'Se você está em autoisolamento, eu posso ajudar': as provas de solidariedade em meio à pandemia do coronavírus

Juliana Gragnani* - @julianagragnani - Da BBC News Brasil em Londres
Demonstrações de solidariedade nas janelas da Itália

Em meio à pandemia causada pelo novo coronavírus, o recado nas redes sociais é "ninguém segura mais a mão de ninguém". Mas, de longe, muita gente ainda se ajuda.

Com parte da população mundial agora em situação semelhante — quarentena, autoisolamento e outras medidas por medo do vírus —, pessoas estão buscando maneiras de seguir adiante.

Na Itália, pessoas cantam juntas nas janelas; pelo mundo, jovens oferecem fazer compras para pessoas mais velhas que não podem fazê-lo, e pessoas sob quarentena batem palmas para médicos que estão cuidando da população infectada.

"Conter essa pandemia depende muito das nossas atitudes individuais em prol da coletividade", diz a servidora pública Fernanda Salvadé, de 36 anos, que neste domingo (15/03), ofereceu fazer compras para seus vizinhos em Brasília.

"Em pandemias passadas, o apoio mútuo era muito mais comum que protestos ou outras formas de agitação civil. Agora, as pessoas estão ficando cada vez mais conscientes sobre a necessidade de se ajudar em vez de apenas se proteger comprando produtos para armazenar", avalia Steven Taylor, professor de psiquiatria da British Columbia University, no Canadá, e autor do livro The Psychology of Pandemics (A psicologia de pandemias, em tradução livre).

Um dos aspectos mais importantes dessa pandemia e de pandemias anteriores, segundo Taylor, é que as pessoas se sentem ameaçadas e precisam encontrar maneiras de lidar com isso. "As pessoas sentem que precisam fazer algo para sentir que estão exercendo algum controle sobre suas vidas. As compras motivadas por pânico fazem parte disso. Ajudar as pessoas também", diz.

Para ele, as redes sociais e outras formas de comunicação digital exercem um papel importante em criar um "senso de solidariedade e apoio social". "É uma maneira de ajudar as pessoas a se conectarem e se ajudarem enquanto mantêm a distância necessária para limitar a disseminação da infecção. É animador que tenha havido uma onda de solidariedade e apoio mútuo nos últimos tempos", afirma.

A BBC News Brasil fez uma lista com algumas dessas boas notícias — que, espera-se, deve crescer nos próximos dias.

1. Compras para vizinhos

"Se você está em autoisolamento, eu posso ajudar." A oferta para fazer compras para um vizinho mais idoso ou que está em outro grupo de risco tem se multiplicado por diferentes países do mundo.

Em Brasília, a servidora pública Fernanda Salvadé escreveu um recado e pendurou em todos os elevadores do prédio: "Se você tem mais de 60 anos, posso ir ao mercado para você, sem problemas ou custo. Só me avisar antes para eu me programar". Também mostrou sua disponibilidade no grupo do condomínio em uma rede social.

Ela diz que mora em um prédio com apartamentos de um quarto, onde muitos idosos moram sozinhos. "Por que vou expô-los a tanta gente nos mercados se eu posso ir até lá por eles? Eu já faço compra pra mim, comprar a mais não custa nada", diz ela. "É uma tentativa de me colocar um pouquinho no lugar do outro e ver como eu posso ajudar."

Para ela, é preciso conter de forma mais rápida possível a disseminação do novo coronavírus, e evitar que mais gente, principalmente as pessoas em situação de risco, saiam à rua, é fundamental. "Não quero testar nosso sistema de saúde em seu limite, já que em situações normais já é um caos."

Ela diz que recebeu muitos agradecimentos de moradores que disseram já ter feito as compras agora, mas que futuramente vão contar com ela para fazer isso por eles.

Em um bairro no leste de Londres, capital britânica, um morador produziu um cartão genérico oferecendo ajuda, mandou imprimir e distribuiu para os residentes do bairro. A ideia é que mais gente se ofereça para ajudar quem precisa. As ofertas: buscar compras, enviar algo pelo correio, fazer uma ligação amiga, buscar suprimentos urgentes.

O Reino Unido ainda não entrou em quarentena, então é possível circular pelas cidades, embora muitos estejam trabalhando de casa ou evitando sair na rua para não espalhar o vírus. No cartão, as observações: "evite contato físico (2 metros de distância)", "lave as mãos com frequência" e "itens serão deixados na porta da sua casa".

Nos Estados Unidos, Becky Hoeffler, funcionária da Duke University, foi tema de uma matéria do canal CBS 17 porque estava fazendo compras para seus vizinhos mais velhos.

Na reportagem em vídeo, ela diz que a ideia surgiu quando ligou para o avô, que mora longe dela, e ele lhe disse que estava indo para o supermercado. "Ele tem 91 anos, precisava mesmo ir? Se eu morasse lá, iria no lugar dele", afirmou.

Já que não conseguiu fazer isso para o avô, pensou nos vizinhos. Ela pendurou em casas ao lado da sua um cartaz dizendo que poderia fazer compras, sem cobrar nada, para quem precisasse evitar aglomerações por causa do coronavírus.

"People power" (poder entre as pessoas), diz ela, "é a melhor maneira de combater o vírus".

Em Berlim, autoridades locais decretaram o fechamento de escolas, creches, bibliotecas, espaços culturais, cinemas, academias, bares e casas noturnas para tentar conter a propagação do coronavírus na cidade.

Até agora, 283 casos da covid-19 foram registrados na capital alemã. Diante do aumento das restrições na vida pública, um jovem de 15 anos criou um site para conectar aqueles que precisam de ajuda com quem está disposto a oferecer esse apoio. Noah Adler afirmou à emissora de televisão berlinense RBB que teve a ideia ao acompanhar as notícias sobre a pandemia.

"Vi que a situação está exigindo bastante dos cidadãos de Berlim. É bom quando as pessoas se conectam, ajudam uns aos outros e tenham uma base na vizinhança. Então, pensei como seria possível implementar isso tecnicamente", contou Adler à BBC News Brasil.

O jovem estudante usou seus conhecimentos de computação para colocar no ar a plataforma Coronaport. Lançada há dois dias, mais de 600 pessoas já se cadastraram oferecendo os mais diversos tipos de ajuda.

A grande maioria se dispõe a fazer compras para aqueles que não podem sair de casa ou que pertencem ao grupo de risco da doença. Alguns se colocam à disposição de cuidar de crianças ou passear com cachorros. Há também aqueles que oferecem álcool em gel.

2) Cantoria nas janelas

Em Turim, no norte da Itália, cantora de ópera cantou de sua varanda

"Andrà tutto bene", ou "vai ficar tudo bem", cantaram os italianos de suas janelas depois que o país foi fechado pelo primeiro-ministro, Giuseppe Conte, na semana passada.

Diversos vídeos de italianos cantando juntos das janelas e varandas no país viralizaram no fim de semana. Serenatas, trompetes, pessoas tocando com suas panelas — tudo isso criou música nas varandas da Itália.

Em Turim, no norte do país, uma cantora de ópera cantou da varanda ao lado de um violinista; em Siena, um vídeo mostra uma rua deserta à noite e residentes cantando uma canção popular típica da cidade, Canto della Verbena. Em Nápoles, no sul, pessoas em quarentena cantaram Abbracciami, do cantor Andrea Sannino.

A cantoria que vemos agora na Itália já havia acontecido antes em Wuhan, quando a cidade de 11 milhões de pessoas na China era o epicentro do surto do coronavírus e estava completamente fechada. Na época, em janeiro, vídeos mostravam moradores gritando de suas janelas palavras de encorajamento e cantando.

"Wuhan jiāyóu", gritavam. "Jiāyóu" é uma espécie de grito de guerra das torcidas na China que literalmente significa "adicione gasolina" e que, figurativamente, serve para desejar força, coragem e ânimo para alguém ou para um time.

Agora, em posts de redes sociais, chineses estão escrevendo "jiāyóu" para os italianos.

3) Exercício físico, bingo e parabéns na varanda

Também surgem muitas formas de solidariedade com bom humor.

No sul da Espanha, um instrutor de ginástica (ou suposto instrutor de ginástica) deu uma aula coletiva para os vizinhos em quarentena.

Ele, no centro e em cima de uma laje; os vizinhos, em suas varandas fazendo polichinelo. As gravações do momento insólito são repletas de risadas no fundo, e é possível ver o quanto os vizinhos estão se divertindo com o momento.

Outro vídeo compartilhado nas redes mostra pessoas isoladas na Espanha jogando bingo umas com as outras pela janela — também rindo e se divertindo.

"Teve que chegar uma pandemia para unir as pessoas", comentou um usuário no Twitter. "Quem vai conferir a cartela?", perguntou outro.

No Líbano, vizinhos cantaram parabéns em conjunto para uma mulher que estendeu seu bolo de aniversário e velinhas na janela.

4) Aplausos a equipes médicas

Pelas redes sociais e aplicativos de trocas de mensagem, espanhóis e portugueses se organizaram para ir às janelas e varandas às 22h de sexta-feira (13/03), para ovacionar e agradecer as equipes médicas de hospitais atendendo pessoas com coronavírus.

Às 22h05, segundo um usuário, as pessoas ainda aplaudiam e gritavam de suas janelas.

O gesto simbólico se espalhou por distintas cidades da Espanha. Usuários subiram os registros em redes sociais, e os vídeos viralizaram.

Os portugueses fizeram o mesmo, aplaudindo as equipes médicas em conjunto na mesma hora e em diversos locais do país. O som das pessoas batendo palmas durante um longo período de tempo é emocionante.

5) 'Kits anti-corona'

Um casal na Escócia diz ter tirado 2 mil libras (R$ 12 mil) do próprio bolso para distribuir kits com máscaras, álcool em gel e lenços umedecidos para pessoas com mais de 65 anos. Asiyah e Jawad Javed foram tema de várias reportagens no Reino Unido pelo gesto.

Eles entregaram os kits na casa das pessoas que precisaram ou deixaram os kits disponíveis em sua loja. Os kits custam cerca de 2 libras cada, e o casal havia distribuído cerca de 500 deles.

"Eu conheci uma senhora que estava chorando porque tinha ido ao mercado, e não havia mais sabão. Sinto que não é justo com as pessoas mais velhas, algumas nem podem sair de casa. Só estamos tentando ajudar as pessoas que não podem sair de casa", disse Javed ao jornal The Independent.

"Passamos muito tempo com nossos avós. Se eles estivessem vivos, não gostaríamos que estivessem passando por dificuldades."

*Colaborou Clarissa Neher, de Berlim

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