Coronavírus: Comissão encontra leitos vazios a poucos metros de pacientes que esperam vagas em corredores

Hellen Guimarães e Lucas Altino

RIO - Uma comissão de saúde esteve, nesta sexta-feira, em quatro hospitais da capital para vistoriar os leitos impedidos - - isto é, que não podem ser usados por falta de profissionais, insumos ou avarias. Em todas as unidades, o cenário se repetia: leitos vazios, sem uso, enquanto milhares de pacientes aguardam em agonia para ocupá-los. De acordo com a comissão, há 1.840 nesta condição, distribuídos nos 27 grandes hospitais públicos e Coordenadorias de Emergência Regionais (CERs) da cidade.

O grupo é formado pelo deputado federal Pedro Paulo e o vereador Átila Alexandre Nunes, ambos do DEM-RJ, além do ex-secretário de Saúde do Rio, Daniel Soranz. No Hospital Municipal Lourenço Jorge, segundo Soranz, o grupo encontrou 43 leitos que poderiam aliviar o sofrimento de pacientes que esperam em corredores e cadeiras nas salas amarela e vermelha da emergência vizinha, o CER Barra.

- É assustador ver 1.840 leitos de excelente qualidade em unidade hospitalares com toda a estrutura de imagem, laboratório e hotelaria fechados por falta de técnicos de enfermagem e enfermeiros. Muito leitos visitados têm equipamentos completos e até respiradores. Tudo parado, sem utilização, porque o foco da prefeitura e do estado são os hospitais de campanha temporários - afirmou .

Já Nunes viu com a ironia o fato de o prefeito Marcelo Crivella estar inaugurando o hospital de campanha do Riocentro, que prevê 500 leitos a um custo mensal de R$25 milhões e cuja obra custou R$10 milhões, enquanto milhares de leitos da cidade estão impedidos. Para o parlamentar, a situação mais crítica se encontra no Hospital municipal Ronaldo Gazzolla, pois a unidade foi a primeira escolhida para ser a referência da rede no tratamento de pacientes com Coronavírus.

- Fiquei com um sentimento de indignação muito grande. Pessoas estão morrendo por causa da incompetência e falta de capacidade de gestão da prefeitura. Enquanto o prefeito inaugurava 100 leitos num hospital de campanha, no mesmo momento vistoriávamos o Ronaldo Gazzolla, que tem 151 leitos impedidos de um total de 380. Há vários quartos em estado perfeito, em alguns era possível até reparar o barulho do oxigênio escapando dos equipamentos. Constatamos que os terceiro e quarto andares estão em plenas condições físicas, mas esvaziados. Por que não funcionam? - disse Átila Nunes, lembrando que, pelos registros, o principal motivo do fechamento dos leitos é a falta de profissionais. - Em muitos casos faltavam apenas técnicos de enfermagem.

Por causa dessa situação, o vereador e o deputado federal Pedro Paulo (DEM) vão entrar com uma representação no Ministério Público denunciando improbidade administrativa do prefeito Marcelo Crivella.

- Abrir hospital de campanha deveria ser o último investimento. Primeiro o dever da prefeitura era abrir os leitos fechados para depois fazer hospital de campanha. Se ele estivesse construindo leitos extras após o esgotamento da rede, eu estaria aplaudindo. Mas não é o caso - afirmou Nunes.

A comissão visitou nesta sexta, além do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Zona Oeste, o Hospital Federal da Lagoa, na Zona Sul, o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, e o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, em Acari, na Zona Norte, referência para o tratamento de pacientes com Covid-19. Juntas, as unidades têm 394 leitos impedidos. De acordo com o grupo, a justificativa para a maior parte dos impedimentos é a falta de pessoal.

- Nos últimos 3 anos, segundo dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), a rede municipal de saúde do Rio cortou 6.200 profissionais (de janeiro de 2017 a fevereiro de 2020). Destes, 1.098 são médicos. Agora, no auge da pandemia, o Crivella anuncia que quer contratar 5 mil profissionais. Mas isso não repõe nem o que foi perdido nesse período - critica Soranz.

Para além da redução no quadro técnico, a comissão considera que a Prefeitura erra ao priorizar os hospitais de campanha em vez de disponibilizar os leitos vazios já existentes.

- Não é um problema de gestão, é um problema de opção política. Tem uma intencionalidade de montar um hospital, pra ficar bem na foto, enquanto tem leitos disponíveis em todos os hospitais da rede. Em Acari, metade do hospital está fechada com 150 leitos vazios. No INTO, também são mais de 150 leitos desocupados, alguns com respiradores, mas todos com as estruturas necessárias. No da Lagoa, a situação se repete. Os funcionários dizem, e também está escrito na justificativa do impedimento, que de pessoal só faltam os técnicos. Ficaria muito mais barato contratar do que construir toda uma estrutura temporária. Foram R$ 83 milhões só na estrutura do hospital de campanha da Barra - criticou Soranz.

O ex-secretário destacou ainda que, para além do benefício para a rede a longo prazo de se investir na rede de forma definitiva, os hospitais convencionais têm vantagens sobre as estruturas de campanha.

- Tem que se questionar se foi o melhor investimento usar milhões para abrir um hospital de campanha enquanto há 1.800 leitos na rede. Acari, que é de muito mais fácil acesso para a população do que a Barra, tem dois CTIs fechados por falta de RH. Todas as unidades em que fomos hoje têm sistema PACS de imagem, tomógrafo, as pessoas podem ir no banheiro normalmente, diferente do de campanha, que, até pela estrutura de alvenaria, têm desempenho clínico pior.

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