Coronavírus: Comércios em comunidades do Rio descumprem decreto de Crivella e abrem

Rafael Nascimento de Souza

RIO - Em nova tentativa de impedir que o coronavírus se espalhe ainda mais nas 700 favelas do Rio, o prefeito Marcelo Crivella determinou que comércios considerados não essenciais dentro das comunidades fiquem fechados pelos próximos sete dias, em decreto municipal que passou a valer nesta terça-feira, dia 12. No entanto, em muitas áreas como Rocinha, Complexo do Alemão, Complexo da Maré e Cidade de Deus, é possível encontrar muitos bares, salões de cabelo, barbearias, lojas de roupas e de brinquedos ainda insistem em deixar as portas abertas.

Um exemplo está nas comunidades do Parque União e Nova Holanda, na Maré. Nas principais vias das duas favelas, muitos estabelecimentos estão funcionando normalmente, o que acarreta uma aglomeração de pessoas pelas vielas.

– Muitos bares com músicas estão funcionamento normalmente. As pessoas não estão se dando conta da gravidade da situação. Infelizmente, muitas pessoas estão morrendo e outras bebendo e curtindo – conta uma empregada doméstica que vive no Parque União e pede para não ser identificada.

Segundo dados da prefeitura, a Maré já registra oficialmente 37 pessoas infectadas com a doença e seis óbitos. A mesma situação acontece na Rocinha, na Zona Sul. No local, mesmo com a insistência das autoridades, o comércio não essencial ainda continua aberto. Segundo Wallace Pereira, presidente da associação de moradores da comunidade, atualmente 70% dos habitantes da localidade não estão respeitando o isolamento social e, praticamente, todos os estabelecimentos estão abertos.

– A Rocinha não está aderindo ao nosso pedido para que fiquem em casa e que só funcione os estabelecimentos essenciais. Não adianta passar com carro de som, pedir na rádio comunitária. Infelizmente, só 30% da população daqui tem respeitado o pedido – afirma Pereira, que é favorável ao decreto da prefeitura.

Moradores reclamam

Favela com 89 casos da Covid-19 e dez mortes em decorrência da doença, a resposta dada por comerciantes à Pereira, sobre manter os estabelecimentos abertos, é a questão da alimentação.

– Eles falam: “Como vamos comer? Como vamos pagar nossas contas? Ninguém vem aqui nos ajudar”. Mas eu digo que temos que fazer a nossa parte. E peço também que as autoridades olhem pela Rocinha. Muitas pessoas, lamentavelmente, estão passando fome – salienta o presidente da associação.

Moradora da Rocinha há mais de 58 anos, a aposentada Letice da Silva Fidêncio, 65, teve dois casos de parentes infectados pelo coronavírus nos últimos dias. Com medo, Letice, que é considerada como grupo de risco, lembra que a doença é severa, diz que se isolou e garante que só vai à rua para o necessário.

– Uma das minhas filhas e a minha neta foram infectadas. Foram diagnosticadas na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) e tiveram que ficar na quarentena. Elas ficaram bem ruins e isso tudo é muito triste. A população não tem respeitado. É bar aberto, é gente andando sem máscara. Tudo isso vai deixando a gente mais preocupada ainda. Eu tenho feito a minha parte. Entretanto, outras pessoas não – conta a idosa.

Questionada se as autoridades vão conseguir fiscalizar os estabelecimentos dentro das comunidades, Letice é cética:

– Vão conseguir fiscalizar como? Se nem com a quantidade de mortes o pessoal não respeita. Quando a fiscalização for embora, eles abrem novamente – afirmou.