do surto.

São várias as dificuldades, desde tarefas mais complicadas, como a compra de respiradores, equipamento essencial no tratamento da doença, até atividades triviais, mas extremamente relevantes, como convencer os idosos do perigo da doença, para que evitem sair de casa.

Santos, por exemplo, tem mais de 20% de sua população acima dos 60 anos, segundo o secretário da Saúde, Fábio Ferraz. A cidade já possui um programa que permite que idosos avisem uma empresa parceria em caso de perigo. A companhia avisa a Prefeitura, que aciona uma ambulância.

O programa, agora, foi ampliado para todos os idosos que estiveram expostos à Covid-19. Todos os pacientes idosos recebem uma pulseira e um botão de emergência nos casos em que há recomendação de isolamento.

- Nessa mesma leitura disponibilizaremos um oxímetro que faz a testagem no dedo para monitorar a densidade respiratória desse paciente - afirma Ferraz.

O secretário é formado pelo Centro de Liderança Pública (CLP) e tem compartilhado suas medidas no Comitê de Saúde criado pelo centro.

Na Região Metropolitana de São Paulo, São Caetano do Sul também possui alto índice de envelhecimento. O valor é calculado pelo IBGE com base na divisão entre o número de idosos divididos pelo número de jovens (de 0 a 14 anos). A cidade, por exemplo, tinha, em 2015, mais de 33 mil idosos e 25 mil jovens.

Desde segunda-feira, a cidade fechou os centros de saúde e educação para a terceira idade, que costumam reunir idosos para atividades coletivas e de artesanato. Segundo Lucila Lorenzini, coordenadora do Comitê Municipal da Terceira Idade (Comtid), a prefeitura tem adotado diversas alternativas para manter os idosos ativos e também para convencê-los a sair apenas quando extremamente.

Lorenzini conta que as pessoas nessa idade costumam se apegar a uma rotina específica que, em alguns casos, terá que ser quebrada pelo coronavírus.

- Como o idoso tem uma bagagem, uma experiência, ele tende a acreditar mais na própria opinião do que na ciência. É normal que ele tenha, então, uma certa teimosia. A gente percebe essa dificuldade de orientá-los e fazer com que entendam da importância da doença - explica Lorenzini.

Nesta sexta-feira, a Guarda Civil Metropolitana foi autorizada a abordar idosos na rua, orientando-os sobre os perigos da Covid-19. A cidade, até quinta-feira, tinha 10 casos confirmados da doença.

Assim como em outras cidades, os municípios com alto índice de idosos em sua população tentam garantir estrutura necessária para atender o número de infectados que deverá surgir a partir das próximas semanas, segundo as autoridades.

- A recomendação é ter 2,4 leitos de UTI para cada 10 mil pessoas em uma situação de epidemia. Somando a rede privada a gente supera esse número. Mas, em leitos SUS, estamos em 1,1. Já pedimos a habilitação de 90 leitos para a região da Baixada Santista - afirma Ferraz, secretário da Saúde de Santos.

De acordo com Ferraz, no entanto, a aquisição mais importante para a região nos próximos dias são de respiradores. O equipamento é tratado por especialistas como aquele que pode dividir a possibilidade entre um paciente sobreviver ou não.

- Nós esperamos um pico mais ou menos aproximadamente na segunda quinzena de abril, é o que a gente imagina que aconteça, que 0,1% da populaçao seja infectada. É o que aconteceu na região epicentro da China. Além disso, aqui na cidade, temos a questão de que muitos moradores da Baixada Santista buscam hospitais em Santos, então nossa demanda se multiplica para 1,9 milhao de habitantes na Baixada - afirmou.

Caso esses números se confirmem, 1900 poderão ser infectadas apenas na Baixada Santista nesses primeiros meses da doença. Caso 15% evoluam para um quadro grave, seriam quase 285 que precisariam de respiradores.