Coronavírus: circos correm risco e pedem doações para seus artistas

Naiara Andrade
Montreal Circus: no momento em São Gonçalo, família depende do espetáculo

RIO - Não está tendo marmelada, nem goiabada, nem palhaçada. Faltam risos e sobram lamentos desde o último dia 13, quando o governador Wilson Witzeldecretou a suspensão de eventos públicos culturais, entre outras medidas, no combate ao avanço do novo coronavírus no Rio. Muita gente não se deu conta, mas, além dos teatros, casas de shows e cinemas que pararam de funcionar, os circos instalados em diversos pontos do estado também tiveram que baixar suas lonas. E sem bilheteria, sua principal fonte de arrecadação, mais de 400 artistas de 17 picadeiros itinerantes têm pedido socorro aos governantes e solidariedade à população, a quem solicitam doação de alimentos e produtos de higiene pessoal.

— O circo é a empresa mais desfavorecida que existe. Nossa subsistência provém só da bilheteria. E nossos artistas recebem por semana. Como sobreviver? — questiona Gustavo Nunes, de 25 anos, administrador do Circo Las Vegas, que está em Cabo Frio.

Cléber Daroni, de 36 anos, e os dois filhos Nícolas, de 11, e Guilherme, de 9, formam o trio de palhaços Batata, Boneco e Piolho, do Raduan Circus, que se encontra em Santa Cruz. À costumeira pergunta “Tudo bem?”, o pai responde ao telefone: “Mais ou menos, estou levemente apavorado”.

— Não sei quanto tempo vai durar o que tenho para comer. Sou gordo, mas uma hora essa reserva acaba, né? — diz Cléber, tentando fazer piada com a situação difícil. — O Batata não chora, mas o Cléber já chorou algumas vezes nos últimos dias.

Locutor e diretor do Circo Babilônia, agora em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o argentino Guido Rangers, de 48 anos, lamenta:

— A gente viaja o ano todo de uma ponta a outra do Brasil, para levar alegria para as pessoas, e somos esquecidos. Ficamos frustrados, porque o circo é a mãe de todas as artes. Já enfrentamos todo tipo de catástrofes, de terremotos e incêndios a enchentes, mas nada parecido com o que estamos passando agora.

Carta ao governador

Na semana passada, por intermédio do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro, os circos se uniram para enviar uma carta ao governador, pedindo o “socorro desses profissionais que se encontram privados do exercício da atividade econômica, evitando minimizar os danos sociais e econômicos e, ainda, que possa conceder à classe alguma verba ou benefício que os ajude a passar por estes tempos difíceis”.

A secretária estadual de Cultura e Economia Criativa do Rio, Danielle Barros, disse estar sensível ao grupo:

— Estamos fazendo o mapeamento junto aos municípios de toda a comunidade circense no estado, que é mais vulnerável à crise da pandemia, tanto pelo aspecto financeiro quanto pela forma de agrupamento em que costuma viver. Começaremos a levar cestas básicas com produtos alimentícios e de higiene. Também será avaliado se é mais adequado que passem a ocupar espaços vazios durante a quarentena, como escolas estaduais.

Nesta sexta-feira, 27 de março, é o Dia do Circo. Não há o que comemorar, na opinião de Cassius Vilela, de 46 anos, administrador do Circo Montreal, atualmente em São Gonçalo:

— Estou há dias sem dormir. Paguei R$ 6 mil no aluguel mensal do terreno, além de todas as taxas e licenças, mas não arrecadei nada. É claro que temos que respeitar a quarentena e não funcionar. Por outro lado, as reservas estão acabando.