Coronavírus: com resignação e bom humor, espanhóis vivem primeiro dia de confinamento

Alessandro Soler, especial para O GLOBO

MADRI — Com disciplina, bom humor e resignação, os espanhóis aderiram majoritariamente ao confinamento decretado na noite de sábado pelo governo, como medida de contenção ao coronavírus, e se trancaram em casa neste domingo. Num cenário que pouco deve aos filmes de catástrofe, as ruas de Madri — foco principal da doença no país, com metade dos cerca de 7.800 casos e 288 mortos — estão vazias. São pouquíssimos os automóveis, e ainda menos os transeuntes, quase todos carregando bolsas de supermercado, um dos escassos locais em que os espanhóis estão autorizados a seguir frequentando.

Carros de polícia e até do exército patrulham vias públicas para garantir o respeito ao toque de recolher sanitário, cujo descumprimento pode acarretar multas de 100 a 30 mil euros e, dependendo do nível de desacato à autoridade em caso de abordagem, até um ano de prisão. Mas é mesmo a vigilância cidadã a arma principal com que o primeiro-ministro Pedro Sánchez conta. Pelas redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, circulam vídeos de cidadãos comuns, em diversas cidades, repreendendo pela janela quem passa fazendo cooper ou andando acompanhado.

São muitas as regras envolvidas nos deslocamentos permitidos pelo extenso decreto, cujas negociações duraram sete horas no sábado e geraram fricções entre os dois partidos de esquerda que governam em coalizão, PSOE e Unidas Podemos. Os trajetos na rua só podem ser feitos por pessoas desacompanhadas — a menos que uma delas seja portadora de necessidades especiais —, e a lista de lugares aos quais se pode frequentar é de natureza “indispensável”: além dos supermercados, farmácias, hospitais, trabalho, bancas de jornal (para buscar informação sobre a epidemia e suas consequências), lojas de tabaco e...cabeleireiros.

— Enquanto assistia ao anúncio das medidas ao vivo, pensei “acho que meu espanhol está meio ruinzinho. Eu ouvi mesmo cabeleireiro?” — brinca Tatiana Sato, contadora paulistana que vive há cinco anos em Madri com o marido espanhol e, como muitos, enfrenta o confinamento com bom humor. — Depois entendemos que é para atender aos idosos e pessoas com necessidades especiais e que não têm como lavar a cabeça e fazer a sua correta higiene em casa. O confinamento total parece duro, mas é necessário. Não podemos pôr em risco as pessoas que são mais frágeis, como os idosos, e devemos poupar o sistema de saúde, parando a disseminação do vírus. A Europa demorou muito para reagir.

Campanhas nas redes

Se piadas sobre a inclusão dos cabeleireiros e a própria quarentena geral forçada não demoraram a cair nas redes, também o fizeram as mensagens de apoio às medidas. Termos como #ConfíaenPedroSánchez e #EsteVirusloParamosUnidos ocuparam o topo da lista de mais populares entre sábado e domingo.

Até líderes de regiões com forte sentimento nacionalista deixaram o discurso anti-Madri de lado e aderiram ao esforço coletivo, que inclui a intervenção em empresas para garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade e a possibilidade de conversão de hotéis em hospitais, caso o vírus continue a se alastrar aceleradamente (o número de mortes dobrou nas últimas 24 horas).

— O discurso e as medidas são corretos. O que irrita, mesmo, é ver como ainda tem alguns que estão desobedecendo. Gera uma sensação de impotência — descreve Daniel Brero Sánchez, engenheiro de Málaga radicado em Madri e que trabalha para a gigante do setor elétrico Iberdrola. — Desde quinta-feira estou em trabalho remoto, e isso requer muita organização, para que as refeições não se descontrolem, para tentar não misturar trabalho e coisas domésticas. Esta tarde começo a fazer exercício em casa. É preciso se adaptar.

A publicitária e relações-públicas Virginia Vera Montalti, natural das Ilhas Canárias e radicada na capital, corrobora. Resumindo o espírito geral de cooperação, ela conta que a situação de exceção contribui para, paradoxalmente, estreitar seus laços com amigos. Mesmo que virtualmente:

— Nossos avós tiveram que ir à guerra, nós só temos que ficar em casa. É um esforço pequeno, se comparado a outras crises que poderíamos ter vivido. Claro, não saber quanto tempo isso vai durar pode nos afetar psicologicamente. Mas a gente encontra formas de se juntar. Tenho combinado aulas de ioga por videoconferência com minhas amigas, falamos mais umas com as outras. A criatividade, num certo sentido, está florescendo.